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Quando vamos resgatar o óbvio?
Wolf Borges - Publicado em 23.08.2006

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Certa vez, na história de colonização dos Estados Unidos, um presidente americano propôs a uma determinada tribo a compra de suas terras. Estes, na sua inocência e amor à natureza e à vida, responderam numa famosa carta, algo como: “Os brancos querem comprar a terra, mas nós é que pertencemos a ela - os rios são nossos irmãos, a terra toda é sagrada, a águia, os animais (...) toda a terra é nossa mãe (...) quando o nosso povo não puder mais ver isso, não haverá mais vida e sim sobrevivência”...
Parece que já estamos vivendo no mundo da “sobrevivência”, aclamado pelo sábio cacique. O pragmatismo capitalista, a postura utilitária, a sede por poder, fizeram uma desconexão entre a natureza e o ser humano. Fragmentamos nossa visão de todo, nos tornamos especialistas míopes numa escravidão organizada chamada “sociedade moderna”.
Para justificar o treino neste ceticismo institucionalizado, nos tornamos omissos e insensíveis diante do outro, aceitamos como natural a impunidade, o desrespeito ao outro ou à natureza, aceitamos até como justificáveis as últimas notícias do “terrorismo americano” e seus perigosos brinquedos de dominação, sim, pois há pouco tempo, “terroristas” eram um grupo de revolucionários que utilizavam da violência como forma de protesto extremado de suas intenções não atingidas. Agora, o propalado ataque terrorista americano, propõe-se a uma demonstração “reacionária” de poder, acompanhada de prepotência, interesse econômico e egoísmo, ou uma resposta imatura de outro ataque irracional, o do 11 de Setembro.
Os manifestos de paz do mundo inteiro talvez queiram dizer que chegamos a um momento decisivo de negar a estupidez reinante e buscar crescimento e integração com o mundo em que vivemos. A terra não pode ser vista como recurso, um aparelho, e sim como o lugar da vida. Estamos destruindo a cada dia a nossa qualidade de vida em troca de um relativo poder e lucro. Talvez seja um grito para não nos acostumarmos com a distância estabelecida nas relações, esquecendo que só poderemos promover mudanças consistentes no encontro com ou outro. Ninguém é uma ilha, ninguém muda sozinho. Precisamos começar a ser conseqüentes e responsáveis em nossos pequenos gestos, imaginando que ele se reflete em todo o universo, resgatando nossos mitos e crenças promotoras da vida. Podemos correr o risco de viver um momento na história em que poderá ser tarde demais para resgatar o óbvio.
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