Pinochet morre no Chile. Agora só falta o Fidel - Artigo sobre a morte do ex-presidente do Chile Augusto Pinochet - Biografia de Pinochet < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Eleutério Brandão - Publicado em 11.12.2006

Augusto Pinochet morreu aos 91 anos em decorrência de um infarto do miocárdio e um edema pulmonar agudo no Hospital Militar de Santiago, Chile. Há uma semana Pinochet sofreu um ataque cardíaco. O governo do Chile declarou que o ex-ditador Augusto Pinochet receberá honras fúnebres como ex-comandante-em-chefe do Exército,
  Augusto Pinochet - Presidente do Chile de 1973 a 1990
 


 

mas não como ex-chefe de Estado. O ressentimento é muito recente para um ex-ditador que deixou a marca de mais de três mil pessoas mortas pela polícia secreta em seu governo. A atual presidente Michelle Bachelet foi torturada durante a repressão da ditadura no Chile. Ela já avisou que não vai ao enterro. Em seu lugar irá a ministra da Defesa, Vivianne Blanlot.

Escrevi a maior parte deste artigo algumas semanas atrás. Deixei-o pronto porque a biografia de Pinochet já estava concluída antes mesmo de sua morte.

Fiquei observando as manifestações contra o ditador e como as pessoas distorcem a realidade. Os que apóiam o general falecido veneram-no como santo, e os que o odeiam comemoraram a morte do Diabo. Nem um, nem outro. Pinochet foi mais um político da América Latina. Muitos não mandam matar diretamente, mas desviam verbas que ocasionam milhões de mortes. Não estou o defendendo nem o criticando.

Biografia de Pinochet
Augusto José Ramón Pinochet Ugarte nasceu em 25 de novembro de 1915 em Valparaíso, filho de imigrantes franceses. Em 1937 se graduou na Escola Militar com o posto de segundo tenente da infantaria. Teve uma bem-sucedida carreira militar. Em 1956 foi escolhido para a organização da Academia de Guerra do Equador. Permaneceu no Equador por três anos. Durante este período se dedicou aos estudos de inteligência, geografia militar e geopolítica. No retorno ao Chile foi transferido para Antofagasta. Sua dedicação e disciplina foram fundamentais para subir na carreira militar. Em 1968 tornou-se comandante da II Divisão do Exército e, depois, general. Antes do golpe galgou promoções até ser nomeado por Salvador Allende como Comandante em Chefe do Exército em 23 de agosto. Duas semanas depois o golpe já estava preparado.

A situação no Chile antes de Pinochet
Allende não tinha o apoio popular. Nunca teve. Vence as eleições com apenas 36,5% dos votos. Em seu governo Salvador Allende levou o Chile ao caos porque não se decidia numa época sem margens para indecisos. Jango também quis agradar aos dois lados ao tentar construir um país socialista no meio da Guerra Fria. Não dá certo. Na Guerra você tem de tomar partido de algum lado.

Enormes manifestações aconteciam diariamente no Chile após decisões que contrariavam interesses básicos da economia. Soma-se a este fato ao desemprego, queda da produção agrícola e inflação acima de 500%. Qualquer governo pode cair com o estrangulamento da economia.

Os estadunidenses se lamentam neste instante que seria muito mais fácil tirar Saddam sem guerra. E muito mais barato também. E por que não tiram o Chávez então? Eles precisam de um “inimigo” para o povo que seja parceiro nas exportações. Apesar do discurso Chávez sabe que precisa mais dos EUA do que os EUA precisam da Venezuela. E os EUA usam o medo de um país próximo para controlar a população, afinal o fim de Fidel está próximo. Alguém tinha que substituí-lo. Alguém precisa ser o vilão para a população manter a fé nos interesses da “proteção” do Estado. Fé e medo.

Vários motivos contribuem para um golpe: 1) ninguém gosta de perder. Quando você perde algo, você se revolta - As insurreições no Iraque acontecem porque o cidadão perdeu mulher, casa, carro e emprego nesta guerra estúpida e já não tem mais nada a perder. 2) a classe média é facilmente manipulada. Ameace com propaganda a tirar o que ela tem que ela se revolta. O povão sempre será massa de manobra, ou dos poderosos ou de quem quer tomar o poder. 3) Ao tentar socializar empresas e bancos e tentar manter acordos com os países do bloco capitalista, Allende nem virou socialista, nem capitalista. Dançou. 4) Ameace tirar do povo o pão e o circo que ele vai apoiar quem pôde se revoltar. O povão não sabe o que é burguesia. Apenas os burgueses sabem o significado desta palavra. Portanto, NUNCA confie em quem fala da mal da burguesia.

O golpe que derrubou Allende
Até o fatídico 11 de setembro de 1973 Pinochet não era conhecido mundialmente. Ele era até então o comandante do exército do presidente Salvador Allende. Com a desgraça que abateu sobre o Chile na administração Allende, mas a propaganda dos EUA para evitar uma cubanização no continente Pinochet liderou um golpe de estado terrível. Assim como o Pinochet muita gente reverencia Jango e Allende como salvadores. Ora, tem gente que acha que Chávez, Evo "Imoralez" e Lula estão muito preocupados com o povo. Acorda! Eles estão preocupados em se manter no poder. O resto é discurso para estudante iludido acreditar na união das Américas. Na força do proletariado. Na força do povo.

O Chile vivia um momento ruim que culminou na instauração do regime militar. Em 17 de Junho de 1974 Pinochet assumiu de vez o cargo de Presidente da República para acabar com as incertezas da população. O povo precisa de um líder. O rei morreu? Viva o rei.

As ditaduras tendem em curto prazo a melhorar as situações dos países. Tudo fica mais fácil sem oposição. Principalmente quando aliados poderosos transformam o seu país em propaganda para os demais. Um Chile recuperado era uma clara demonstração dos EUA do caminho que o restante da América Latina poderia optar: o caminho da proteção e estabilidade, mesmo que numa ditadura. Isto não quer dizer que Pinochet não teve méritos. Muitos ditadores fizeram palácios grandiosos e o povo passando fome. Esquerdistas que defendem Saddam Hussein são tão cretinos quanto o próprio. Em poucos anos o Chile se tornou o país com os melhores índices da América do Sul.

Infelizmente para os que eram contra o regime em nada adiantava o país ter uma qualidade de vida alta se o seu filho está desaparecido. Que qualidade de vida é essa? Para a maioria que via mais comida no prato e melhoria do país pouco importava se as pessoas sumiam. O ser humano é assim. Acreditar que o povão vai se revoltar contra os governos é patético. Lula foi reeleito. A história não muda, mudam apenas as personagens.

Era isso ou enfrentar uma ditadura nos moldes cubanos. Ou seja, a mensagem da propaganda era clara para os países da América Latina nos anos 60 e 70. Se ficarem do nosso lado terão ditadura. Se ficarem do lado deles também.

Nos primeiros anos do governo Pinochet o Chile viveu um crescimento econômico considerável. A economia viveu dias de glória, mas com a falta de interesse dos EUA, o avanço dos Tigres Asiáticos a situação no Chile começou a piorar. Em 1981 o desemprego foi recorde e as exportações caíram. Como mencionei anteriormente a população começou a se agitar porque os supérfluos ficaram mais caros. Ditadura ou democracia tanto faz para a classe média. O povão nem sabe o que é isso. Duvida. Pergunte a alguém das classes menos abastadas se vivíamos em democracia ou ditadura em 1976? Mais de 90% não sabe o nome do vice-presidente da República em 2006!

O declínio do ditador latino-americano
No final dos anos 70 já não interessava mais pressionar o povo para dizer que o bom era a repressão. Você realmente acha coincidência as greves do ABC com os fins da ditadura da América Latina. Ninguém comentou nos debates, mas o que Lula foi fazer nos EUA nos anos 70. Isso é mesmo verdade? A verdade é nebulosa na política. O que podemos saber é que os interesses comandam tudo. A maioria acredita no que a mídia quer passar.

Como o interesse em apoiar ditaduras não condizia com o espírito de liberdade estadunidense as ditaduras da América Latina entraram em desgraça. A contradição de se dizer libertário amigo de Médici, Pinochet e Stroessner já não colava mais. A desculpa era amenizada pelo fato de Fidel mandar para o paredão todos os seus oponentes políticos. O contraponto de Fidel Castro em Cuba só favoreceu os EUA a conquistarem corações e mentes da América Latina.

Em 1978 o Chile viveu novamente períodos de turbulência. Logo, o governo estadunidense condenou a ditadura e passou a forçar a barra para acabar com o governo do general. Logicamente que seria de maneira gradual e segura para os seus interesses. Nenhum Império larga seus reinos por aí de maneira desleixada.

Aos trancos e barrancos Pinochet continuou no poder. Em 1988 ele perdeu o plebiscito que o daria direito a mais um novo mandato. O "Não" venceu com 55% dos votos. Lembrou do Hugo Chávez que quer mudar a constituição para criar a reeleição permanente. A reeleição permite qualquer governo medíocre a se manter no poder. Lula que o diga. A máquina do Estado está em suas mãos e inaugurações se misturam com palanque nos anos eleitorais.

O rei está morto. Viva o rei
A ditadura acabou, mas foi uma troca de seis por meia dúzia. José Sarney era do partido da ditadura, virou candidato de Tancredo, que um dia antes da véspera passou mal e não pode assumir. Dizem que Glória Maria ouviu um tiro. No mesmo ano virou correspondente internacional. Passou uma década fora do país. Sarney era do partido de apoio a ditadura. Era presidente da Arena e do PDS. Quando sentiu que ia naufragar foi para o PFL para ser candidato a vice na chapa de Tancredo na eleição indireta. Assumiu o poder definitivamente com a morte de Tancredo. Sarney ficou cinco anos com o povo acreditando que a ditadura havia acabado.

A eleição de 1985 era entre os continuístas (Maluf) e os novos continuístas (Tancredo/Sarney). A ditadura de Pinochet acabou em 11 de março de 1990. Em seu lugar entrou o democrata cristão Patricio Aylwin, que tinha apoiado o golpe de 11 de setembro. A transição é lenta, gradual e segura para os interesses dos poderosos. E seria diferente? Ingênuo é quem acha que sim.

Pinochet saiu do poder, mas não de cena. Permaneceu como comandante-em-chefe do Exército até 1988, já no período de transição para a "democracia". A constituição de 1980 garantia aos ex-presidentes que tinham permanecido mais de seis anos no cargo o posto de senador vitalício, uma regra sob medida para Pinochet. O senado garantia a ele a imunidade parlamentar. Os problemas de Pinochet aumentaram quando foi preso no Reino Unido.

Como a situação no Chile era de esquecer os crimes de Pinochet, grupos de direitos humanos de outros países começaram a se mover para que ele fosse acusado de enriquecimento ilícito e violações aos direitos humanos. Pinochet foi acusado de manter contas secretas no exterior. No seu regime milhares de opositores foram mortos. Pinochet liderou a sinistra "Caravana da Morte" e "Operação Condor" no Chile. Mesmo assim, Pinochet ainda tem muitos admiradores. Espanha e depois o Reino Unido perseguiram Pinochet, que foi preso e, depois liberado, pelo governo britânico. Depois das transições o próprio Chile prendeu e condenou o ex-todo-poderoso.

A saúde de Pinochet foi um subterfúgio para que não fosse preso. Em 1998 viajou à Reino Unido para tratamento médico. Na Espanha foi condenado a prisão domiciliar. Em 2001 seus advogados apresentaram um atestado de debilidade mental que o salvou de uma possível condenação. Ao retornar ao Chile no ano seguinte Pinochet renunciou ao cargo de senador. Se Pinochet podia continuar como senador, também podia enfrentar o tribunal. Sua renúncia era a "prova" que estava debilitado. Antes renunciar do que ver o sol quadrado. Nesta década Pinochet foi considerado várias vezes capaz e incapaz de enfrentar os processos, devido ao seu estado crítico de saúde, que para os críticos não era tão crítico assim.

Neste ano Manuel Contreras, ex-chefe da DINA (Polícia Secreta do regime militar), denunciou o enriquecimento de Pinochet com a fabricação de cocaína em bases do exército. Depois que Hitler morreu apareceram diversas histórias sinistras de seu governo. Depois de Stálin, a mesma coisa. Não se surpreenda se em 2007 histórias incríveis sejam levadas em conta, algumas até o retratando como herói. Afinal, o passado pode é reescrito todo o tempo.

2006 é o ano da morte dos ditadores. Stroessner e Pinochet já eram. Faltam alguns. Fidel Castro é o mais cotado para integrar em breve a área VIP dos ditadores nas profundezas.

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