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Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais? Parte 3 - Homem e natureza - distintos, mas não antagônicos
Ramana Jacques - Publicado em 29.11.2006
Uma vez que a visão conservacionista antagoniza o homem e a natureza, o seu contraponto deveria então, antagonizar esta corrente, buscando a unificação desses dois elementos? Não necessariamente, entre o preto e o branco há infinitas tonalidades de cinza, e, portanto, a discussão não deve ser simplificada de tal forma. O fato de não ter que haver antagonismo entre as partes, não quer dizer que elas devem ser, automaticamente, similares, como propunha o pensamento clássico. Homem e natureza como elementos distintos, mas complementares, e não antagônicos, e que, sobretudo, podem conviver harmonicamente, sem o segundo ter que ser destruído e dominado pelo primeiro.
Dessa forma, se os conservacionistas defendem que os Parques Nacionais devem ser unidades isoladas do ser humano (excetuando os turistas) e que as populações que lá habitavam antes da instituição da Unidade de Conservação devem ser realocados (ou removidos), para o bem da coletividade através de uma “justa indenização1”, este outro tipo de pensamento advoga que a constituição de um Parque Nacional não deve subentender a remoção de populações tradicionais que habitam a dezenas, séculos de anos nessas localidades. Pelo contrário, a permanência desses povos, longe de promover necessariamente degradação, pode contribuir na preservação desse ambiente.
Há nesse momento, uma divergência clara e inconciliável entre as duas correntes, visto que enquanto uma preconiza a incompatibilidade entre homem e natureza, o seu contraponto, pelo contrário, entende que, longe de serem incompatíveis, o homem pode, na verdade, ser um elemento decisivo para a sua integridade:
“Gómez-Pompa também afirma que vários autores descobriram que muitas espécies dominantes das selvas “primárias” do México e da América Central são, na verdade, espécies úteis que o homem do passado protegeu e que sua abundância atual está relacionada com este fato” (Diegues, 2004, p.151).
Obviamente, não se está falando de qualquer população. O foco se dá em coletividades que já possuem relação histórica com uma determinada porção de terra. Portanto, está se falando de comunidades tradicionais, que longe de terem uma visão urbano-industrial do mundo, onde a natureza não é nada mais do que um lugar para amenizar o stress, tem nela, na verdade, o seu meio e garantia de vida. Além de não terem disseminado em seus in (conscientes) a lógica acumulativa, típica da sociedade capitalista. Muitas vezes, a pura e simples subsistência (o que não quer dizer passar necessidades) é o bastante para determinadas populações.
Assim, com a retirada arbitrária dessas populações dos seus habitats, acaba promovendo um efeito contrário. Melhor explicando: se antes as populações tradicionais possuíam um relacionamento harmônico e um sentimento de pertencimento para com o seu pedaço de terra, ao serem arbitrariamente expropriados, toda essa relação se perde. O que era sentimento pertencimento, transmuta-se para uma sensação de estranhamento dessa nova função (turística) do seu velho espaço territorial. E o mais grave, a população, que era soberana de seu lar, torna-se uma intrusa. Assim, o que antes se constituía em uma relação harmônica, torna-se conflituosa.
Conseqüentemente, os Parques Nacionais, que poderiam servir de elemento de interação entre populações tradicionais e os visitantes, tornam-se palcos de conflitos entre os órgãos gestores e as populações que lá residiam. O antigo morador, que poderia ser um agente em defesa do Parque, torna-se, de uma hora para outra, com a imposição da visão urbana/industrial/turística, o seu principal agressor, e o principal elemento a ser combatido e controlado, e para tanto, passa a existir a necessidade dos policiais dos Parques Nacionais, os chamados guarda-parques:
“O Brasil, com a décima economia mundial, tem mais ‘parques de papel’ do que guarda-parques na Amazônia” (Terborgh e Schaik, 2002, p.30).
Esta proposta, ao defender a permanência das populações tradicionais no interior dos Parques Nacionais, entende que a visão de mundo contemporâneo (urbano/industrial/capitalista), apesar de ser hegemônica não é absoluta, e nem deve atuar como um “rolo compressor” sobre as demais visões de mundo, e que, portanto, deve respeitar, e mais do que isso, valorizar as diferentes maneiras organizativas de sociedades. Esta é a principal divergência entre essas duas correntes de pensamento.
Nota:
1 - A justa indenização sendo definida por quem promove a ação, e não por quem sofre. Ou seja, nada garante que o justo de um, é justo para o outro.
Ensaio - Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?
• Parte 1 - A relação homem-natureza
• Parte 2 - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza
• Parte 3 - Homem e natureza - distintos, mas não antagônicos
• Parte 4 - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do "todo pela parte"
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