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O país dos sem e a crise dos aeroportos
Jaime Leitão - Publicado em 05.12.2006
Leio nos jornais sobre o caos aéreo nos últimos dias nos principais aeroportos do país: vôos atrasados várias horas, passageiros dormindo espalhados pelo chão, outros, revoltados, quebrando balcão de companhia aérea e invadindo avião que teve vôo cancelado. Está nascendo uma nova categoria no Brasil: o grupo dos sem-vôo. Os controladores de vôo, depois do acidente com o avião da Gol, ficaram mais exigentes, temerosos que o pequeno número de profissionais e o excesso de trabalho possam levar
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a novos desastres. O Ministro da Defesa Waldir Pires, perdido no meio da confusão, faz várias reuniões com controladores, mas a solução ainda deve demorar um bom tempo.
O problema é que vamos acumulando crises numa velocidade muito maior do que a nossa capacidade de resolvê-las. Os sem-terra já iniciaram nova temporada de invasão de terras para obrigar o governo, do qual é aliado, a acelerar a reforma agrária. Esse é outro problema antigo, que nunca avança. Todos os governos que entram prometem distribuição de terra, mas ela é feita de maneira precária, sem criar condições para aqueles que recebem a terra possam viver nela produzindo. E há outras distorções, que nunca são corrigidas, agravando mais e mais tão delicada questão.
Há também os sem-teto. Muitas famílias sem casa e sem acesso à habitação. Isso acaba gerando conflitos de invasão, radicalização de ambas as partes, poder público e invasores, e nunca se chega a um acordo.
E a multidão dos que vão aos hospitais passando mal e permanecem horas ou dias nos corredores esperando atendimento enquanto a doença se agrava? Ninguém fala deles, mas são os sem-saúde, os sem-hospital.
Ainda há um número grande de crianças sem acesso a creches e a escolas. A educação no Brasil tem sido muito maltratada, e não é de hoje. Os sem-educação, à margem do processo de formação do indivíduo, são presas fáceis do crime organizado e entram em outra categoria assustadora, que é a dos sem-futuro.
Grande parcela da população nunca foi ao cinema, ao teatro, a um concerto, a um espetáculo de dança, a uma exposição de arte. Não tem acesso à cultura, tão essencial para que um país se desenvolva. São os sem-cultura.
Sem significa fora, exclusão, conseqüentemente, conflito, perdas para a população e para o país como um todo. E aqueles que não têm acesso a estradas decentes, bem pavimentadas, que saem nos feriados para passear com a família e morrem vitimados por acidentes? São os sem-segurança. Nessa categoria também se enquadram todos aqueles que já foram assaltados ou que correm sério risco de ser, que é a população do país inteiro.
Quando deixaremos de ser o país dos Sem para sermos o país dos Com? Com educação, com saúde, com terra, com cultura, com boas estradas, com teto, com segurança, com crescimento, com bom senso, com bom governo.
Leia também:
• Apagados do ar - Antonio Brás Constante
• Crise aérea - pilotos irão voar - Jaime Leitão
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