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Brasil: o país dos "Sem"
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 21.10.2006

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O Brasil é o país dos "sem": dos “sem-terra”, dos “sem-teto”...
Isso indica que aqui existem inúmeros contrastes, típicos de uma sociedade cada vez mais estratificada por uma intensa concentração de renda.
Esse quadro é histórico, mas, também se deve, em grande parte, do modelo neoliberal imposto pelas potências econômicas e agravado pela evolução tecnológica. O desemprego decorrente, nas cidades e, principalmente, no campo, gera um significativo contingente humano, que vive no limbo, tendo como opções: a informalidade, o fanatismo ou a marginalidade, com as manipulações de praxe. Assim, a pirataria, o contrabando, a prostituição e a sonegação existem como formas limítrofes e dramáticas de sobrevivência, ora servindo, ora ameaçando a "estabilidade" do sistema.
Isso é “compreensível” e, até, "natural" num modelo econômico que privilegia o capital "sem pátria", por vezes amoral ou imoral ("sem vergonha").
Essa distorção de valores - ou valorização consumista - exerce um fascínio quase irresistível nas classes menos favorecidas. Conheço pessoas que largaram empregos formais para atuarem como “guardadores de carros”, onde passaram a ganhar muito mais, com as gorjetas. No âmbito econômico, sua decisão seria um "case" de sucesso na área de “prestação de serviços”, não fosse o fato dessa atividade tornar patente a ausência ou ineficiência do Estado com garantidor da segurança pública; afinal, quem paga por seus “serviços” sabe, no íntimo, que está protegendo seu patrimônio de represálias pela recusa em fazê-lo. À sobrevivência, justificável, une-se, portanto, a coação, oportunista e, via de regra, impune: algo próximo da “lei da selva”.
Essa falta de opção ou opção “fácil” - e seus desdobramentos - envolve uma imensa massa “sem perspectiva”, cuja postura é combatida e estigmatizada, mas que, muitas vezes é liderada por membros respeitados das elites, sempre atentos às novas "oportunidades" de investimento lucrativo. É o caso do crime organizado, em suas várias vertentes; e das estruturas de segurança privada. A "doença" é tornada crônica, e o uso de violência e repressão como mecanismos de controle social deixam de ser monopólio do Estado, para serem assumidas por quem se propõe a fazê-lo, em benefício próprio.
O primeiro passo desse processo de degradação é a desvalorização das instituições; o segundo é a desobediência civil; e o terceiro é a guerra civil ou a ditadura. A desvalorização das instituições está em processo: interno, pela leviandade e corrupção; e externo, pela confrontação e certeza de impunidade.
A sociedade quer as instituições fortes, coerentes e democráticas! No entanto, essa não parece ser a ótica de parte significativa de muitos de seus representantes, que são os primeiros a desrespeitá-las. Assim, o povo se sente distraído e traído, sem que ninguém saiba de nada...
O surgimento de movimentos sociais radicais também decorre desse descaso institucional, e tende a ser tão mais radical quanto maior é a insensibilidade ou falta de posicionamento dos atores formais do sistema. O injustificável, porém, previsível episódio da invasão do Congresso, em 06/06/06, é um exemplo; e só alegrou quem esperava manifestações da besta nesse dia, e teve oportunidade de assistir várias delas em ação...
Preocupa que a evolução desse processo transforme os Três Poderes em instituições “666-boca”...
As reações contrárias ao ataque do MLST foram maioria, mas, não foram poucos os que a justificaram “veladamente”. Essa postura mostra que há pessoas, tidas como esclarecidas, que compreendem e aceitam manifestações radicais, da mesma forma que alguns políticos compreendem e aceitam a corrupção como prática “institucionalizada”.
Nada justifica esses atos de violência, mas, nesse caso, eles servem para lembrar que os atores institucionais não são imunes aos seus atos e omissões.
Com certeza, teríamos menos "sem-teto" e "sem-terra" se tivéssemos menos "sem-vergonhas" atuando nas instituições; e menos "libertadores dos sem-terra" se não tivéssemos tantos "libertadores de sem-vergonhas".
Se juntarmos ao episódio do Congresso, outros, recentes, é possível perceber que estamos flertando, perigosamente, com a desordem...
Ou as instituições se autodepuram, se moralizam, se humanizam e, por fim, se conscientizam de seu papel social e democrático, ou as conseqüências, mais do que previsíveis, poderão ter desdobramentos imprevisíveis, mesmo para os adoradores do caos...
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