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Eleições - O Segundo "Truque" Parte 5 - Minha experiência como mesário
Henrique Mumme - Publicado em 03.11.2006
Já estou no meu terceiro ano como mesário trabalhando nas eleições e sempre me esforcei para prover condições agradáveis para as pessoas votarem. Atendo-os todos com um bom dia sincero, converso com eles de forma humana e não como uma máquina pré-programada, me coloco a disposição para resolver eventuais dúvidas e ajudar, etc. Mas afinal, porque eu trabalho bem para um sistema que abomino? Porque procuro fazer com que as pessoas se sintam bem durante a votação, mesmo sendo contra toda aquela palhaçada?
Simplesmente porque me importo com as pessoas e procuro tratá-las da forma mais digna possível. Tratá-las mal, trabalhar de má vontade ou permanecer desgostoso não mudará o sistema, mudará apenas o dia delas pra pior.
Confesso à vocês que é difícil manter-se alegre e disposto trabalhando nas eleições por obrigação (nós somos intimados a exercer nosso papel de cidadão e caso não comparecemos sofremos consequências e penalizações). Não ganhamos nada além de um ticket refeição que no ano passado não era aceito em nenhum restaurante ou lanchonete do meu bairro. No referendo do desarmamento e nesta última eleição recebemos, ao invés do ticket, dez reais em dinheiro para comer.
Ah, também fazemos jus a dois dias de despensa no serviço por termos trabalhado no domingo. Direito este que até hoje não conheci ninguém que tenha usufruído na prática, afinal, convenhamos, alguém realmente acha que “pega bem” no serviço faltar dois dias por ter sido mesário no domingo?
Mas não ganhar praticamente nada não é o grande problema, o maior problema está em servir à um sistema corrupto e distorcido, participar ativamente da farsa que maquia um sistema opressor com “pó de arroz de liberdade” e observar o nível intelectual e cultural das pessoas que votam na minha seção.
No primeiro turno das eleições de 2006, o primeiro senhor a entrar na cabina de votação demorou 10 minutos para efetuar a votação. Alguns eleitores entram na seção já defendendo seu candidato ou opção como a verdade óbvia e esperam que nós mesários respondamos positivamente (o que alguns realmente fazem). Muitos são os que saem da cabina antes da votação estar concretizada achando que já votaram para todos os cargos possíveis. Uma parcela considerável pergunta a numeração dos candidatos para nós quando estão defronte à urna. O recorde de perguntas referentes a que opção escolher foi na votação do referendo do desarmamento, as pessoas não sabiam o que significava votar “sim” ou “não”, em parte por culpa e interesses dos próprios idealizadores do referendo.
Desta última vez, durante o primeiro turno, uma senhora cortou a fila de quatro pessoas que aguardavam para votar enquanto eu e os outros convocados para trabalhar estávamos preenchendo os papéis de recadastramento para que sempre o TSE possa nos encontrar e contar com nossa ajuda “voluntária”! A fila, composta por dois senhores de idade, uma senhora e uma moça mais jovem, ficou revoltada e um senhor liderou um motim contra a injustiça do ato de se cortar a fila. Quando fui acalmar os ânimos do pessoal, o velinho líder me empurrou com força contra a parede de forma que minha coluna bateu de jeito no batente da porta. Mesmo assim mantive-me calmo e pedi para que não se exaltassem, que sentia muito pelo ocorrido, mas que não havia razão para tanta revolta. O velinho enfezado dizia: “Quem esta moça acha que é?”, “O que dá à ela o direito de cortar a fila?”, preparando-se aparentemente para linchar a moça quando esta saísse. Eu os preveni dizendo que não deviam criar mais confusão ainda e deixar a moça ir embora em paz. Ao sair, o velinho gritou revoltado perto da moça: “Que direito você tem de cortar a fila!?”. A moça apenas respondeu que era doadora de sangue e foi embora rapidinho. O senhor gritou de longe “Isso eu também sou!”, “Se for assim eu também não pego fila!”. Bem, o fator mais interessante desta situação toda era o fato de não haver uma fila extensa de pessoas e sim apenas quatro indivíduos aguardando.
Não é a primeira vez que vejo velinhos se revoltarem contra injustiças. Geralmente eles têm razão quanto a injustiça do ato, mas perdem a razão pela maneira como se rebelam, muitas vezes com violência e exaltação em demasia, como na vez que vi um velinho quebrar a lanterna de um carro que parou na faixa de pedestres cruzando o sinal vermelho ou quando um senhor foi extremamente rude com uma moça que fumava na estação Consolação de metrô e até mesmo ameaçou chamar o segurança antes que ela tivesse tempo de responder. Claro, a moça ficou revoltada e disse: “Depois a gente bate nestes velinhos e nós que somos as vilãs”. Logo em seguida o alto falante do metrô cumpriu com o sistema de vigilância “Grande Irmão” anunciando: “Nas estações do metrô é proibido fumar. Não fume”.
Já me disseram que para fugir das convocações para trabalhar nas eleições preciso me filiar à um partido. Digamos que nem se fosse pra fugir do trabalho escravo nas fábricas da Nike eu me filiaria à um partido. Novamente vemos que tipo de motivações levam as pessoas a tomar certas atitudes.
Minha verdade
Claro, este texto é a “minha verdade”. Todos tem o direito de defender suas próprias verdades. Só aconselho começar a desconfiar quando por acaso suas verdades são sempre aquelas mais confortáveis para você. A minha verdade não é confortável pra mim mesmo, eu não ganho nada com ela, pelo contrário, traz constante revolta, incômodo, discussões e conflitos diversos, mau entendimento, desgaste físico e emocional, frustração. Graças a Deus eu sinto isto tudo, é um sinal de que não estou anestesiado como a maioria. Claro, deixar de sentir estes sentimentos e deixar de conflitar é o objetivo, mas para isto não basta fugir, temos é de encarar o caminho mais longo e difícil, aquele que não parece ter fim e alimenta a frustração. Bem, o importante é não deixar de nadar contra correnteza e não, como muitos pensam, inverter o fluxo do rio. O importante é gritar “Liberdade” ao invés de “Clemência” perante a execução iminente. Manter-se equilibrado nesta jornada é importantíssimo e para nos equilibrar, temos de substituir aos poucos as ilusões por verdadeira religião, aquela que não existe pronta ou pré-fabricada, aquela que não pode ser engolida, aquela que não existe em uma única filosofia, igreja ou corrente.
Para fugir de problemas e situações embaraçosas é cômodo dizer “eu não sabia!”. Você realmente não sabia? Ou você não queria saber? Ou ainda, você não queria assumir que sabia?
As verdades do meu chefe, por exemplo, “coincidentemente” são sempre aquelas que são favoráveis à empresa, que implicam em economias à curto prazo, tanto de dor de cabeça como de dinheiro. Pena que a dor de cabeça e o custo se acumulam para o futuro, seja da empresa ou dos afetados pelo impacto ambiental que ela causou e ainda causa. Mas e dái?! As gerações futuras que se fodam! Espera aí... meu filho será parte da geração futura! Ahh...mas é por isso que eu tenho de continuar me livrando dos problemas, executando bem minha função, fazendo o que faço melhor, tudo para acumular “esmola” suficiente e tentar comprar o conforto do meu filho no futuro que se torna cada vez pior!
E assim pensam todos os que vendem a alma para alguma das faces monstruosas do sistema.
Você já parou pra pensar que se realmente houvesse vontade política por parte do governo, das corporações, da mídia, da Igreja e das Universidades, e de nós mesmos, os problemas que assolam o mundo, como prostituição, assassinatos, estupros, abuso de crianças, condições miseráveis, favelas, doenças, loucuras, atrocidades, genocídios, tráfico e consumo de drogas, corrupção, máfias diversas, super população, guerras, má distribuição de renda, etc, já não teriam sido superados faz tempo?
Garanto-lhe que sim. As soluções e respostas para cura de todos os males existem faz tempo, são simples e complexas ao mesmo tempo, pois exigem negar o sistema, negar o mundo como ele é hoje e adotar novos pontos de vista, priorizando novos valores e ações. Exige nadar contra corrente e, da maneira como ela é forte hoje, exige que você provavelmente morra afogado lutando pelos seus ideais e convicções.
O afogamento faz parte da defesa “automática” do sistema. Os glóbulos brancos de tal maquiavélico organismo funcionam muito bem no mundo onde compramos tudo e todos por dinheiro, ameaças, favores, poder. Um exemplo de pessoa que resolveu combater sua própria empresa e sofreu severas consequências foi o ex-vice-presidente da Brown & Williamson, Jeffrey Wigand, interpretado por Russell Crowe em “O Informante”.
Enquanto formos empregados pendurados no cabide de problemas do mundo nada irá mudar. O belicismo, as drogas legais e ilegais, a escravidão disfarçada, a tortura, o sofrimento... todos estes vão continuar ganhando força. Só se vendem vermífogos porque existem vermes. Só existem remédios porque há doenças. Só há profissionais da área ambiental porque há destruição ambiental.
A experiência dos mais velhos
Muitos encontram sustentação e conforto assumindo que possuem mais experiência de vida que eu, que meus textos são reflexos de uma fase de rebeldia, afinal, sou apenas um jovem rapaz que ainda não compreendeu bem as regras do jogo e que em um futuro provável se colocará em seu lugar.
Bem, acredito que uma criança de dez anos pode ter mais experiência real de vida e melhor aproveitamento do que um senhor de noventa anos. Não é uma regra, é lógico, mas pode acontecer. Não devemos nunca subestimar o que as pessoas tem a dizer, não importa a idade ou o nível hierárquico social, principalmente quando estas pessoas tentar chamar atenção para importância que relevam ao assunto.
Na parede de uma atração do Epcot Center, onde pega-se um barquinho para visitar as plantações experimentais do parque, há frases sobre o ambiente de diversas autorias, inclusive do repugnante atual presidente dos EUA, George Bush, mas também de crianças que foram capazes de dizer coisas tão ou mais profundas que as frases dos homens considerados mais grandiosos nas diferentes áreas de conhecimento humano.
Para os que se acomodam na “experiência que têm de vida” para contestar tudo que lhes é desconfortável ouvir, tenho as seguintes questões reflexivas: Será que o que você chama de “experiência” não é somente o resultado do tempo de exposição aos agentes manipuladores e formatadores do sistema? Será que sua “experiência” não é apenas mais um indicativo do seu grau de inserção no sistema?
Ensaio Eleições - O Segundo "Truque"
Parte 1 - Breve histórico
Parte 2 - A falsa democracia
Parte 3 - Quem governa então? De quem é a culpa?
Parte 4 - É possível entrar na política e não se corromper?
Parte 5 - Minha experiência como mesário
Parte 6 - Fornalha do trem suicida
Parte 7 - O que fazer?
Leia também:
• Especial Eleições 2006
• Lista de todos os presidentes da República do Brasil
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