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Henrique Mumme - Publicado em 31.10.2006


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Como li certa vez em uma mensagem de Celso Afonso Brum Sagastume: “Quando a democracia é falsa, todo o voto é nulo”.

Para quem não é capaz de entender a frase acima: Seu voto é nulo não no sentido de significar que você é contra o sistema, mas sim, mesmo quando efetuado para determinado candidato, nulo no sentido de não valer nada. Celso ainda complementa: “Acredito que é muito mais importante ter poder de exigir uma boa administração durante o mandato, do que ter apenas o poder de votar”.

Não importa que candidato vença, o sistema político injusto continuará vigente, a única mudança será no aspecto exterior do presidente, como se você tivesse escolhido um personagem diferente para jogar em um jogo de videogame, mas que possui exatamente as mesmas habilidades e funções, que no caso é ser um boneco manipulado por poderes externos.

Uma reportagem recente de Liliana Pinheiro da revista Superinteressante sobre o voto nulo publicou:

“A democracia virou um espetáculo de televisão que emerge apenas durante a época de eleições", afirma o sociólogo Edson Passetti, pesquisador do Departamento de Política da PUC-SP. "O cidadão renunciou a sua consciência crítica e migrou para uma posição de opinião pública, que é forjada pela televisão." Para Passetti, votar nulo não serve para eliminar corruptos da política, mas pode funcionar como uma crítica generalizada. "Optar pelo voto nulo é saudável como protesto contra todo um sistema."

Anular também parece uma boa para quem não se contenta ou não vê diferença entre os candidatos. "Política é escolha. E o voto nulo é uma escolha como qualquer outra", afirma Francisco de Oliveira, professor de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Não se trata de um acadêmico que enxerga a política apenas teoricamente. Hoje com 71 anos, Francisco participou do governo do presidente João Goulart até 1964. Com o golpe militar, teve que sair do Brasil para não ser perseguido pela ditadura. Na década de 1980, se uniu a um grupo de amigos e ajudou a fundar o PT, partido com a maior bancada na Câmara dos Deputados. Mas, na próxima eleição, se o segundo turno se confirmar entre os dois candidatos a presidente líderes nas pesquisas, Francisco pretende anular. "Como os candidatos já abdicaram da política para seguir a ordem financeira internacional, parecem todos iguais", afirma.

A revista ainda apresentou os seguintes motivos para se votar nulo:

• Votar é um ato de renunciar à própria liberdade. Não precisamos de líderes para nos impor leis e criar regras que limitam nossos direitos.

• A democracia se tornou um espetáculo de televisão. O eleitor escolhe candidatos como produtos. É preciso negar esse sistema.

• Não é possível mudar o sistema político por dentro dele. A política muda as pessoas, levando qualquer um à corrupção.

• Os candidatos são cada vez mais parecidos. A briga entre eles é falsa e serve para que ainda haja esperança na democracia e para que continuem no poder.

• Se o eleitor não está contente com nenhum candidato, tem o direito de anular. É uma escolha legítima como qualquer outra.

• Política não é só voto, também é pressão e participação pública. As eleições sugerem que não há outra atitude política além do voto.

• Se o eleitor não conhece os candidatos, corre o risco de votar em corruptos. Portanto, sua melhor opção é anular.

A revista ainda deu motivações para não se votar nulo para dar o tom de imparcialidade, tom este que não estou interessado e não preciso acatar neste texto, por isso não os postarei aqui. Mas aconselho todos a lerem a reportagem da revista Superinteressante.

Motivações para o voto
Outro dia meu chefe criticou a “mania” dos brasileiros de votarem no candidato que possui maior possibilidade de ser vencedor, possibilidade esta que averiguamos através das controversas pesquisas de opinião. Disse achar um absurdo desconsiderar outros candidatos que também estão no pário apenas porque estima-se que a margem de votos deles será pequena. Eu também concordo, afinal, votar apenas nos que são considerados concorrentes de peso limita a eleição à escolha prévia pela mídia, afinal, ela é quem cria a maior parte do terreno para os candidatos. Que o diga Fernando Collor de Mello, um candidato estreante à presidência que a Globo tratou de elevar ao patamar de candidato de peso e foi bem sucedida em colocá-lo no poder.

Após concordar com seu posicionamento revelei ao meu chefe que votaria nulo (isto ainda no primeiro turno), sabe o que ele me respondeu juntamente com uma feição de aborrecimento?

“Eu até entendo sua motivação, mas pra que votar nulo se sabemos que é impossível haver maioria de votos nulos?”

Vocês percebem a contradição enorme desta frase frente à sua opinião prévia de que não se deve deixar de votar em alguém simplesmente porque dizem que não existe chance deste alguém ser eleito?

Pessoas que já pensam assim, quando são informadas de que o voto nulo não é mais válido e não significa mais nada, mesmo que seja a escolha da maioria da população, não possuem dificuldade alguma em descartar para sempre de suas vidas a possibilidade de anular o voto.

A maioria dos brasileiros erra pela motivação que determina seu voto:

1 - Voto no Alckmin para que o Lula não vença;
2 - Não voto nulo, pois quero participar da democracia brasileira;
3 - Tenho vergonha do que os outros dirão se eu votar nulo;
4 - Voto no Lula para que o Alckmin não vença; e
5 - Voto em determinado candidato porque é muito provável que o grupo ao qual pertenço (social, religioso, profissional) será beneficiado.

Perceba que a maioria dos votos possui motivações equivocadas, simplistas, interesseiras, egoístas e manipuladas.

Os que votam no Alckmin contra o Lula, motivados pela sucessão de revelações de escândalos políticos que vêm ocorrendo há cerca de três anos, são muito ingênuos ao pensarem que estes escândalos nasceram quando Lula pisou no governo. Estes e outros esquemas corruptos são tão antigos quanto o hino nacional e são inerentes de qualquer governo dentro de nosso sistema. Você realmente acha que estes e outros esquemas não existiam na época dos outros governantes?

Ao divulgar meu ideal não estou querendo tirar votos de Alckmin, mas sei que se alguém levar a sério o que estou dizendo, é provavelmente isto que acontecerá. Aos que ficarão bravos pela possibilidade, acalmo-os dizendo que este meu texto vai ser lido no máximo por umas 50 pessoas (e isto sendo otimista!), então não se preocupem. Das 50, se uma apenas mudasse ou repensasse sua opinião, já ficaria feliz, mas sei que esta possibilidade é extremamente improvável. Some-se a isso as proximidades do segundo turno (estamos a menos de dois dias da votação, dia em que eu trabalharei mais uma vez na seção eleitoral), portanto, não há tempo para que uma mensagem como esta tenha efeito. E não me importo, pois o efeito que quero causar é mais profundo, é nas pessoas, é a longo prazo, gradualmente. As crianças param pra pensar muitas vezes, os jovens bem menos, os adultos, quase nunca. É algum tipo de estupidez natural que herdamos em nossa desastrosa, controversa e invertida evolução.

Mas qual é minha motivação para votar nulo?
O voto nulo não seria somente um voto contra os candidatos elencados, mas sim uma forma de protesto organizado pacífico contra o sistema injusto vigente. Infelizmente, as próprias leis e políticas trataram de se proteger contra esta forma de protesto, que não mais possui poder de atuar na prática, mas somente na moral das pessoas. Seria lindo observar uma população unida e majoritária dizer, através da imensa maioria de votos nulos, que ela não é idiota, que não é ingênua, que sabe que de Alckmin para Lula ou de qualquer candidato assimilado pelo sistema, praticamente não existem diferenças que poderão atuar melhorando nossa sociedade.

O meu voto nulo já está garantido, pois recuso-me a escolher entre "b* e m*" como muitos dos próprios eleitores que validam o voto colocam. Se podemos dizer não pra “b*” e pra “m*”, mesmo que nosso “não” seja desprovido de poder de mudança, pois o “m*” ou o “b*” será eleito de qualquer jeito, pelo menos nossa moral fica menos encardida e mal cheirosa.

Não sou, nunca fui e imagino que não serei, defensor de algum partido político.

Gostaria de poder votar em alguém de verdade, mas ao votar em alguém com quem não me identifico, no qual enxergo milhares de defeitos, em alguém totalmente inserido em um sistema de "showbusiness", de manipulação e enganação, estaria traindo meu próprio ideal, e isto é algo que evito fazer, apesar do mundo de hoje nos compelir a fazê-lo o tempo todo.

Prefiro remar contra correnteza na medida do possível, de forma gradual, cada vez nadando mais forte, não porque eu acho que vá surtir algum resultado concreto, mas porque minha consciência e meu espírito agradecem. Willian Wallace, personagem do filme “Coração Valente”, também não tinha mais esperanças de liberdade real, no entanto, continuou remando contra a correnteza até o final, porque ele acreditava de verdade em algo, e não foi algo que a mídia ou o poder implantaram nele, foi algo próprio de seu ideal natural. Ele não lutava por uma empresa, por um partido, por um grupo ou por uma religião, ele lutava pelos seus ideais próprios. Nós devíamos seguir seu exemplo e fazer o mesmo, assim como Jesus Cristo o fez.

Escolher o candidato menos pior? Escolher a religião menos pior? Escolher o restaurante menos pior? Não seria melhor trazermos nosso almoço de casa? Termos nossa própria e verdadeira religião e não destroçarmos nosso ideal ao votar em algum idiota uniformizado de terno, traindo a nós mesmos?

Motivo de orgulho?
Apesar de saber que para a maioria não é motivo algum para orgulho, eu me orgulho de dizer que nunca votei em um candidato até hoje. Com quase 26 anos, sempre anulei meus votos, com exceção do referendo do desarmamento, onde não tinha que escolher um pessoa, votei à favor do desarmamento (votei sim).

Claro, não me orgulho de um estado tal de nação (e porque não dizer do mundo) que me leve a tomar esta decisão, mas sim da decisão em si frente a realidade por mim percebida.

Mesmo que outras pessoas não entendam a moral de tal atitude, pelo contrário, me condenem com seus pensamentos simplistas, sei o que significa pra mim e vivo de consciência tranquila. Pode não mudar o resultado de uma eleição, mas muda a mim mesmo.

Não concordei com a crítica que George Orwell fez das técnicas de não violência de Gandhi na obra “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”. Em resumo, ele defende a ineficiência da “não violência” frente à um regime totalitarista como o de Hitler ou Mussolini. Defende que a “não violência” não seria capaz de mudar um regime opressor fascista e que por isso não tem razão para ser praticada em tais casos. Eu discordo, pois acredito que a desobediência ou revolta não violenta não deve ser praticada somente quando tem efeito em outras pessoas ou poder de mudar um sistema, mas sim porque ela possui o efeito de mudar a nós mesmos, nos redimindo e nos tornando exemplos não somente para esta realidade, mas para uma realidade maior, uma realidade que Aldous Huxley entendia melhor que Orwell.

Por acaso os atos de bondade deixam de ser bons ou válidos porque ninguém os viu ou ouviu? Por acaso os valores e virtudes humanas perdem força quando não são percebidos por outros?

Mesmo em um quarto escuro e trancado, com um fascista opressor torturador e uma vítima, o esforço desta vítima em desobedecer de forma não violenta este torturador com toda certeza é válido.

Vou dar o exemplo de uma atitude simples: Quando recolho um papel do chão e coloco no lixo não o faço simplesmente porque quero servir de exemplo aos outros em volta, nem porque quero garantir meu lugar no céu ou receber qualquer coisa em troca. Faço principalmente por mim mesmo, para respeitar meus ideais e evoluir como ser humano, independente ou não de existir justiça divina ou alguém julgando, analisando ou questionando minha ação. Meu voto nulo é a mesma coisa, pode não mudar o sistema, pode nem mesmo servir de exemplo, mas é pra mim que ele faz efeito.

Na minha opinião, o nome mais conhecido hoje que, a exemplo de Gandhi, exerce a prática de revolta ou desobediência não violenta e faz uso do “satiagraha” ou “persistência pela verdade” é Michael Moore. Apesar de aparentemente faltar aprofundamento religioso ou espiritual, Michael sobra em coragem, bom senso, determinação e exemplo de luta contra injustiças. Michael Moore é um dos poucos seres humanos que usam o poder da verdade em prol de um mundo melhor. Claro, por não ser santo, no sentido literal da palavra, de vez em quando comete deslizes, como seu relacionamento aprofundado demais com a política, do qual ele colheu e colhe as consequências até hoje. Nem mesmo Gandhi era capaz de aguentar as pressões, os agentes corruptores e manipuladores políticos, e percebeu que não havia caminho dentro do sistema político para um homem verdadeiramente religioso, no melhor sentido desta palavra.

Michael Moore é um cara admirável, um exemplo a seguir, uma força a se unir. Porém, não concordo com seu conselho, quando defende em “Stupid White Men” que as pessoas devem se envolver com a política, concorrendo nas eleições e eventualmente se candidatando. O que ocorre inevitavelmente é que a política acaba envolvendo você. Não se iluda.

Comemorando a superpopulação
“Às 14 horas, o governador Geraldo Alckmin deve visitar a maternidade do Amparo Maternal, na Vila Clementino, zona sul da capital. Lá, oferecerá a uma das crianças nascidas hoje enxoval, manual do bebê e, possivelmente, até a certidão de nascimento. Tudo para simbolizar a marca de 40 milhões de habitantes no Estado. Pela média diária de partos realizados no local, haverá 40 bebês "concorrendo" ao título”.

Em julho de 2005, Geraldo Alckmin comemorou a marca de 40 milhões de habitantes em São Paulo. A imprensa noticiou o fato ressaltando o enorme crescimento na capital como uma ótima notícia. Como se estes 40 milhões de habitantes estivessem bem de vida, educados, saudáveis, felizes e de barriga cheia!

Enquanto superpopulação for motivo de comemoração não vejo perspectiva alguma para uma resolução harmônica do problema. Quão absurdo não é comemorar o nascimento do bebê 40 milhões. Comemoração esta oriunda principalmente por parte das autoridades governamentais que enxergam em qualquer ocasião uma oportunidade de se autopromoverem. Qualquer um que imagine que este problema terá resolução por meio da educação ou campanhas quaisquer oriundas do governo é no mínimo ingênuo. O sistema tem grande interesse em gerar cada vez mais seres humanos, cada vez mais ignorantes, consumidores ou causadores de problemas, que por sua vez criarão a necessidade de mais empregos. Quanto mais pessoas necessitadas, ignorantes, iludidas e distorcidas, melhor para manutenção do sistema.

Vou expor somente este fato sobre o Alckmin porque o texto que escrevo se destina para pessoas que em sua maioria votarão no Alckmin, pois, queiram ou não acreditar, a divisão está bem nítida: a maioria das pessoas com formação em cursos superiores, sejam da classe média ou alta, com acesso às informações vinculadas pela mídia, com acesso à Internet, irão votar no Alckmin. Já o povo mais pobre e humilde, menos exposto à mídia e mais beneficiado por medidas assistencialistas paliativas, irá votar no Lula.

Não preciso me desgastar para explicar porque não irei votar no Lula para o público que almejo alcançar com esta mensagem. Sim, em parte é pelos mesmos motivos que você possui, mas cuidado. Não duvide do poder da mídia em lubridiar as pessoas (inclusive você mesma). Acho saudável que façamos questionamentos constantes no sentido de se aproximar das "possibilidades de verdades". Algumas mensagens são importantes pois justamente vão na contra mão da informação que estamos recebendo de forma massiva (TV, jornais, revistas, e-mails).

Ensaio Eleições - O Segundo "Truque"
Parte 1 - Breve histórico
Parte 2 - A falsa democracia
Parte 3 - Quem governa então? De quem é a culpa?
Parte 4 - É possível entrar na política e não se corromper?
Parte 5 - Minha experiência como mesário
Parte 6 - Fornalha do trem suicida
Parte 7 - O que fazer?

Leia também:
Especial Eleições 2006
Lista de todos os presidentes da República do Brasil

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