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Dando a volta na evolução
Janos Biro - Publicado em 10.11.2006
Partindo da superioridade do neocórtex em relação às outras partes do cérebro, fica claro que tipo de visão de mundo permeia o texto. O neocórtex seria superior porque é uma área recente e dominante no cérebro, mas acima de tudo porque nos permite, como o desenho do homem na Lua sugere, conquistar e dominar a natureza, usando-a de forma “racional”. Para que se acredite que o neocórtex tenha se desenvolvido exclusivamente para essas funções é preciso partir da premissa de que o modo de vida civilizado é a finalidade necessária e inevitável na evolução do homem, e não apenas mais uma possibilidade. São primitivos e atrasados quaisquer povos que não escolheram embarcar na cultura da acumulação, da dominação e da expansão. A autora comete uma contradição grave quando diz, acertadamente, que o cérebro não se modificou nesses últimos 100.000 anos, mas em outra parte afirma que o cérebro se desenvolveu desta maneira com o “propósito” de nos permitir criar ESTE modo de vida, ao que se deduz que toda pré-história foi apenas uma “fase de testes” para estabelecer as condições do modo de vida civilizado, há mais ou menos 10 mil anos atrás. Ela também atribui ao neocórtex a responsabilidade por “ações voluntárias, percepção, consciência, aprendizado e linguagem”, no entanto diz que “possuímos comportamentos ritualísticos, matamos para comer, tendemos a discriminar pessoas fora do nosso grupo imediato (família, aldeia, raça, etc.), defendemos nosso espaço (domínio territorial)” por influência da parte primitiva do cérebro, criando aí um julgamento moral progressista: “Se vier da nossa parte primitiva, devemos evitar”. Um argumento completamente insustentável.
Logo abaixo ela cita Edward Wilson, o fundador da sociobiologia, que nos apresenta em seus livros uma síntese entre biologia e sociologia, dizendo que a segunda se explica fundamentalmente pela primeira. O autor, especialista em formigas, parece ter a convicção hobbesiana de que o homem tribal era um homem em estado de guerra, ou melhor, de “genocídio”, como disse a autora. Ela assume que a cultura é resultado de interações dos genes e do meio, e que é capaz de evoluir por conta própria, tirando disso a estranha conclusão de que “conceitos que denotam o ‘meu’ como o centro de tudo, como ‘minha’ religião, ‘minha’ raça, ‘meu espaço’, ‘meu’ país, são conceitos primitivos para a sociedade moderna”. Este argumento freudiano coloca a culpa não no modo vida que construímos, mas no “ego”. Esta é uma maneira de culpar cada indivíduo por não se reprimir o bastante para vencer sua própria natureza de forma a se adaptar a um modelo social criado a partir de interesses planejados. Como muitos pensadores modernos, ela ataca o egoísmo individual enquanto cultua o egoísmo do modo de vida totalitarista, que não aceita qualquer outro modo de vida humano ou não-humano: escraviza-os e assimila-os pela perpetuação do monopólio. O resto do parágrafo causa calafrios em qualquer um que tenha lido Daniel Quinn ou outra obra de antropologia crítica. Ela descreve os estágios da evolução deste modo de vida como se estivesse descrevendo a evolução da própria humanidade! Como sua análise é progressista em essência, ela não se questiona sobre as conseqüências do progresso, apenas se preocupa em manter os requisitos dele, e comemora todas as “maravilhas da tecnologia” sem citar os problemas criados por ela.
Outra demonstração de parcialidade se encontra na frase: “evoluímos de tribos estreitas e restritas, para uma aldeia global”. Chamar de estreiteza e restrição o isolamento natural, que é necessário para a criação de diversidade, é no mínimo estranho vindo de alguém que se intitula meio “bióloga”. Ela comemora o fim das “barreiras culturais” sem se perguntar como as culturas irão evoluir sem a criação de diversidade? Sua resposta pré-moldada data do século XIX: o ser humano não evolui mais, ele apenas progride. A conclusão óbvia da autora não poderia ser outra senão que o homem precisa transcender sua “mente tribal” para viver bem. “Fazer a evolução”, custe o que custar. Há dois erros nessa idéia: 1 – Geneticistas confirmaram recentemente que os genes humanos se modificaram nos últimos 50 mil anos, vocês podem confirmar isso nas últimas publicações científicas. A afirmação de que o ser humano não mais evolui não está baseada em nenhum fato comprovado, é pura crendice positivista. 2 – Ela acredita, assim como muitos hoje, que o ser humano conhece exatamente que tipo de modificações ele precisa para evoluir, o que também não tem base científica alguma. Assim, com o uso da biotecnologia, o homem pode alterar a natureza para melhor. Obviamente partindo de conceitos etnocêntricos e antropocêntricos, pois prezam a “racionalidade” e os valores civilizados como se estes fossem universalmente superiores.
Sua conclusão é “Poderemos, quem sabe, descobrir os genes que controlam nosso comportamento agressivo e que fazem a nossa mente ser tribal; e desativá-los. Mas como poderíamos fazer isso ainda permanece uma discussão aberta, pois existem muitos problemas morais, éticos e políticos a serem solucionados, mas nos parece inevitável que isso venha a ocorrer”. Está explícita a idéia de controlar a natureza a partir de intenções puramente culturais e humanas. Não passa pela cabeça da autora que “desativar” um gene ou característica simplesmente porque não combina com nossa moralidade civil inventada pode ser a própria causa da desintegração e do processo de extinção da humanidade? Não são as questões morais, éticas e políticas que precisam ser solucionadas aqui, mas sim as questões de científicas e lógicas que precisam ser ignoradas para que este projeto possa se realizar. E é muito triste pensar que este tipo de idéia é bem recebido no meio acadêmico, e até mesmo propagado pelos meios de educação formal e informal sob o slogan de “destino inevitável da humanidade”. A autora é, infelizmente, um exemplo de pensadora que mantém, consciente ou inconscientemente, os velhos paradigmas, as contradições, os dogmas e as crenças do fundamento insustentável de nosso modo de vida, mesmo que seja preciso sacrificar uma parte de sua própria racionalidade: a coerência e o bom senso.
Artigo relacionado: "Transcendendo a mente tribal" de Silvia Helena Cardoso.
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