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| Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais? - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza < Artigos < Duplipensar.net |
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Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais? Parte 2 - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza
Ramana Jacques - Publicado em 28.11.2006
Homem e natureza, por definição, são elementos que não combinam. Dessa maneira, a natureza tem que ser conservada através de delimitações que impeçam que o desenvolvimento econômico da sociedade industrial acabe devastando o que lhe resta, além de oferecer aos estressados habitantes das já enormes cidades industriais da época, ilhas de belezas naturais e de tranqüilidade, como já fora atestado por Diegues (2004):
“Essas idéias,... tiveram, portanto, grande influência na criação de áreas naturais protegidas, consideradas como “ilhas” de grande beleza e valor estético que conduziam o ser humano à meditação das maravilhas da natureza intocada” (Diegues, 2004, p. 24).
Esta é a visão da corrente conservacionista, e foram nessas bases que surgiu a idéia de criação dos Parques Nacionais, sendo o primeiro, o Parque Nacional de Yellowstone, criado nos Estados Unidos em 1872. Os Parques Nacionais seriam, assim, uma garantia de conservação da biodiversidade mundial, além de refúgio para os habitantes da sociedade industrial, materializado no chamado “ecoturismo”:
“Os parques se tornam ímãs para os cidadãos, quando as populações urbanas procuram por oportunidades de recreação e de espairecimento para a tensão e o congestionamento das megacidades” (Terborgh e Schaik, 2002, p. 34).
Configura-se então uma visão que antagoniza o homem e a natureza. O habitat do ser humano passa a ser a cidade, enquanto que a natureza passa a ser um mero refúgio, e não parte integrante do habitat do homem. O homem torna um ser eminentemente urbano, enquanto à natureza, fica a cargo a fauna, a flora, as águas... Assim, este segundo espaço (natureza [fauna, flora...]) deve ter um caráter contemplativo (e dominado) pelo primeiro (urbano [homem]). Essa visão dicotômica entre ser humano e natureza fica mais clara em Terborgh e Schaik (2002), quando estes afirmam que,
“Práticas de desenvolvimento sustentável que não sejam relacionadas com ecoturismo são incompatíveis com a conservação da natureza porque, por princípio, seres humanos e animais silvestres não combinam bem” (Terborgh e Schaik, 2002, p.28).
Temos claro, portanto, a descaracterização do homem e da natureza como elementos constituintes de um mesmo todo, como o preconizado pela visão de mundo clássica, para o estabelecimento de um fragmentado (homem e natureza), antagônico (homem versus natureza) e dominado (natureza pelo homem).
Este foi o ponto principal defendido pela corrente conservacionista. Mas para que tal tipo de foco fosse aceito, foi preciso construir discursos para que esta fosse legitimada, no sentido dela se tornar uma visão óbvia, não passível de contestações. E para tanto, buscou-se a naturalização da discussão, dando a este ponto de vista o caráter de senso comum, buscando deslegitimar posições que o contrariem:
“Não deveria ser preciso justificar que os parques são um refúgio da natureza e que por isso as pessoas são excluídas, com exceção dos visitantes, do pessoal encarregado e dos concessionários” (Terborgh e Schaik, 2002, p. 28).
Ou seja, ao afirmar que “não deveria ser preciso justificar” busca-se o encerramento da discussão, tudo o que destoa desse ponto de vista, é taxado como absurdo e não científico, como o exposto a seguir:
“O alarde intelectual gerado por essa linha de pensamento tem ganho muito destaque, principalmente dentre os que não são cientistas, chegando alguns conservacionistas a advogar a abertura dos Parques para que as populações locais os utilizem ‘de modo sustentável’” (Terborgh e Schaik, 2002, p. 28).
Fica clara a busca pela deslegitimação do discurso alheio, sobretudo ao taxar os “alardes intelectuais” como obra de “não cientistas” (mesmo que o fossem), como se o científico tivesse que, necessariamente compartilhar dos valores conservacionistas. O discurso, que é um constructo social, torna-se um elemento natural, com justificações totalizadoras e livres de polêmicas.
Vimos então que, o homem, que no mundo clássico, era apenas uma parte do todo, e que com o iluminismo, passa a ser dominador da natureza, agora, na sociedade contemporânea industrial, torna o seu destruidor, e por essa razão, a natureza necessita ser protegida desse elemento, que parece agir como um vírus, devastando tudo o que encontra pela frente. Dessa forma, por conta desta “natureza” destruidora, é necessária a utilização de meios que não permitam o prosseguimento deste processo, e este meio é a criação das Unidades de Conservação, neste caso, dos Parques Nacionais desabitados e protegidos. Além disso, a busca pela sua legitimação se dá a partir da desqualificação das visões destoantes desta, buscando dar a elas um caráter “absurdo” e não científico... Esse é o sonho conservacionista.
Ensaio - Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?
• Parte 1 - A relação homem-natureza
• Parte 2 - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza
• Parte 3 - Homem e natureza - distintos, mas não antagônicos
• Parte 4 - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do "todo pela parte"
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