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O poder que cega
Jaime Leitão - Publicado em 19.10.2006
Para entender melhor o que ocorre hoje na nossa política, vale a pena recorrer ao pequeno texto do pensador anarquista russo Mikhail Bakunin, que recebi agora de uma amiga. Bakunin, que viveu entre 1814-1876, não acreditava na sinceridade de nenhum governo e, mesmo antes de o comunismo ser implantado como regime, ele já previa o desastre que viria a acontecer no século seguinte.
Bakunin afirmou: “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e passarão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.
Bakunin, há mais de cem anos, já profetizava os chamados governos proletários ou operários que surgiriam bem mais tarde na União Soviética, nos países do bloco soviético, na Nicarágua, com os sandinistas, na Polônia, com Lech Walesa, no Brasil, com Lula. Há todo um apelo popular em conduzir ao poder representantes da classe operária, mas a História demonstra com quantos exemplos forem necessários que a esquerda quando ascende ao governo, tendo na sua chefia ex-líderes operários, costuma ser um desastre: muita corrupção, autoritarismo, aparelhamento do Estado, com criação de cargos de confiança para os camaradas e companheiros, sem nenhum pudor e cuidado para ao menos disfarçar as barbaridades cometidas contra os direitos humanos. Stalin e Hitler se nivelam em atrocidades, mesmo que os esquerdistas históricos como Oscar Niemeyer e alguns outros afirmem o contrário, preferindo não ver o óbvio.
Nenhum governo merece muito crédito, mas o que assusta mais é quando ele surge a partir de bases populares, por opor-se a uma elite dominadora, destruidora, e quando chega ao topo, copia-a e até aprofunda o horror.
Bakunin diz que é da natureza humana. Mas não é por isso que eu vou achar natural, normal, ver aqueles que sempre se opuseram aos governos de elite agora, na condição de nova elite, fazer o mesmo e esquecer o passado como se ele não existisse.
Aceitar a trama sórdida como fato banal é nivelar-se a ele, é perder o senso crítico. E isso eu não consigo. É incompatível com tudo o que eu acredito.
O mais assustador é o messianismo comum a todos esses governos. São os salvadores.
Salvam, mas a si mesmos e ao seu grupo. É uma camaradagem só para quem se submete às regras, sem questionar nada.
Leia também:
• Especial Eleições 2006
• Dilema do Estado - Flávio Calazans
• Bakunin, Deus e o Estado - Gabriel Passetti
Quem foi Bakunin?:
Mikhail Alexandrovich Bakunin nasceu em 30 de maio de 1814 em Premukhimo, Rússia. Bakunin é conhecido como um dos pais do anarquismo moderno.
Filho de proprietário de terras Bakunin teve acessos aos estudos e em 1837 começou a estudar a filosofia hegeliana. Três anos depois iria para a Universidade de Berlim estudar filosofia. Ali desenvolveu atividades políticas. Viajou pela Europa entre 1843 e 1848, onde pode conhecer Karl Marx e Proudhon. Em 1849 Bakunin foi preso e condenado à morte por sua participação na insurreição de Dresden. A pena de morte foi trocada pela sua extradição para a Rússia. Ficou preso em São Petersburgo e depois exilado na Sibéria, onde fugiu para o Japão e depois para a Suíça. Na Polônia não teve sucesso em organizar movimentos anarquistas. Em 1868 Bakunin fundou a Aliança Internacional da Democracia Social. Seu desejo era fundi-la com a Associação Internacional de Trabalhadores, na qual Karl Marx era líder. Marx e Bakunin se desentenderam durante o Congresso de Haia e Bakunin foi expulso da Associação Internacional de Trabalhadores.
Bakunin defendia a união de todos os povos eslavos e acreditava que os problemas sociais estavam na centralização da autoridade e do Estado. Para Bakunin a descentralização das organizações levaria o desenvolvimento dos homens. Bakunin criou associações para tentar unir os anarquistas de todo o mundo. Bakunin apoiou a Comuna de Paris em 1871. Retirou-se para Lugano em 1873 e morreu em Berna, Suíça, em 1º de julho de 1876.
"Pegue o mais ardente dos revolucionários, dê-lhe o poder absoluto. Dentro de um ano ele poderá se tornar pior do que o próprio Czar." M. A. Bakunin.
Livros de Mikhail Alexandrovich Bakunin selecionados:
• Estatismo e Anarquia - MIKHAIL A. BAKUNIN
• Deus e o Estado - MIKHAIL A. BAKUNIN
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