Eleições 2006 - O Segundo "Truque" - Parte 4 - É possível entrar na política e não se corromper? < Eleições 2006 < Dossiês < Duplipensar.net
 

 
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Henrique Mumme - Publicado em 02.11.2006


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Alguns já me aconselharam a participar de um partido, adentrar a política. Bem, não tenho pretensões de adentrar o mundo da política, não acredito que exista espaço neste meio para que uma alma não se corrompa de forma brutal. Para todos que têm dúvidas a este respeito, recomendo a obra “Eminência Parda” de Aldous Huxley. Leia, se você a compreender, suas dúvidas irão sumir no espaço!

Acredito que mesmo o pé do mendigo mais sujo de todos os tempos é mais limpo que a alma de políticos influentes e mega empresários.

Sei que pode-se entender este meu comportamento como mais um dos fatores que colaboram com a estagnação do cenário desastroso atual, porém, sou pessimista (prefiro acreditar que sou realista) e imagino que não existam caminhos de melhoria real a se percorrer por dentro do sistema, visto que este possui poderosos mecanismos de defesa e "auto-reparo".

Isto não quer dizer que eu não tenha meus pequenos planos de mudar pequenos pedacinhos do mundo, vamos ver o que o futuro nos reserva!

Efeitos colaterais de se adentrar o mundo da política: você é automaticamente reformatado aos padrões conhecidos, perdendo a vontade e o ideal no meio do caminho. Ao atravessar milhares de obstáculos poderosos burocráticos e o sistema consolidado, nosso ideal perde a força.

Como disse muito bem uma moça chamada Renata Grego: “Neste país as pessoas se envolvem na política por interesses próprios e não coletivos e quando se envolve realmente com objetivos sociais e não pessoais em pouco tempo irá se ver preso em uma teia de favores, controle e domínio que em pouco tempo está como os outros”.

Renata ainda se expressa a respeito do voto nulo:

“Então, o negócio é não votar ou anular, isto é posição política, isto é dizer: não quero nenhum de vocês, vocês não servem pra me representar, sai daí e deixa gente séria entrar. Não vou votar só pra dizer que interferi no resultado final do processo, eu prefiro dizer que não votei porque não vou colaborar com nenhum picareta. Só pra dizer que participei de um momento político e sou cidadã????? Não, eu participo com meu boicote e acredito que seria maravilhoso se a população brasileira anulasse ou deixasse de votar o suficiente pra não eleger ninguém... se organizar, mobilizar para que esses "babacas" entendam de vez que não os queremos onde estão ou querem estar”.

Políticos são grandes homens?
Certa vez, ao desembarcar do avião em Brasília, ouço duas baratas, quer dizer, políticos conversando: “Está difícil conseguir votos, principalmente em Estados como São Paulo!”. O outro respondeu: “É, não está fácil. Conseguir votos é uma arte”. E terminaram rindo exibindo seus sorrisos nauseantes de revirar o estômago de qualquer um que esteja vivo e acordado de verdade.

Realmente, conseguir votos é uma “arte”, uma “arte” própria de crianças mal-criadas. A arte de enganar e iludir o povo. São todos artistas no conceito distorcido que criaram para eles, os “grandes” homens!

Não precisamos ter reconhecimento ou fama para sermos ou nos tornarmos grandes homens. Não precisamos que nosso nome apareça em placas de ruas, avenidas, túneis, praças, estádios, estátuas, em livros didáticos, na televisão, nos comerciais, outdoors, folders institucionais de empresas ou do lado de um número para votação. Não precisamos tentar de forma infrutífera e fadada ao fracasso nos imortalizar no mundinho dos homens, pois somos imortais no mundo maior da existência. Os mundinhos dos homens estão condenados a irem e virem, chama-se temporalidade e há uma bela lição sobre este termo no filme “O Pequeno Buda”.

Pelo contrário. Acredito que a maioria dos verdadeiros grandes homens que já viveram ou vivem são aqueles que permaneceram e permanecem no anonimato, não necessariamente porque querem, mas porque o sistema esmagador dificilmente abre brechas para que verdadeiros grandes homens floresçam e sejam exibidos à visão de todos. Nas raras vezes que isto ocorreu, o sistema vigente tratou de crucificar ou esmagar estas flores, pública ou discretamente. Ainda assim, alguns destes nomes tornaram-se referenciais para um mundo melhor, harmônico, livre e justo: Gandhi, Jesus e Buda são bons exemplos. Porém, mesmo florescendo, estes e outros nomes não foram levados a sério, por ironia da existência, foram e continuam sendo usados de forma distorcida para justificar atrocidades ocultas ou nítidas, diretas ou indiretas, que protegem os interesses dos que ocupam as posições de poder, os falsos “grandes” homens.

A maioria das pessoas que se tornam aparentemente grandes no mundinho dos homens são aqueles que venderam boa parte da alma como condição prévia, estejam ou não a par de tal contrato.

Ser reconhecido, famoso e bem sucedido no mundo de hoje e talvez de sempre (passado e provável futuro) implica em agir contra os próprios ideais realmente nobres, caso estes existam, ou em se contradizer, em “jogar sujo”, em justificar erros com mais erros, em se auto-enganar e enganar aos outros em volta.

Poucos são os que conseguem alcançar a fama sem perder partes vitais do caráter, porém, a história nos mostra que existem estes poucos e eles são prova viva de que, por mais difíceis que sejam de adentrar, as brechas sempre existirão e poderão ser percorridas, mesmo em mundos terríveis como o nosso, que tendem a se tornar mais e mais um “Admirável Mundo Novo”, mais “Nós”, mais “1984”, mais “Fahrenheit 451”. Não lute ou se esforce para colocar seu nome em uma placa de platina, ouro, prata, cobre, aço, alumínio ou mesmo latão, lute para colocar seu nome nas placas eternas da existência, as placas invisíveis que não pedem para serem vistas, que não exigem admiradores, que são livres de vaidades.

Pessoalmente não estou livre destas vaidades e em parte escrevo estas palavras como um sermão a mim mesmo. Os caminhos que nos levam ao “lado negro da força” são vários e exercem poder de atração incrível, de forma que, mesmo para olhos acurados, fazem-se passar ou disfarçam-se de caminhos decentes, bons, dignos, louváveis e que, no entanto, estão levando à ruína e sofrimento. Quem escolheu seguir carreira política ou advocacia que o diga!

Espelho embaçado e sujo dos eua
Para adaptar o livro “Stupid White Men” de Michael Moore para a realidade brasileira, além da óbvia tradução para o português, basta trocar a bandeira americana da capa e contra-capa por uma bandeira brasileira, substituir o nome do presidente Bush pelo de Lula, o de Al Gore pelo de Alckmin, efetuar as substituições correspondentes para os outros membros do congresso, adequar as classificações em relação às estatísticas do horror, como a classificação de países emissores de CO2 e pronto!

Temos assim a situação patética do Brasil, já que somos um reflexo da sociedade norte-americana, um reflexo em um espelho engordurado e sujo que por acaso reflete muito mais os defeitos do que os acertos dos EUA. E tudo que fazemos para o “progresso” e “desenvolvimento” é tentar limpar o espelho e nos tornarmos mais parecidos com o cidadão elegante chamado Estados Unidos da América. Pena que depois de todo o esforço limpando o espelho perceberemos que o cidadão elegante possui chifres, rabo e tridente. Para cada virtude que conseguimos incorporar ganhamos de bônus mil defeitos. E as virtudes são usadas para mascarar, propagar e justificar os defeitos, assim com Mozart é usado para vender veículos! Que belo sistema! Viva ao modelo dos estúpidos homens brancos, fazendo sucesso e ganhando mais adeptos ao redor de todo o Mundo!

Isto que eu chamo de imposição econômica e bélica de uma cultura em detrimento da cultura real de uma país ou região, isso que eu chamo de globalização, americanização, padronização, "imbecilização" em massa.

Entre votar no Bush, quer dizer, Lula, e no Gore, quer dizer Alckmin, prefiro mais uma vez anular meu voto. Batalhas defendendo ou atacando um ou outro candidato são infrutíferas, afinal, entre "democratas" e "republicanos" não há diferença alguma, quer dizer, entre PT e PSDB não há diferença alguma.

Aliás, para aqueles que são motivados a votar no Lula pelo "Prólogo Exclusivo - Moore fala ao Brasil", lembrem-se que o único parâmetro analisado pelo Moore ao elogiar a subida do Lula à presidência foi o fato dele ser oriundo das classes trabalhadoras do país. Não houve aprofundamento algum para que ele formasse um julgamento realmente sincero a respeito da questão.

E para aqueles que acham Alckmin uma salvação, ele não passa de uma perdição com um "skin" diferenciado, assim como Al Gore (aliás, recomendo o documentário "Uma Verdade Inconveniente", ótima campanha política para Gore, mas que trata seriamente e de forma franca sobre o Aquecimento Global. O documentário deveria se chamar "Uma Verdade Inconveniente como Pilar de Mentiras Convenientes". Quais mentiras? A que Al Gore é um bom homem e aquela de que os indivíduos escolhendo um carro a álcool poderão salvar o Planeta de um colapso iminente (traduzindo: aquela que diz que a economia da maneira como é não precisa ser afetada drasticamente para que tentemos reverter o quadro assustador do aquecimento global).

A moral e a consciência individual
Então votar nulo aparentemente não traz nenhum resultado?! Não muda nada?

Muito pelo contrário. Somente mudando a moral e a consciência de cada um de nós é que um dia conseguiremos mudar de verdade nosso sistema social para melhor. A moral e a consciência individual são muito importantes. De grão em grão podemos formar toda a majestosidade de um deserto inteiro de areia.

Não, você não conseguirá mudar o sistema ou país para melhor da noite para o dia com seu voto. Mas com o seu voto nulo ou o seu “não votar” você pode começar a mudar você mesmo para melhor. Chama-se ampliar a consciência e lavar a moral.

Devemos agir onde nosso braço alcança de verdade e não onde nos fazem pensar que alcançamos. Seu voto válido é apenas uma falsa idéia de liberdade que serve como um dos mecanismos de sustentação de uma falsa democracia.

Deixe de ser falso e de retroalimentar a falsidade ao questionar e combater o sistema de forma não violenta.

Ao votar nulo você está contribuindo para deixar de ser um indivíduo anulado e tornar-se um indivíduo válido.

Não existem atalhos políticos, burocráticos ou religiosos para lavar a alma de todos de uma vez. Não existe um portal como o exibido no filme “Dogma”, onde basta atravessá-lo para ser absolvido. Não existem soluções mágicas.

Praticamente todas as propostas políticas e até mesmo requisições do povo exigem poderes mágicos ou super poderes para realmente serem concretizados. Está na hora de deixar de sermos ingênuos. Está na hora de assumirmos que o caminho mais longo, moroso, difícil e desconfortável é realmente o que dá bons resultados.

Vamos começar pequeno. Começar pequeno vale para TUDO na vida. Não devemos nos expandir em nada para onde a vista ou os braços não alcançam. Comece com você mesmo. Quando menos perceber, outras pessoas na vizinhança também estarão trajando as máscaras de “V”.

Razões para as coisas não mudarem
Sabe, livros como “Stupid White Man – Uma Nação de Idiotas”, “Cara, Cadê meu País?”, “IBM e o Holocausto”, “Notícias do Planalto”, “A Ilha”, documentários como “Roger e Eu”, “Tiros em Columbine”, “Fahrenheit 11/09”, “The Corporation”, “Razões para a Guerra”, “Muito Além do Cidadão Kane” e filmes como “Obrigado por Fumar”, “Boa Noite Boa Sorte”, “O Jardineiro Fiel”, “Hotel Ruanda”, “Stigmata”, “O Código Da Vince”, “O Senhor das Armas”, “Syriana”, “V de Vingança”, “Erin Brockovich”, “O Informante”, etc, deixam mais do que claro, “por A + B”, que as corporações e grandes organizações / instituições legais ou ilegais, como o Governo, Hollywood, o Exército, a Igreja, a indústria de cigarros e armamentos, os grandes laboratórios farmacêuticos, as máfias dos narcóticos, etc, são na realidade os que governam o mundo.

Porém, muitas são as pessoas incapazes de fazer a conexão. A maioria nem mesmo conhece estas e outras obras que procuram retratar o mundo de maneira mais realista. Os poucos que as conhecem geralmente não conseguem levá-las a sério, não conseguem compreendê-las e trazê-las para o mundo real.

Isso acontece porque estas pessoas estão perdendo a maior parte do tempo, do esforço mental e físico, concentrando sua atenção com os mundinhos criados pelo ser humano inferior, com as novelas da vida pessoal, priorizando ridicularidades e insignificâncias, como os campeonatos de futebol, as novelas nojentas da Globo, os jornais sensacionalistas, os programas feitos pra dona de casa nunca sair de casa (incluem-se aí os culinários), os programas pornográficos ou eróticos desprovidos de conteúdo, as rezas hipócritas mecânicas egoístas, o “Domingo Legal”, o “Faustão”, os debates entre políticos que a mídia tanto alardeia, etc.

Quanto aos debates entre políticos: as pessoas equivocadamente acreditam que assití-los, assim como ao horário eleitoral, é participar ativamente da política, é fazer parte da nação democrática como “cidadão responsável”. No dia seguinte ao debate comentam suas impressões sobre quem venceu o debate, os detalhes ridículos dos trejeitos pessoais de cada candidato, como babar água, o jeito de falar, coçar a orelha ou outros tiques nervosos. Comentam tudo isso com o mesmo tom que comentam se a Janaína vai trair o Pedro na novela das oito (desculpe não dar os nomes corretos dos personagens da novela do momento, mas realmente não os sei, não assisto novelas há mais de dez anos – e acreditem, este é uma das atitudes que fazem nossa vida ficar bem melhor).

Assim, a maioria ignorante e iludida realmente acredita que votar em determinado candidato irá contribuir para um país melhor. Pois vou dar um conselho: Enquanto não agirmos no sentido de nos lavarmos moralmente e mudarmos individualmente, este circo idiota e caríssimo continuará em cartaz. Chega de retroalimentá-lo. O preço é mais caro do que você imagina: retardamento da evolução social / espiritual e destruição irresponsável de recursos naturais do ambiente, ou seja, traduzindo: “sofrimento na certa”.

Será que somos tão tapados mesmo ou só fingimos não ver o óbvio porque estamos confortáveis e acomodados? Será porque não queremos perder nossa esmola, nossos serviços, nosso rico dinheiro, nossa “liberdade” de expressão”, nossa “liberdade”consumista? Ou não queremos nos enxergar como parte do cocozão?

Não tenho medo de ser excessivamente agressivo em meus textos e perder a razão. Sabe por quê?

Porque a razão já foi perdida faz tempo, não somente por mim, mas por todos nós. Somos um bando de insanos levantando uma bandeira cada um e botando fogo na bandeira de outro de vez em quando. Tudo que chamamos de progresso e desenvolvimento implica em nos afastarmos ainda mais da razão. Olhemos para nós mesmos, chequemos a dosagem de razão no tanque e assumamos o quanto somos ignorantes, o quanto somos falhos, prepotentes, indecisos, viciados, conservadores, tradicionalistas, egoístas, simplistas, mecânicos, manipulados.

Ser menos ou mais agressivo (menos ou mais sincero) em um texto não vai me dar menos ou mais razão! Porém, favor não confundir com ações violentas e agressivas que machucam fisicamente as pessoas. Eu machuco outros e a mim mesmo apenas emocionalmente, e apenas porque acredito poder ser um tipo de toque de fogo que acorda o Indiana Jones quando este está possuído.

Ações violentas que causam prejuízos e danos físicos, além dos emocionais, não são minha praia. São a praia dos governos, dos exércitos, das igrejas e das corporações que adoram f* com você. Claro, como as ações violentas destes são muitas vezes indiretas, mascaradas, acobertadas, praticamente invisíveis, não as enxergamos bem e não só arregaçamos nossas calças pra elas como as defendemos cegamente devido as esmolas, quer dizer, salários, que elas nos dão e que não deixam de ser subornos para comprar nosso silêncio e nos forçar a vestir a camisa da empresa, além é claro, dos “benefícios” de organização social, de moral, de progresso tecnológico e de religião. Graças a eles somos a civilização mais avançada do Planeta, lado a lado das baratas e percevejos.

Continua amanhã.

Ensaio Eleições - O Segundo "Truque"
Parte 1 - Breve histórico
Parte 2 - A falsa democracia
Parte 3 - Quem governa então? De quem é a culpa?
Parte 4 - É possível entrar na política e não se corromper?
Parte 5 - Minha experiência como mesário
Parte 6 - Fornalha do trem suicida
Parte 7 - O que fazer?

Leia também:
Especial Eleições 2006
Lista de todos os presidentes da República do Brasil

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