Os 25 anos da conquista do Flamengo do Mundial Interclubes no Japão < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Publicado em 13.12.2006

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Há 25 anos a maior torcida do mundo comemorava o título inédito de Campeão do Mundo. E que time era aquele! Entre 1978 a 1983 o Flamengo conquistou o bicampeonato do Troféu Ramón de Carranza (Espanha), o torneio Palma de Mallorca, Copa Punta Del Este, Torneio Internacional de Nápoles,
  Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo
 


 

Torneio Ciudad de Santander, Taça Ciudad Palma de Mallorca, quatro campeonatos estaduais, cinco Taças Guanabara, uma Taça Rio, três campeonatos brasileiros, Taça Libertadores da América e, claro, o maior título da história do clube, o Campeonato Mundial Interclubes.

Quem viu o Flamengo de 81 a atual veneração por Obina chega a ser cômica. Claro que o jogador baiano se identifica com a torcida com o seu jeito simples e honesto, mas, o Flamengo da Era Zico foi um dos melhores times de todos os tempos. Capaz de reunir grandes craques numa só equipe, que por sorte era a maior torcida do país, que fazia esquecer a ditadura militar claudicante. "Estepaiz" era melhor em 1981 porque as condições eram melhores. O Brasil de 2006 é pior para todas as classes sociais. Do pobre que fica no meio do tiroteio entre polícia e traficante ao rico baleado no sinal de trânsito.

O país de 1981 vivia sob uma ditadura, um operário ainda não tinha seu avião particular e os salários eram melhores. O país viva sob repressão, mas com menos violência urbana e desemprego. Em 1981, o presidente era considerado um ignorante e desqualificado para o cargo. Figueiredo é um intelectual se compararmos com o Nosso Guia, aquele que se gaba de não ter lido nenhum livro na vida.

1981 foi mais um peculiar ano do estranho século XX - O ônibus espacial Columbia fez o seu primeiro vôo. Atentado do Riocentro. A Grécia ingressou na União Européia. Crise no Irã. Pinochet reeleito para mais oito anos. O ator Ronald Reagan assumiu a presidência dos EUA. Em março, sobreviveu a um atentado em Washington. Em maio foi a vez do papa João Paulo II. Pol Pot mandava matar milhares de opositores. François Mitterrand presidente. Estreou o Sistema Brasileiro de Televisão - SBT, após uma controvertida concessão do governo. Antigua e Barbuda e Belize independentes. Assassinato de Sadat. Casamento de Diana e Charles e mais um monte de gente que casou no mundo e não foi notícia. Assassinatos em massa, crises do petróleo e demais manchetes de sempre que aparecem nos jornais. Irã-Contras, África do Sul invade Angola. Atentados terroristas no Oriente Médio. O mundo ficou chocado com os 114 mortos e 200 feridos no desastre do hotel Hyatt Regency, mas pouquíssimos ficaram emocionados com as mortes de milhares de pessoas no Terceiro Mundo. A vida tem peso diferente em cada continente. Em Cuba, mais de 300 mil pessoas são vítimas da dengue.

Nasceram Paris Hilton, Elijah Wood, Ana Hickmann, Anna Kournikova, Jessica Alba, Adriana Lima, Beyoncé Knowles, Britney Spears, e mais um monte de gente bonita que hoje nada em dinheiro. Nasceram milhões de serres humanos que nunca terão nomes famosos em 2006, 2007, 2008, etc. Faleceram o músico Bill Haley; os filósofos Lanza del Vasto e Will Durant; os escritores James H. Schmitz, A.J. Cronin; o gênio do mal Albert Speer. Quem se importa se no mesmo ano morreram os "gênios" Bob Marley e Glauber Rocha?

A MTV foi inaugurada, o Metallica foi criado e o Yes terminava (temporariamente). Simon and Garfunkel fizeram um megaconcerto em Nova York. Nelson Piquet campeão na Fórmula 1. Ayrton Senna brilhava na Fórmula Ford 1600. Odyssey lançado para combater o Atari. Rondônia virou estado. Grêmio campeão brasileiro e a maior torcida do mundo comemorava no dia 13 de dezembro seu primeiro e único título mundial.

Pena que Cláudio Coutinho não pode ver o trabalho que ajudou a construir. O tri-campeão estadual Coutinho saiu do Flamengo após a conquista do campeonato brasileiro de 1980. Em 27 de novembro, pouco antes de ir para o futebol árabe, o ex-treinador da seleção brasileira morreu afogado durante uma pesca submarina nas Ilhas Cágarras.

O caminho para Tóquio não foi fácil. Na primeira fase da Libertadores o Flamengo enfrentou o Cerro Porteño, Olímpia e o Atlético Mineiro. Os dois times brasileiros fizeram um histórico jogo de desempate no Serra Dourada. O árbitro José Roberto Wright expulsou seis jogadores do Atlético, estragando o embate dos dois melhores times do país do momento. Na segunda fase o Flamengo superou o Deportivo Cali e o Jorge Wilstermann. As finais contra o Cobreloa foram memoráveis. No primeiro jogo a equipe do Rio venceu por 2 a 1 no Maracanã. No jogo de volta o Cobreloa venceu por 1 a 0. Era necessário um jogo-desempate. O clima era tenso. O Chile vivia a ditadura de Pinochet e o Brasil dos militares. O futebol arrasta milhões e vencer a Libertadores era mais do que uma disputa entre dois clubes sul-americanos, estava em jogo uma substancial ajuda para a permanência no poder. O Estádio Centenário foi palco da batalha. O Flamengo venceu por 2 a 0 com o "boxeador" Anselmo fazendo a sua parte. Antes do Mundial o Flamengo ainda teve uma final contestada contra o Vasco no Estadual do Rio de Janeiro. Vitória por 2 a 1 do time de Zico com a histórica invasão de campo do "ladrilheiro". Sete dias depois o Flamengo era campeão mundial.

Os ingleses do Liverpool esnobaram o time brasileiro. Incrível, mas esnobaram o time que tinha Júnior, Mozer, Raul, Tita, Zico, Adílio, Leandro... O mesmo erro aconteceria 24 anos com o desprezo e derrota para o São Paulo. O Liverpool era favorito da imprensa européia. Bicampeão inglês (1979 e 1980), campeão da Copa da Inglaterra (1981) e da Copa dos Campeões da Europa (1981) eles se perguntavam se um time de sul-americanos seriam capazes de pará-los. Para eles o Brasil só vencia Copas do Mundo. O Brasil é o único país da Conmebol que não fala o castelhano. Isto influenciava na época que nem todos os jogos eram televisionados. Sempre que uma equipe brasileira joga o árbitro, os jogadores adversários e torcidas falam espanhol. A discrepância do futebol brasileiro com a falta de conquistas no continente ficou claro com o intervalo entre o bicampeonato mundial do Santos em 1962 e 1963 até o Flamengo em 1981. O Cruzeiro venceu a Libertadores de 1976, mas perdeu a decisão do Mundial. A seleção brasileira ficou 40 anos sem ganhar uma Copa América. Com o mundo ficando menor o Brasil soube tirar vantagens. De 1995 a 2006 os times brasileiros venceram seis Libertadores e fizeram as últimas duas finais brasileiras, algo impossível anteriormente.

Planeta Terra. Cidade Tóquio. Estádio Olímpico. Dia 13 de dezembro. O Flamengo entrou em campo com o seu segundo uniforme. A Nike lançou recentemente a linha “retrô” com o Uniforme rubro-negro (Final da Libertadores) e o uniforme branco (Mundial). Apesar do salgado preço as camisas estão praticamente esgotadas. No primeiro tempo o Flamengo fez 3 a 0 (com dois gols de Nunes e um de Adílio). Zico não fez, mas foi eleito o melhor jogador em campo. Ingleses entraram esnobes e saíram atônitos.

Zico é um dos maiores injustiçados do futebol mundial. Era reserva em 1978, perdeu uma Copa do Mundo em 1982 por azar e em 1985 foi covardemente agredido por um jogador do Bangu. No ano seguinte disputou a Copa do México sem condições. No primeiro lance contra a França deixou Branco na cara do gol. Pênalti. Zico não estava em condições de bater. Estava frio e lesionado. Bateu. Perdeu. 1 a 1. Disputa de pênaltis. Brasil eliminado.

As pessoas só lembram do pênalti deste lance. Anos depois Sílvio Santos num "Topa Tudo por Dinheiro" chamou uma senhora de idade para participar da brincadeira do vídeo. Ele passou um vídeo da Copa de 1986 e na hora que Zico ia bater o pênalti perguntou se ele acertaria. Ela afirmou categoricamente que sim. O auditório inteiro soprava não. Quando ela disse sim, as pessoas não se continham e passaram a gritar "Não. Ele vai errar.". Sílvio Santos, sempre espirituoso, perguntou se tinha certeza da resposta. A senhora respondeu que sim. Que confiava no Zico e que ele não perderia o pênalti. Aperta o Play... Suspense. Gol! Auditório fica boquiaberto. Como assim? Gol. Sim, gol do Zico de pênalti contra a França na Copa do Mundo de 1986. Não teve armação nem montagem. Na disputa de pênaltis Zico acertou a sua cobrança. Platini perdeu. Sócrates e Júlio César também e o Brasil foi eliminado.

Quando criança costumava ver os jogos de Zico e cheguei a ir a alguns treinos na Gávea. A tradição dos cariocas ítalo-brasileiros é torcer pelo Fluminense. Parte da família é tricolor e parte flamenguista. Isto pouco importa, para os times do Rio o começo dos anos 80 trouxeram espetáculo para os times que dominavam no Estado (Flamengo, Fluminense e Vasco). Eram duelos que prendiam a atenção do país. A força dos times do Rio no começo dos anos 80 era evidente. O Flamengo foi campeão em 1980, 1982 e 1983; o Fluminense derrotou o Vasco na final em 1984. O Bangu foi vice em 1985 e Botafogo e América fizeram boas campanhas.

Na comemoração dos 25 anos do título mundial o Flamengo reuniu grande parte dos heróis da conquista venceu um combinado máster por 6 a 1. O jogo realizado em Volta Redonda reuniu menos de 2 mil pessoas. Incrível. Falta de divulgação e datas. Este é o profissionalismo do futebol brasileiro. Um celeiro de craques em campo e de pernas-de-pau de gravatas. O público matou a saudade de uma equipe vitoriosa. Uma lástima que poucos puderam rever Nunes, Cláudio Adão, Júnior, Zé Carlos, Adílio, Andrade, Júlio César, etc. As ausências de Raul, Leandro, Mozer, Tita e, sobretudo, Zico, não foram páreo para a falta de preparação. O Galinho tinha compromissos com o Fenerbahçe, clube turco que dirige. Mesmo assim, o jogo poderia ser realizado com mais divulgação e no Maracanã. Palco da conquista de vários jogadores. Todos sairiam ganhando. O povo tão carente de glórias precisa de seus gladiadores na sua maior Arena.

Em 1981 o Flamengo retornava a casa com uma grande recepção no Aeroporto. Desfilou em carro alegórico na cidade. O futebol é ópio? É. E daí? Quem é que pode viver sem fantasias? Apenas os hipócritas de plantão que dizem que não precisam delas.

Ficha da Final do Mundial Interclubes de 1981
Flamengo 3 x 0 Liverpool
Local: Estádio Olímpico, Tóquio, Japão
Flamengo: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo C. Carpeggiani
Liverpool: Grobbelaar, Neal, Kennedy, Lawson e Thompson; Hansen, Lee e Souness; McDermott
(Johnson) Johnstone e Dalglish. Técnico: Bob Paisley
Árbitro: Mario Rubio Vasquez (México)
Gols: Nunes, aos 13, Adílio, aos 34, e Nunes, aos 41 minutos do primeiro tempo
Público: 62.000

Ficha do jogo comemorativo da conquista do Mundial de 1981
Flamengo 6 x 1 Seleção de Másteres
Local: Estádio Raulino de Oliveira, Volta Redonda (RJ)
Flamengo de 1981: Zé Carlos; Delacir (Nei Dias, depois Delacir), Jaime, Marinho (Lima) e Júnior (Gilmar Popoca); Andrade (Chiquinho) Adílio e Lico (Nélio); Cláudio Adão (Paulo Henrique), Nunes (Renato) e Júlio César (Carlos Henrique). Técnico: Sebastião Lazaroni
Seleção de Másteres: Wellerson (Fábio); Josimar (Paulinho Pereira), Nei, Wilson Gottardo e João Luís (Carlos Alberto); Macula, Mauro Galvão (Betinho), Wilsinho (Vicentinho) e Assis (Bebeto - cantor); Mauricio (Josimar) e Marinho (Lulinha). Técnico: Douglas Oliveira
Árbitro: Marcelo Leão, auxiliado por Iraci Tavares e Cláudio Silva
Gols: Nunes, aos 18 minutos; Cláudio Adão, aos 26 minutos; e Marinho, aos 28 minutos do primeiro tempo. Chiquinho, aos 2 minutos; Nélio, aos 14 minutos; Nélio, aos 40 minutos; e Delacir, aos 44 minutos do segundo tempo.
Público: 1.600

  Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo Nunes comemora mais um gol na final contra o Liverpool em Tóquio Zico comemora a conquista do Mundial Interclubes em 1981 - 25 anos da conquista do Flamengo

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