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Janos Biro - Publicado em 31.10.2006




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Admitir nossa responsabilidade por como as coisas vieram a ser como são com certeza é uma parte importante e indispensável da nossa reflexão; uma nova cultura não é possível sem isso. Vou começar pelo conceito de civilização. Civilização, no contexto da crítica cultural radical, é diferente da civilização dos historiadores. Eles expandiram o conceito para incluir quase todos os seres humanos da história nele. Mas existe um outro conceito, mais antigo, de que civilização é composta de cidadãos, e por isso só é possível numa polis. A polis, por sua vez, não é nada como uma aldeia. Numa polis nem todos são cidadãos. No caso dos gregos, apenas os homens livres eram cidadãos. Mulheres e escravos estavam lá de carona, assim como animais domesticados. Eles fazem parte da civilização por imposição de seus "donos" ou maridos. As mulheres, por exemplo, eram consideradas naturalmente incapazes de se controlar sozinhas, sem homens para "domá-las" elas se tornariam uma legião de bacantes, mulheres que viviam nas florestas, bebendo vinho, transando e matando os homens. Em outras palavras, civilização é tudo que estava sob controle desses "homens livres".

Eles consideravam que qualquer grupo de pessoas fora da "civilização" não poderia ter uma organização social estável e duradoura. Deviam ser seres perdidos, não podiam existir a muito tempo. Havia duas explicações para isso: ou eles eram compostos de pessoas exiladas de um outro grupo social organizado, ou eram homens "novos", que tinham saído da animalidade apenas recentemente.

Assim, tinha sentido fazer comércio e amizade com outros grupos "civilizados", mas não havia preocupação em saber de onde os "bárbaros" vinham ou o que pensavam. "Eles brotam do chão", era uma explicação razoável e comum. Não poderiam ter vindo de um povo organizado e social. Mas quando viram as primeiras "tribos", os civilizados disseram: "Este povo está começando a ficar civilizado, talvez nós possamos ajudá-los a ser completamente sociais como nós". Eles pensavam que o homem havia vivido muito pouco tempo sem a polis, que ele logo precisaria de um "contrato" para sair do lamentável "estado de guerra". Nosso conceito de estado foi criado por pessoas que pensavam assim. Quando descobrimos apenas recentemente que o homem existe há centenas de milhares de anos, e que a agricultura expansiva, a geometria, e tudo que eles consideravam realmente "civilizado" é extremamente recente na história do homem, apenas disseram: o que havia antes era uma pré-civilização, e como a história do homem é a nossa história, isso deve ser a pré-história do homem. Faltava alguma coisa, e alinda falta, para o homem ser realmente “homem”. Pelo menos essa é a idéia que permeia a “civilização”.

A crítica cultural profunda é uma crítica à civilização no sentido de organização que pressupõe o controle da natureza, de fortes divisões hierárquicas, onde alguns homens são mais homens que outros, e ninguém ainda é homem mesmo. Os tribais são não-civilizados, não porque ainda não têm polis, mas porque tem outra coisa que funciona bem para conviverem socialmente. Isso apenas mostra que a civilização não é necessária para vivermos em sociedade, e podemos ir além dela, rumo a algo melhor. No entanto, não sabemos como fazer isso, nem que tipo de sociedade seria essa. E nem poderíamos saber, começamos a pensar nisso muito recentemente.

As pessoas se recusam a pensar nisso porque é mais cômodo para elas imaginarem que a maneira que vivemos agora é a maneira que estávamos destinados a viver desde que surgimos. Ou seja, podem haver algumas contradições e problemas aqui e ali, mas no geral estamos no caminho certo. Só precisamos corrigir alguns desvios ao longo do caminho, mas num todo não vale a pena questionar as premissas de nossos fundadores, os pensadores que nos deram a noção de polis, Estado, revolução. Quando usamos o termo "pensadores", imaginamos essas pessoas que deixaram algo escrito, ou que espalharam alguma mensagem que foi depois escrita por outro. Só é pensamento e só é história se estiver escrito ou documentado de alguma forma. Mas alguns povos tribais sem escrita têm uma história muito rica, eles também têm pensadores, eles pensaram em coisas “simples” como: o valor do amor, da amizade, da coragem, da honra, da determinação... e também o inverso de tudo isso. Suas estórias não apenas expressam essas coisas, elas ajudaram a criar nossos comportamentos em torno dessas coisas. Esses comportamentos vieram de necessidades sociais ou pessoais, mas em algum momento foram escolhas conscientes; idéias que deram certo. Eles apenas não guardam o nome do autor, e isso não é importante. As idéias realmente boas não pertencem ao autor. O que fizemos em relação a isso? A coisa mais ingênua que pode haver: começamos a escrever as estórias tribais e colocar professores tribais passando essas estórias para seus alunos como se isso pudesse salvá-los do processo de assimilação. Como se essas palavras sozinhas fossem suas culturas. A cultura não é um conjunto de palavras e idéias, é um modo de viver, depende do meio em que se vive, é uma adaptação ao meio como qualquer outra conquista evolucionária. Tribos não deviam viver em “reservas”, estamos reservando um espaço para eles assim como reservamos um espaço para as árvores, a grama, os animais: podem ficar ali, contanto que não entrem no nosso caminho. E assim como árvores sem liberdade de espalhar suas sementes onde quiserem tem seu processo evolutivo interrompido e modificado, os tribais também estão condenados pelo mero fato de entrarmos em “contato” com eles, Na verdade não é contanto, como uma tribo faz com a outra, o que fazemos é sempre intervenção.

As pessoas se recusam a pensar que nosso modo de vida é apenas uma entre infinitas possibilidades porque precisam justificar tanta pobreza, miséria e desigualdade com algo como: é o preço inevitável do progresso inevitável da humanidade. Minha atitude quanto a isso tem sido a paciência. Encontrar meios de dialogar e fazer a pessoa considerar os fatores que ela desconsidera automaticamente, por costume e por autodefesa. E também encontrar aqueles que não tem medo de pensar nessas coisas e desenvolver com eles novas idéias e novas aproximações, com eu fiz agora. Agradeço aos membros do grupo de discussão Uma Nova Cultura, pois esse texto saiu diretamente de nossas conversas.

Uma estória para sobre a crítica cultural profunda:

Um homem fez um barco muito especial e prometeu levar todos os homens para um lugar melhor, mas antes do meio do caminho o barco começou a fazer água. Alguns homens notaram isso e descobriram que o barco iria afundar depressa. Embora eles usassem outros barcos menores há muito tempo, quase todos foram desmontados para aumentar esse novo barco e evitar que ele afundasse. O que os outros homens disseram foi: “O que dizem não faz sentido, é contraditório. Por acaso vocês poderiam fazer toda essa crítica da qual se gabam e acusar assim o barco que os trouxe até aqui sãos e salvos se não estivessem a bordo também? Dependem do barco que criticam! E o ridicularizam, como se não fosse a maior invenção da humanidade. Encontram furos no próprio barco, ora, pulem fora se não gostam dele assim! Não percebem o contra-senso? Deveriam fazer como nós, que nos sacrificamos para tirar a água do barco, sem nos importar com eventuais furos, que são apenas resultados inevitáveis de ter um barco como esse, e é só por isso que todos estamos vivos até hoje. Você não estaria aqui sem nós, seu mal agradecido.”. Os mais moderados até mesmo cediam à crítica, mas sem priorizar os furos: “É claro que esse problema dos furos é real e importante, mas o mais urgente é tirar a água. Quando tirarmos toda a água e o chão estiver seco podemos pensar no que fazer com os furos.”. Responderam o seguinte: “A cada barco menor que é desmontado para tapar um furo, dois surgem como resultado da expansão. Isso nunca vai dar certo.”. Mas receberam a palavra final: “Tenha fé no barco, ele não é de todo ruim, não há como voltar aos barcos pequenos, então se acostume”. Alguns dos homens desistiram, construíram botes com restos do barco e foram embora. Outros continuam, pois acreditam que não seja tarde demais para transformar o barco em algo que flutue de verdade, como os barcos pequenos sempre fizeram, se as pessoas realmente quiserem isso.


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