| |
| |
| Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais? - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do "todo pela parte" < Artigos < Duplipensar |
| |
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais? Parte 4 - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do "todo pela parte"
Ramana Jacques - Publicado em 30.11.2006
Vivemos em tempos em que predomina hegemonicamente a visão de homem como um elemento destruidor da natureza. Isto porque, a sociedade contemporânea se constituiu em bases urbanas de grandes cidades e metrópoles tendo que, portanto, desbravar as matas para suas construções; industrial e, portanto, extremamente poluidoras do meio ambiente; e capitalista, onde há a necessidade de acumular e expandir capital, tendo que para isso, utilizar mais e mais os recursos naturais existentes no planeta. Até aí não divergimos das argumentações da corrente conservacionista. O homem urbano/industrial de fato é (e foi) um elemento que degradou inconsequentemente a natureza e que, por isso, são necessárias medidas para que o que ainda lhe resta, seja conservada.
O problema, na verdade, reside em tentar fazer do paradigma civilizatório da sociedade contemporânea industrial, o paradigma de toda a humanidade, no tempo e no espaço, como se o homem/sociedade, naturalmente, fosse um elemento destruidor da natureza, independente do tempo e espaço em que ele existiu, ou existe, pois vejamos:
“A natureza sobreviverá melhor no futuro como tem sobrevivido através de milênios, na ausência de qualquer alteração ou intervenção artificiais” (Terborgh e Schaik, 2002, p. 28).
Com tal afirmação, entende-se que o homem sempre teve a mesma relação com a natureza que o homem urbano/contemporâneo, e que qualquer alteração ou intervenção realizada pelo ser humano, é maléfica, dado que “a natureza sobreviverá melhor... na ausência de alterações ou intervenções artificiais”. Das duas uma: ou se está dizendo que, por exemplo, os índios (do passado e do presente), são sociedades destruidoras da natureza, ou eles estão sendo sumariamente excluídos da classificação de seres humanos, uma vez que suas intervenções não seriam artificiais, e sim naturais, e que, portanto, eles seriam elementos da natureza, diferentes do homem1. Esta segunda opção se enquadra naquela perigosa estigmatização que trata as sociedades diferentes da hegemônica como selvagens que devem ser disciplinados pela sociedade civilizada, tal qual os jesuítas fizeram nos tempos de Brasil-Colônia.
A delimitação que o cotidiano urbano acaba impondo às pessoas contribui na corroboração deste tipo de visão, visto que cada vez mais as pessoas vem tendo uma visão de mundo fechada, preocupadas que estão com a competitividade que a busca pelo mercado de trabalho e do sucesso profissional se impõe “naturalmente” em cada indivíduo. Perde-se assim a visão do todo, e a natureza que deveria ser vista como um elemento constituinte do mundo em que vivem torna-se um refúgio, um espaço geográfico à parte, nas palavras de Diegues (20004).
“A persistência da idéia de um mundo natural, selvagem, não tocado, tem força considerável, sobretudo entre populações urbanas e industriais, que perderam, em grande parte, o contato com quotidiano e de trabalho com o meio rural” (Diegues, 2004, p. 157).
O urbano torna-se o espaço vivido, do trabalho, do penoso, enquanto que os espaços naturais, tornam-se meramente ambientes de lazer, sem uma vivência mais profunda. Daí que visões mais amplas de vivências, como a de populações tradicionais com a natureza, são sumariamente desconsideradas, muitas vezes nem por má fé, mas pela falta de uma visão mais liberta das rédeas que a sociedade urbano/industrial/capitalista impõe. Como exemplo do exposto, podemos observar o Plano de Manejo do Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no sudeste do estado do Piauí, e no estudo de Terborgh e Schaik (2004)
“As medidas destinadas a proteger o PARNA devem considerar os principais agentes que atualmente desenvolvem maior ação depredatória: a população e os animais domésticos. A população tenta, de maneira sistemática, explorar sob diferentes formas os recursos naturais” (Plano de Manejo, 1994, p. 335).
“As experiências recentes com unidades de conservação em países tropicais não tem sido encorajadoras. A maioria dos parques tropicais possui pessoas morando dentro deles, às vezes legal, outras ilegalmente” (Terborgh e Schaik, 2002, p. 26).
A formulação do Plano de Manejo considera que o PARNA deve ser protegido das populações. Se fosse especificado no Plano que população era essa que o Parque deveria ser protegido, poderíamos avaliar se era justa ou não essa necessidade de proteção, mas nem essa chance nós temos. Não se diz se está falando dos pecuaristas, dos grandes proprietários, dos que residem nas cidades, se dos que lá habitavam há séculos e séculos antes de se instituir um Parque Nacional na região. Não, põe-se tudo no mesmo barco, sob a abstração “população”. Com isto, renegam-se todos os tipos de sociedades que existiram e que existem, e as homogeneíza de acordo com o paradigma civilizatório vigente. Por sua vez, Terborgh e Schaik definem, a priori, que o fato de existirem pessoas morando no interior de Parques Nacionais é um fator negativo, sem se interrogarem quem são essas pessoas que lá habitam. Ou seja, esses dois exemplos, determinam que “pessoa” é naturalmente um ente estranho e destruidor da natureza, presos que estão ao paradigma civilizatório urbano-industrial.
O mundo em que vivemos é complexo, as sociedades que o constitui são igualmente complexas. Querer taxá-las de A ou B, ou é má fé, ou é falta de informação. Cada caso é único, cada implementação de um Parque Nacional responde às especificidades históricas, geográficas, sociais, políticas, culturais, étnicas diversas. Da mesma forma, populações tradicionais que durante séculos preservaram o seu meio ambiente, não podem simplesmente serem expurgadas dos seus lugares de vivência. Todo o seu conhecimento tradicional acumulado deve ser levado em consideração, e mais importante, devem ser respeitados. O fato de esses saberes não terem sido construídos em laboratórios ou em páginas de livros não os desmerecem, apenas nos dizem que existem outras formas de saber, que não os científicos. Como já disse Paulo Freire, “não existe saber mais nem saber menos, existe sim, saberes diferentes”. Deve-se, portanto, haver uma busca de maior interação (e não imposição) entre os pesquisadores e comunidades tradicionais, horizontalizando as relações sociais ao invés de verticalizá-las, como tem sido o costume, atestado por Diegues (2004):
“Há grande necessidade de se conhecer melhor as relações entre a manutenção da diversidade biológica e a conservação da diversidade cultural. Quase nenhuma pesquisa sistemática dói realizada nesse sentido. Até hoje, no Brasil, a avaliação de uma área a ser declarada unidade de conservação tem sido responsabilidade única dos cientistas naturais. É necessária uma visão interdisciplinar, onde trabalhem de forma integrada biólogos, engenheiros florestais, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, entre outros, em cooperação com as populações tradicionais” (Diegues, 2004, p.159).
Quem arrasou a natureza não foram os povos tradicionais, e sim a sociedade moderna, onde o homem se alçou ao status de dominador e explorador da natureza. Imputar nos povos tradicionais as barbaridades cometidas pela sociedade industrial é covardia. Se a sociedade industrial demonstrou seguidas vezes a sua incompatibilidade de vivência harmônica com o ambiente natural, não deve fazer dos seus erros, o dos outros. As comunidades tradicionais pouco tem a ver com isso.
Notas:
1 - Não nos esqueçamos do caso do índio Pataxó, queimado vivo em 1997 por cinco jovens abastados de Brasília, que ao serem interrogados disseram que fizeram o que fizeram porque acharam que a pessoa deitada no banco era um mendigo, não um índio. Dada a mentalidade doentia desse tipo de pessoa, dessa argumentação pode-se pensar que, antes do índio se constituir socialmente acima de um mendigo, se trata, na verdade de um outro elemento, não socialmente acima, mas sim, distinto do mendigo, este, o último das camadas sociais do ser humano.
Ensaio - Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?
• Parte 1 - A relação homem-natureza
• Parte 2 - O Homem como elemento naturalmente destruidor da natureza
• Parte 3 - Homem e natureza - distintos, mas não antagônicos
• Parte 4 - Sociedades, não sociedade, escapando da armadilha do “todo pela parte”
Envie este artigo para um amigo
Para recomendar o artigo "Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?" de Ramana Jacques digite o e-mail de seu amigo no campo abaixo e clique no botão ao lado.
|
Livros relacionados com o artigo - Parques Nacionais, redomas de vidro ou áreas de interações sociais?
• O Ponto de Mutação - FRITJOF CAPRA
• O Mito Moderno da Natureza Intocada - ANTONIO CARLOS DIEGUES
• Como Vejo o Mundo - ALBERT EINSTEIN
• Um Discurso Sobre as Ciências - BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
• Imagens da Pré-História: Parque Nacional Serra da Capivara - ANNE-MARIE PESSIS
• IBAMA e FUMDHAM (1994). PLANO DE MANEJO – Parque Nacional Serra da Capivara
• TERBORGH, John e SCHAIK, Carel Van (2002). Por que o mundo necessita dos Parques. In: TERBORGH, John et al (orgs). Tornando os Parques eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Curitiba, Ed. UFPR;
| |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|