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A mentira como recurso
Jaime Leitão - Publicado em 01.11.2006
Conversando com um senhor conhecido meu, de uns 70 anos, eleitor assumido do Lula, tomei a liberdade de perguntar se ele acreditava que Lula não sabia de nada sobre mensalão, sanguessuga, dossiê e outros escândalos do governo. Ele me respondeu: “É claro que eu não creio que o Lula não saiba. Ele é muito inteligente, tanto é inteligente que está em primeiro nas pesquisas. Eu provoco: “Então se ele diz que não sabia e sabia, ele mente? Ele pensou, pensou, e concordou com a cabeça sem dizer nada. E emendou: “Mas você queria que ele dissesse que sabia de tudo? Aí quase ninguém iria votar nele. Nem eu.”
Na Veja desta semana saiu uma entrevista com o filósofo norte-americano David Livingstone Smith, que defende a mentira como recurso para se dar bem na política e em outras situações da vida. Pela conversa com esse meu conhecido, acredito que a mentira funcione, mas não posso concordar com ele. Se um político mente, para mim ele perde totalmente a credibilidade. Mas muita gente prefere ser enganada. O título da matéria é justamente esse: “Engana que eu gosto”.
Livingstone afirma: “A mentira traz vantagens indiscutíveis. Bons mentirosos são mais populares e bem-sucedidos. Têm mais status social e melhores salários.”
Se um político notoriamente reconhecido como corrupto, tem uma votação estrondosa, e ainda defende a ética, isso prova que a teoria desse pensador é verdadeira.
Em uma sociedade mentirosa, que se baseia na propaganda para transmitir os seus valores, não nas idéias, na ética, nos princípios legítimos, como o respeito ao outro e à natureza, não é de se estranhar que os mentirosos se dêem melhor do que aqueles que só falam a verdade, são sinceros, não se escondem atrás das palavras para se dar bem na vida.
Sobre os políticos , ele ressalta: “Políticos são mentirosos profissionais. Mentem habilmente e têm consciência disso. Não estão preocupados em cumprir promessas.
Mentem para se dar bem. Quando acreditam na própria mentira, seu poder de persuasão se torna infinitamente maior”. Aí entra o mentiroso megalomaníaco, que se diz o melhor de todos os governantes, os que vieram antes dele foram ruins, e se coloca na condição de um deus, de um messias.
E o problema maior não está na mentira dita, mas no fato de um grande número de pessoas, mesmo sabendo que se trata de uma farsa, fingir que acredita e dar o seu voto para aquele que mente mais ou melhor.
Voltando ao filósofo: “Quando dizem com convicção que vão melhorar a sua vida, como não querer acreditar nisso? Podemos até desconfiar em um primeiro momento, mas, como é um alento, acabamos nos convencendo. A sensação de prazer trazida por acreditar em algo é inebriante”.
Por mais que a mentira prospere, eu fico com a verdade.
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