Manifesto utópico - "O sonho não acabou" – John Lennon e Francis Fukuyama. < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Viegas Fernandes da Costa - Publicado em 26.12.2006

"O sonho não acabou" – dizia John Lennon. Permitam-me, leitores, iniciar pelo final. Quero afirmar e reafirmar que Fukuyama, o historiador estadunidense que escreveu sobre o fim da história, estava errado: não é correto afirmar que após a queda do Muro de Berlim a História tenha chegado ao seu esgotamento, isto é, que as utopias que a humanidade tanto acalentou e que defendeu com a vida de muitos, tenham acabado, sucumbido sob o pesado coturno da lógica capitalista.

  John Lennon e Yoko Ono pedindo uma chance à paz
 


 

Não, o sonho não acabou, porque sonhar é próprio da natureza humana; talvez seja a própria natureza humana, sua essência. Matar o sonho é matar o ser humano que está dentro de nós e que tantas vezes empurramos para as vielas sombrias e esquecidas do nosso corpo em benefício da nossa dimensão tecnológica de ser humano mecanizado. Coisificamo-nos na angústia diária da sobrevivência, transformamo-nos em inseticidas do outro, queremos superá-lo, matá-lo, ou, na melhor das hipóteses, anulá-lo enquanto concorrente. Aliás, todos concorremos, e a isto se chama de "novos paradigmas", ou, como diz Fukuyama, de "fim da história".

Não somos seres humanos quando lutamos pela nossa sobrevivência, quando deitamos o corpo estressado na cama e na insônia, motivada pelo medo do futuro, pensamos no trabalho nosso de cada dia. Qualquer animal luta por sua sobrevivência: isto é próprio do animal. Não somos seres humanos quando transformamos nosso meio em benefício de poucos, quando nosso trabalho é nosso jazigo, quando nossos filhos serão os escravos de amanhã: o trabalho, e não quero negar Engels, é apenas uma das dimensões humanas, não é a humanidade. Nós somos algo diferente, algo que diariamente esquecemos de ser: nós somos seres humanos, e como tal, temos a obrigação de acalentar o sonho, a utopia, a esperança de um amanhã diferente, de um amanhecer melhor. Isto é próprio do ser humano, e isto só nossa espécie pode fazer.

Acalentar a utopia, o sonho, é fundamental para que possamos caminhar conscientemente, caso contrário seremos autômatos, meros mecanismos mecânicos que funcionam conforme o rodar das engrenagens e esperam o momento de serem substituídas por outras. José Saramago escreveu, no "Memorial do Convento", sobre as vontades, as vontades que se encontravam no interior das pessoas e que procuravam sempre a elevação; e quando estas pessoas encontravam-se mergulhadas na rotina da sobrevivência, estas vontades se libertavam, abandonavam os corpos e procuravam o infinito. As vontades não desejam morrer, e então as deixamos escapar.

Mesmo que sejamos "nuvens passageiras" – como canta Hermes de Aquino -, é necessário que assumamos nossa responsabilidade de seres históricos responsáveis por nossa caminhada, pelo cultivo das vontades. E a utopia deve se constituir como o cultivo das vontades coletivas, como a estrada que traçamos e cujos traços modificamos a cada passo e não um fim. A Utopia não é a ilha no meio do oceano, mas a enorme ponte que construímos para chegar lá. A utopia somos nós, é ela que nos dá o significado da nossa existência, e por isso não podemos perdê-la, sob o risco de perdermos a nós mesmos, de encontrarmos a nossa desumanização. Por isso o plágio a Lennon: "o sonho não acabou", não pode acabar, não vai acabar!

  Francis Fukuyama John Lennon e Yoko Ono pedindo uma chance à paz Francis Fukuyama

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