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Resenha do livro de Ali Kamel "Não Somos Racistas"
Marco Aurélio Torres Antunes - Publicado em 10.11.2006

Nos últimos anos, a questão das cotas raciais tem sido objeto de muita polêmica. No entanto, em raras vezes os debatedores apresentam dados que dêem sustentação às suas teses. Ademais, há o problema da leitura incorreta das estatísticas, bem como os estereótipos que tentam desqualificar como racistas aqueles que se opõem às cotas e negam que o Brasil seja uma nação bicolor, em que brancos oprimem negros.

O livro "Não Somos Racistas: Uma Reação Aos Que Querem Nos Transformar Numa Nação Bicolor" (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006), do jornalista Ali Kamel, contribui para o enriquecimento dos debates, pois apresenta, em linguagem clara e direta, argumentos sólidos que refutam idéias equivocadas sobre a situação de brancos, pardos e negros do Brasil e apontam os erros de políticas que, em vez de ajudar certos grupos, causam-lhes mais problemas e ameaçam transformar o Brasil num país de conflitos. O primeiro capítulo do livro está disponível no site da editora.

Em vez de valorizar a miscigenação, de considerar a mestiçagem como uma virtude, a nova tendência é apresentar o Brasil como uma nação dividida entre brancos e negros, de forma semelhante aos esquemas simplórios que catalogam os indivíduos como opressores e oprimidos, reacionários e progressistas. Mas, como escreve Ali Kamel, o Brasil é caracterizado por relações de amizade inter-raciais, casamentos mistos, inexistência de barreiras institucionais contra os negros, ausência de conflito e de consciência de raça. Ao estudar a gênese contemporânea da nação bicolor, Kamel mostra como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi coerente com as próprias idéias de sua juventude, quando escreveu as obras Cor e mobilidade social em Florianópolis e Capitalismo e escravidão no Brasil meridional. Em seu governo, FHC implantou o Programa Nacional de Ações Afirmativas. Como ele mesmo afirmou, isso significou uma mudança de mentalidade na população. A partir de então, a tendência tem sido a ampliação das políticas de cotas raciais, ainda mais no governo Lula, com a criação da Secretaria da Igualdade Racial, entre outras iniciativas que buscam resolver de forma precipitada problemas cujas verdadeiras soluções exigem seriedade e não demagogia.

Se for verdade que na população pobre há maior percentual de negros e pardos do que a proporção deles na população geral, que negros e pardos são minoria em determinados setores, também o é o fato de que tais situações não são necessariamente provas de racismo. O mesmo argumento vale em relação a mulheres ou qualquer outro grupo: se não estão devidamente representados em certos setores, isso não é prova de discriminação. Provar a existência ou a inexistência de discriminação ou de racismo é tarefa posterior, que buscará as causas dos dados obtidos inicialmente.

No caso brasileiro, Ali Kamel mostra que não se trata de racismo. Existem casos de racismo, mas toda forma de discriminação racial é combatida em lei. E a lei deve beneficiar apenas os indivíduos que sofreram racismo, sem privilégios a todo um grupo de pessoas que não passaram pela mesma situação. O ponto fundamental a ser destacado é o de que no Brasil o racismo não é estrutural. O problema do Brasil não é o racismo, que não é um traço dominante da nossa cultura.

Importante é o capítulo em que Kamel escreve sobre a inexistência de raças entre os seres humanos, o que é consenso entre geneticistas. Raças existem em cães, por exemplo, não em humanos. A crença na existência de raças é a base de todo racismo. Não existem genes exclusivos de determinada cor. Em relação às doenças, pode-se dizer o mesmo. A cor da pele não determina sequer a ancestralidade. Raça é uma construção cultural e ideológica. De acordo com o geneticista Craig Venter, o primeiro a descrever a seqüência do genoma humano, “raça é um conceito social, não um conceito científico”.

Outra questão que merece ser discutida é a da omissão dos pardos. Para sustentar a tese equivocada de que o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, somam-se os negros e os pardos. Ao importar uma terminologia dos Estados Unidos, os pardos são considerados negros. Ora, a nossa realidade é outra. Aqui há miscigenação. Segundo dados do IBGE, a população brasileira é formada por 51,9% de brancos, 5,9% de negros e 42% de pardos.

Se por um lado os pardos são somados aos negros, quando se quer aumentar o número de “oprimidos” e dar peso às reivindicações de certos movimentos, por outro lado os pardos são barrados em algumas universidades que adotam as cotas como forma de ingresso. Na autodeclaração ou na análise de fotos, não haverá critérios objetivos para enquadrar todas as pessoas supostamente discriminadas entre aquelas que serão privilegiadas pelas cotas. E, mesmo que houvesse, tais políticas não seriam justas. Aliás, as políticas de cotas, além de injustas, são prejudiciais.

Quando relacionamos o nível cultural e a condição econômica, percebemos que o salário é tanto melhor quanto melhor é o ensino. Não se pode deixar de levar em conta a qualificação educacional quando são feitas comparações entre brancos, pardos e negros. Aliás, tais comparações só se justificam entre grupos com características semelhantes. Não existe o branco médio, o pardo médio ou o negro médio. Há variações em cada grupo. Quando são feitas comparações de acordo com os critérios adequados, verifica-se a paridade entre os grupos, como no caso dos trabalhadores domésticos, entre os quais não há diferenças significativas no rendimento de brancos, pardos e negros.

Brancos, negros e pardos pobres têm as mesmas dificuldades. A proporção mais elevada de negros e pardos entre os pobres se deve ao fato de que a ascensão social é mais difícil para os pobres, que não têm oportunidade de educação qualificada. É a própria pobreza a limitação, não o racismo. Como o ponto de partida era desfavorável, já que foram escravos, negros e pardos em geral não conseguiram superar a pobreza. Muitos de seus descendentes, com poucas oportunidades por viverem num país subdesenvolvido, em que a educação não é prioridade da maioria dos governantes, não elevaram seu padrão de vida.

Conseqüentemente, permaneceu o desequilíbrio na comparação entre a proporção de negros e pardos na população geral e a proporção de negros e pardos entre os pobres.

Por outro lado, não se pode negar que algum progresso houve. O Brasil do século XXI não é o mesmo daquele de décadas passadas. Melhoraram os indicadores sociais, e isso beneficiou pessoas de diversos segmentos, embora não tanto como nos países desenvolvidos. Com o progresso da ciência e da tecnologia, é normal o progresso de um país na comparação com seu passado. O progresso é a regra, não a exceção. O problema é que tal progresso foi lento, insuficiente para dar ao conjunto da população as condições de vida dignas que todos desejamos.

Na medida em que o país se desenvolve, a tendência é o equilíbrio entre os grupos sociais. A proporção de brancos, pardos e negros entre as diversas faixas de renda será equivalente à proporção desses grupos no conjunto da população, uma vez que todos terão acesso a uma educação de qualidade, por meio da qual terão os empregos que os levarão superar a pobreza e atingir um padrão de vida satisfatório.

O que existe no Brasil é o preconceito social, o desprezo aos pobres, que Ali Kamel chama de classismo. É à análise da pobreza e de suas causas que o autor dedica alguns capítulos do livro. O desperdício de dinheiro com políticas assistencialistas (que não resolvem o problema da pobreza) e gastos excessivos com o ensino superior diminuem os recursos para a educação básica, que deveria ser a prioridade. Em grande parte das escolas brasileiras, faltam bibliotecas, laboratórios, computadores etc. Além disso, o salário dos professores em geral é baixo. Em relação ao gasto público como proporção da renda per capita no ensino fundamental e no ensino médio, o Brasil está em posição vexatória na comparação com outros países.

Ali Kamel discute bastante temas relacionados à educação, por meio da qual os brasileiros terão um futuro melhor, desde que ela seja de alta qualidade e acessível a todos. São dele estas palavras, publicadas na página 40 do livro: “Tenho procurado mostrar que, mais que ao racismo, a má situação do negro no Brasil se deve à pobreza e que não existem atalhos fáceis para superá-la, como cotas ou políticas assistencialistas. O único caminho seguro para que o país se torne mais justo é a educação”. Se deixarmos de lado o gosto pelas soluções fáceis, estudando sem preconceitos a situação de brancos, negros e pardos no Brasil, notaremos que nossa nação não é bicolor. Em termos de ideal civilizatório, uma nação misturada como o Brasil é superior às nações multiétnicas, em que a mistura é evitada. Temos, portanto, motivos para valorizar e preservar esse traço da nossa identidade cultural.

Leia também:
Racistas? Nós? - Resenha do livro de Ali Kamel "Não Somos Racistas" - Rogério Beier

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• Não Somos Racistas - ALI KAMEL

Quem é Ali Kamel
Ali Kamel é diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo e colunista do jornal O Globo. Ali Kamel nasceu no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1962. Filho de imigrantes sírios (muçulmanos e cristãos) é formado em Ciências Sociais pela UFRJ e jornalismo pela PUC do Rio de Janeiro. Começou sua carreira de jornalista no Jornal do Brasil, trabalhou nas revistas Afinal e Veja. Em 1989 foi contratado pelo jornal O Globo. Em 1995 tornou-se diretor da Central Globo de Jornalismo da Rede Globo. Desde 2001 é diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo. Escreve uma coluna quinzenal no jornal O Globo desde 2003.


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