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Ordem e caos
Janos Biro - Publicado em 21.10.2006

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Todos conhecemos o discurso ambientalista: salvar, preservar, respeitar e cuidar da “natureza”, como se essa palavra significasse o conjunto de flora e fauna, e como se ela devesse ser cuidada como um jardim, salva dos “homens maus”, preservada como uma estátua, respeitada como um ser que pede ajuda aos “homens bons”. Mas alguns ecólogos não estão interessados em preservar a aparência das áreas silvestres para que os “amantes da natureza” possam admirá-la. Esses ecólogos se preocupam com questões mais abrangentes. Não se limitam a quantificar os estragos e depois dizer: “Definitivamente, temos que parar de poluir!”. Eles não irão simplesmente nos lembrar que poluímos e devastamos a natureza, irão procurar as causas profundas dessa situação. Não irão cobrar simples atitudes paliativas da população em geral, irão tentar apreender uma crítica radical da sociedade e da cultura civilizada. Não acreditam que o ser humano é poluidor e sim procedem a uma análise sistêmica e estrutural profunda. O ser humano é com certeza uma parte importante da natureza. Mas os ambientalistas que pensam assim infelizmente são raros. O ambientalismo hoje lembra o que foi o abolicionismo no passado. As promessas não condizem com os resultados, e as causas são mais políticas e econômicas que qualquer outra coisa. A razão é que a popularização do ambientalismo, influenciada inicialmente por países desenvolvidos, foi feita sem um contexto apropriado. Não devemos divinizar a natureza como se tudo que viesse dela é bom, mas também não devemos vê-la como um inimigo, um monstro destruidor que deve ser controlado. Ambas as visões estão equivocadas e são típicas de nossa cultura. Para nós, a natureza está essencialmente contra o ser humano, e deve ser submetida a ele. Os homens a temem profundamente por sua imprevisibilidade e poder, mas procuram dominá-la sistematicamente para usar seu poder “racionalmente”. Para os tribais tratava-se de algo bem diferente: era uma troca, um acordo entre os dois lados, e não de uma ação coerciva e unilateral. Alguns defensores da natureza tendem a ver a vida selvagem de forma romântica, como se ela existisse para consolar o homem se seu drama existencial, invertendo o sentido da visão civilizatória, mas ainda caindo no mesmo erro.
Nossa tecnologia é espantosa, porém é uma tecnologia expansiva, da qual nos tornamos cada vez mais dependentes, e que quase sempre se desenvolve por interesses políticos ou econômicos de grupos dominantes. Tornamo-nos reféns do desenvolvimento tecnológico quando precisamos dele para manter nosso modo de vida e ao menos tempo lidar com os efeitos nocivos dele mesmo. Tão errado quanto confiar que o avanço tecnológico irá nos salvar é acreditar que a tecnologia é a raiz de todos os problemas, e que basta negá-la para resolver tudo.
O fato de que tudo que façamos seja possibilitado pela nossa natureza não significa que tudo será válido ou bom. Se a própria natureza é extremamente seletiva com suas criações, porque deveríamos ser tão permissivos com as nossas? Quando lidamos com engenharia genética, por exemplo, devemos ter consciência que estamos alterando combinações que levaram milhões de anos para se encaixarem na harmonia delicada do ecossistema, e que não podemos prever o resultado de mudar isso usando apenas a razão quantitativa. Devemos compreender a diferença entre lentas mudanças de dentro para fora e mudanças repentinas de fora para dentro. A manipulação de genes não é ruim porque estamos “brincando de deus”, nos colocando no lugar do criador do mundo, mas porque nos falta conhecimento sobre o que realmente estamos fazendo. Nem mesmo o criador, seja ele deus ou a própria natureza, criou tudo de uma vez, de fora para dentro. Mesmo que conheçamos tudo que é humanamente possível conhecer, ainda saberemos muito pouco sobre o funcionamento da natureza. Estamos infinitamente longe de compreender como a natureza deve ser. As empresas que investem milhões nesse tipo de pesquisa dizem que qualquer um que se oponha está sendo contra o progresso da ciência. O conhecimento não pode ser reduzido a controlar e recriar a natureza ao gosto do homem. Conhecimento prático também é conhecimento.
É verdade que também somos responsáveis por nossa própria evolução, mas isso não significa que possamos guiar nossa evolução teleologicamente. Todos os seres vivos têm autonomia. Nós não temos mais capacidade para selecionar harmonias ou para fazer emergir ordem do caos do que a natureza em seu todo. Embora essa percepção seja restrita, não é tão pequena a ponto de justificar uma posição de extremo relativismo e afirmar que tudo é válido porque tudo é possível; que não há verdade nem falsidade, pois a própria natureza é puro caos e aleatoriedade, e que tanto faz afirmar ou negar algo. Esta é uma postura extremamente cética, não se pode desconsiderar o valor do conhecimento. Além disso, geralmente é usada por pessoas que querem se defender de toda e qualquer crítica. Não podemos ignorar que a evolução depende do acúmulo de informação, e que isto não significa que a evolução seja linear.
Ordem e caos se completam. Tentamos controlar o caos impondo uma ordem criada de fora para dentro, e não deixando que ela se revele para nós. Este tipo de impaciência para ordenar o mundo pode ser conseqüência de sermos capazes de criar e transmitir significados muito mais rapidamente do que eles se criam ou se transmitem no mundo. Pode ser que nos sintamos desesperados por adquirir controle total, para eliminar todos os “erros”. Talvez estejamos procurando nossa satisfação nos extremos entre ordem e caos, e não no equilíbrio entre ambos. Observar a natureza pode nos ajudar a perceber que este equilíbrio não só é possível como necessário.
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