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Parte 1 – A relação homem-natureza
Ramana Jacques - Publicado em 27.11.2006

Homem e natureza, instância (s) que é (são) palco de debates desde o início das formulações filosóficas, hora como se fossem na verdade uma coisa só, parte de um todo maior, hora separados dicotomicamente, sendo o Homem um ente especial, ativo, a parte da natureza, esta passiva.

Na visão de Aristóteles e Platão, por exemplo, o mundo era pensado como um cosmos, onde o homem estava inserido nele, assim como os demais elementos da natureza. Dessa forma, o Homem, não era mais do que natureza, um simples elemento desta, tal qual um peixe, uma rocha, uma montanha, a água. Trata-se de uma visão que pregava a harmonia entre os seres componentes do cosmos1. No entanto, era uma perspectiva de mundo estática, onde a evolução do mundo e das espécies não era considerada.

Essa matriz de visão de mundo perdurou pela Idade Média, até o momento em que o movimento iluminista começou a despontar, primeiramente com Francis Bacon através do seu método dedutivo, dando à natureza um caráter de objeto de investigação. Posteriormente, foi consolidado por René Descartes, com o seu mecanicismo analítico, fundado na racionalidade metodológica, onde o mundo passou a ser encarado como uma máquina, e o papel do Homem seria o de desvendar os segredos dessa máquina para compreendê-la e assim manipulá-la da maneira que melhor lhe conviesse. Homem e Natureza são assim separados, dicotomicamente, sendo o Homem, o sujeito, o ativo, o dominador, e a Natureza, o objeto a ser investigado, dominada passivamente. A referência feita por Boaventura de Sousa Santos em relação ao pensamento de Bacon é ilustrativa em relação a esta questão: “A ciência fará da pessoa humana o senhor e o possuidor na natureza” (Santos, 2001, p. 13). Da mesma maneira, Diegues (2004) afirma que,

“Essa dicotomia homem-natureza e o enfoque antropocêntrico ter-se-iam agravado com o surgimento da ciência moderna, em que o mundo natural se torna objeto do conhecimento empírico-racional. Essa ciência, segundo Bacon, tinha por finalidade devolver ao homem o domínio sobre a criação que havia parcialmente perdido com o pecado original” (Diegues, 2004, p.43).

Claro está o rompimento com o pensamento anterior, baseado na harmonia entre os elementos do cosmos. O Homem, que antes era apenas mais um elemento, igual aos demais, sobe um degrau na hierarquia a partir de sua racionalidade, e torna-se superior, dominador. E quanto mais houvesse o aprimoramento analítico do sujeito, mais degraus seriam superados, e mais superior e dominador este seria em relação ao (não mais complementar, mas sim dicotômica natureza) seu objeto de investigação, chegando ao limite de se imaginar à imagem e semelhança de Deus. Nas palavras de Albert Einstein, “esta convicção, ligada ao sentimento profundo de uma razão superior... traduz para mim a idéia de Deus” (Einstein, 1981, p. 209).

E foi nessa base que o ser humano buscou sua “emancipação” da natureza, a partir de uma racionalidade fundada na divisão sujeito-objeto, livre das mitificações de tempos remotos; e do desenvolvimento tecnológico, capaz de torná-lo cada vez mais Senhor de sua morada. O Homem se constitui, assim, num ente especial, em separado de todo o restante. A definição Homem e Natureza, que antes não fazia sentido, dado que era uma coisa só, tornam-se elementos distintos, dicotômicos, e porque não, nos dias de hoje, ganham cores antagônicas.

Eis o cerne do debate ora proposto. Não propriamente a discussão se homem e natureza são uma coisa só ou não, mas sim se o homem é um elemento que necessariamente antagônico e destruidor da natureza, ou se, na verdade, essa é uma construção social baseada na sociedade industrial capitalista contemporânea. Para tanto, teremos como delimitação do debate a questão do uso dos Parques Nacionais (PARNAS), uso este que possui duas visões contrastantes. Enquanto determinadas correntes defendem a não permanência de populações tradicionais no seu interior, na crença de que a convivência harmoniosa entre homem e natureza não é factível, outras defendem justamente o contrário, ou seja, a permanência de populações tradicionais no seu interior, como meio de valorização e preservação do ambiente em questão por parte da população afetada. Enfocaremos primeiramente essas duas visões, para então, nos posicionarmos mais enfaticamente no debate ora proposto.

Ensaio - Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?
• Parte 1 - A relação homem-natureza
Parte 2 - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza
Parte 3 - Homem e natureza - distintos, mas não antagônicos
Parte 4 - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do "todo pela parte"

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