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Janos Biro - Publicado em 19.11.2006

Por que devemos considerar o homem como um produto da evolução? Esta questão científica tem gerado um conflito entre ciência e religião. Desde Charles Darwin, temos uma explicação não religiosa sobre a origem do homem. O homem foi considerado o ápice da criação, o ser que dá sentido a ela. A idéia reconfortante de que o próprio criador do universo ama os seres humanos acima de qualquer outra espécie justificou durante muito tempo que exercêssemos domínio sobre o resto da vida animal e vegetal desse planeta, tratando-os como seres auxiliares a nossa própria existência. Segundo a Bíblia, Deus nos deu a posição de senhores da terra, para dar nomes a todos os animais. “Dar nome”, no sentido antigo, significava adquirir controle e posse sobre algo. Mas para a evolução somos apenas mais um habitante deste planeta, cuja ordenação não depende de nós. Somos únicos do mesmo modo que todas as outras espécies são únicas. Cada uma delas é um produto único e precioso da evolução.

A partir da ciência, pudemos descobrir que o homem não é indispensável à criação. O mundo passou a maior parte de sua história sem o homem. O homem é um ser relativamente novo; em escala geológica ele surgiu apenas no último instante. Mais do que isso, o homem é o resultado de um processo não linear, e nenhum resultado é definitivo. Significa que o homem nem sempre foi como é, ele se origina de outras espécies, e provavelmente não continuará assim para sempre. A teoria da evolução é importante porque introduz o dinamismo ao conceito de vida. Dá à biologia, o estudo da vida, a compreensão de que ela não está lidando com elementos isolados e estáticos como os elementos da física, mas elementos que possuem e são influenciados por sua história, e que não podem ser bem compreendidos fora dela.

Neste sentido se torna essencial à compreensão mais completa do homem considerar não apenas do que ele é composto e qual a sua configuração física, mas também qual a sua história biológica e como ele se tornou homem. Assim, nos é feita uma questão de extrema relevância: quando o homem se torna humano? A partir de que ponto o que consideramos homem passa a existir como espécie? É possível responder isso com precisão? Estas questões levam a outras questões. Talvez a mais importante delas seja: o que podemos considerar “homem”? Torna-se indispensável que avaliemos nosso próprio conceito de homem, e que saibamos o que torna o homem único para que possamos saber desde quando existe um ser com tal característica.

O homem deve ser considerado como parte de um processo, e não como objetivo final. Como tal, ele está em continuidade com a natureza, e não em oposição a ela. A concepção de homem que foi fortificada durante a idade média e a modernidade foi posta em xeque, e não é por acaso que os argumentos neo-darwinistas tem grandes dificuldades para serem aceitos e compreendidos. Outra idéia relativamente nova é que, devido à mutação aleatória, adaptação e seleção natural dos genes, não existe um destino necessário e inevitável para a humanidade, ou para a vida na Terra. O que temos hoje é resultado de inúmeras combinações caóticas. Ao invés de um destino inexorável ou um caminho único que a evolução do homem siga, o que existem são possibilidades. Não se pode prever como a vida irá se organizar no futuro. Não há leis universais e imutáveis governando a evolução das espécies.

Segundo Dobzhansky, esta concepção não-determinista da evolução é extremamente otimista, uma vez que abre a possibilidade de que a humanidade se torne melhor, ao contrário de uma concepção de falha natural do homem, pelo qual ele estaria condenado a sofrer males necessários e eternos, encontrando sua salvação apenas num outro plano, para além da vida natural. Se por um lado isso poderia significar que “o paraíso pode ser aqui”, por outro pode ser deturpado por grupos que defendem a eugenia, a engenharia genética e a purificação genética. O processo evolutivo não é apenas não teleológico, i.e., não ordenado a fins, ele também é não-linear. A herança genética de cada ser guarda em si a história genética da evolução da vida como um todo. Os genes não manifestam uma característica isoladamente, dependem de uma combinação. Grande parte dos nossos genes não tem expressão, são considerados “refugos”. São “peças” que ainda não se combinaram para “montar” uma característica expressiva. Mas esses refugos continuam evoluindo por processo de mutação, apenas não são eles mesmos selecionados, pois não modificam a capacidade de sobrevivência. No entanto chega um ponto em que um eles se combinam passam a expressar uma característica totalmente nova. Este “salto evolucionário” não foi previsto pelo próprio Darwin. Este pode ser o caso do homem, o que dificultaria muito a datação exata de seu surgimento. Se o salto evolucionário é considerado, explicaria porque é não se pode encontrar “elos perdidos” para algumas espécies, incluindo a espécie humana.

Podemos ter genes para certas características que não se manifestarão em nós, mas que podem se manifestar nos nossos descendentes. Isso promove a diversidade, pois a história genética é mantida, e não se restringe à soma dos fenótipos, tornando as possibilidades da evolução praticamente infinitas. Não há limite para o surgimento de novas combinações, isto é, novas características. Uma nova espécie surge com uma herança genética enorme, de todos os seus ancestrais. Essa herança não se perde com o fim da espécie, ela continua nas em todas as próximas espécies. O mesmo ocorre com os humanos, uma boa parte de nossas características não é exclusiva de nossa espécie, mas já estava de certa forma em nos nossos ancestrais, e continuará em nossos descendentes.

Isto não significa que possamos determinar a evolução dos primatas pela nossa. Eles não são “menos evoluídos” que nós. A idéia de uma “escada evolucionária” que se inicia no macaco e termina no homem é na verdade uma acepção errada e contrária até mesmo ao que Darwin acreditava. Não há nada que indique que no futuro primatas se tornarão como nós, pois a evolução segue caminhos aleatórios, e seria muita coincidências que as mesmas combinações de fatores se dessem novamente em dois pontos históricos diferentes. A chance é tão mínima que podemos dizer que é virtualmente impossível, mesmo em ambientes parecidos e em várias tentativas consecutivas. O mesmo pode ser dito para a probabilidade dos outros animais se tornarem racionais e tecnólogos como nós, como nas estórias de ficção. Essas características foram resultado de inúmeras combinações únicas, mesmo que muitos genes sejam os mesmos. Assim podemos dizer que o que nos torna únicos enquanto espécie não é a soma dos genes que carregamos, mas a relação deles entre si. Isso demonstra que a evolução da vida como um todo é não-linear, e que não faz sentido dizer que há espécies superiores e inferiores, nem que há uma escada evolucionária que leva ao homem.

De forma parecida, não podemos julgar com linearidade as diferentes culturas humanas. Depois da teoria da evolução de Darwin, surgiram algumas teorias sociais supostamente darwinistas, que na verdade se baseavam em apreensões simplificadas, incompletas e errôneas da teoria de Darwin. É o que chamamos de darwinismo social. O termo “sobrevivência do mais apto” é um exemplo disso, tendo como agravante a tradução da palavra “apto” para “forte”. O termo foi apresentado por Spencer para tentar resumir a teoria, mas se tornou uma fonte de grandes deturpações e interpretações errôneas. Tais autores inspiraram a idéia de que o mundo natural é uma arena de competição acirrada e violenta, onde é preciso eliminar seus inimigos implacavelmente para sobreviver. Isso apenas representa o que as pessoas da época queriam ver na natureza, inclusive na natureza humana, como necessidade indispensável para gerar o progresso e o desenvolvimento.

Uma dessas deturpações foi criada por um parente e adepto de Darwin, Francis Galton. Trata-se da eugenia, a idéia de que a superação humana pode ser feita conscientemente favorecendo a procriação de “homens superiores” e desfavorecendo a de “homens inferiores”. Citando Dobzhansky:

Durante o século XIX e o início do século XX, poderosas nações empenharam-se em constituir seus impérios coloniais. Enquanto os canhões e metralhadoras destruíam ou escravizavam os selvagens armados de arcos e flechas, era confortador pensar que se estava assistindo simplesmente a substituição de raças biologicamente inferiores por outras superiores. (Dobzhansky, pág. 75)

A eugenia ignora que os homens mais ao modo de vida civilizado não são necessariamente os mais adaptados ao meio. O que o meio exige do homem não pode ser medido e não se prova empiricamente por meio de uma luta constante pela sobrevivência. A vida como um todo promove muito mais a cooperação recíproca que a competição acirrada. A sobrevivência de uma população sobre outras espécies não significa uma melhor adaptação desta, uma vez que mesmo as piores adaptações podem dar resultados positivos imediatos. A evolução não é um jogo competitivo, onda há vencedores e perdedores, mas sim um jogo de convivência. Os mamíferos têm uma grande capacidade de tolerância e de convivência harmônica. Se o homem tivesse se tornado homem por meio da competição constante contra outras espécies e contra ele mesmo, não teria se tornado tão naturalmente indefeso. A inteligência, por outro lado, não é um atributo desenvolvido para o conflito, ela é anterior às guerras e muito mais significativa para o desenvolvimento da linguagem, da cultura e da vida em tribo. Os primeiros hominídeos era primariamente coletores, e não caçadores.

Nos tempos da revolução industrial a ciência causava deslumbre, e o darwinismo acabou servindo de justificação científica para a desigualdade, a conquista e a exploração. Justificava-se a pirâmide de riqueza com a “ordem natural das coisas”: os superiores no topo e os inferiores na base. Se a “lei da natureza” fosse realmente da competição eliminatória, então a evolução não promoveria o aumento da diversidade, e sim o afunilamento em direção a um ser perfeito. Isso seria claramente impossível, uma vez que a vida surge de uma unidade mínima, e não de uma diversidade de seres. Ela prossegue criando diversidade porque os seres se tornam interdependentes, ou seja, dependem muito mais da sobrevivência de seus “parceiros” que da morte de seus “rivais”. A simbiose é muito mais comum e necessária à manutenção da vida que relações parasíticas. Deixamo-nos deixamos enganar, quando vemos um leão caçando uma gazela, achando que eles são inimigos. Qualquer interferência em um dos lados prejudicaria ambos. Os ecossistemas têm um equilíbrio que só pode ser gerado por seus próprios elementos.

O homem pode é considerado, para alguns, um ser cuja característica principal é a capacidade de viver em sociedade. Isto não significa que exista uma forma mais apta de organização social. A diversidade cultural também é resultado da seleção natural. O homem pode modificar seu comportamento pelo aprendizado, enquanto os outros animais parecem depender mais da herança genética. Ele pode dividir experiências, evitar situações perigosas, criar estórias, se adaptar mais rápido a mudanças, e criar muito mais diferenças entre indivíduos do que seria possível para qualquer outra espécie. A desvantagem é que tudo isso pode ser usado contra ele mesmo, contra outros homens e contra o próprio meio, pois o que as ferramentas evolucionárias nos dão são apenas possibilidades de vantagens, e não vantagens em si. Sua capacidade permite difundir comportamentos benéficos ou maléficos. É de sua inteira responsabilidade escolher qual será o seu comportamento diante do presente, e assim influenciar o seu futuro.

Como a evolução humana não tem relação alguma com o “progresso”, não se pode dizer que haja estágios intermediários necessários para o cumprimento do destino humano. O que vamos nos tornar pode depender de nossas escolhas conscientes, mas não pode ser determinado por nossa história passada. Só podemos conhecer as “peças” e como elas têm se encaixado, mas de maneira alguma podemos prever como elas irão se encaixar no futuro, e que novas peças surgirão disto. Isso depende de toda a rede de relações. Seria preciso conhecer todo o universo para prever uma só evolução. Isto não deve ser confundido com desenvolvimento individual. Podemos saber com antecedência que uma lagarta normal se tornará borboleta porque essa informação está inscrita em seu DNA. Podemos saber como essa característica surgiu porque podemos observar sua história evolutiva. Mas não podemos saber que tipo de espécie surgirá da evolução da borboleta, porque essa informação não está inscrita em lugar algum, ela está sendo criada enquanto a espécie se adapta e sofre mutações. Da mesma forma, os genes não podem prever se uma mutação será benéfica ou nociva, eles simplesmente se auto-organizam às novas situações. O que é nocivo ou não depende apenas da característica em si, mas como de ela vai relacionar o indivíduo com o meio.

Não se pode dizer com certeza há quanto tempo existe o que podemos considerar como seres humanos. Tudo que se sabe é que o ser humano é uma espécie que sofreu uma série de adaptações e mutações muito rápidas e recentes, e não lentas e graduais como se pensava antes. A evolução de uma espécie não é sempre constante, existem períodos de estabilidade e períodos de instabilidade, que dependem tanto de mutações internas como de mudanças no ambiente. Não há porque pensar também que a evolução humana seja linear e progressiva, já que vários tipos de hominídeos conviveram entre si, com períodos de duração muito variados. Não se pode definir com clareza em que estágio da história evolutiva dos hominídeos surge o homem, porque ela não pode ser dividida em estágios bem definidos. Não há estágios sucessivos, as espécies se entrecruzam no tempo e também influenciam umas às outras. Nossa espécie existe a menos de um milhão de anos, o que é tanto um tempo curto de surgimento quanto um tempo curto de existência total para a média do tempo de duração de outros hominídeos.

Se mudarmos nosso conceito do que é essencialmente humano, a história da evolução humana precisará ser reinterpretada, e a idade relativa do homem poderá mudar. Se considerarmos a essência do homem como a capacidade de criar cultura, fica ainda mais difícil descobrir a idade precisa da humanidade, uma vez que essas características não são claramente visíveis pelos vestígios arqueológicos. Como saber a primeira vez que os homens se uniram em grupos sociais? Só podemos rastrear grupos grandes e que foram bem sucedidos por um longo tempo. É provável que os primeiros grupos falharam até que se atingisse um grau de otimização. Em resumo, a pergunta “quando nos tornamos humanos” fica sem resposta exata, mas no leva a pensar sobre nossa singularidade, nosso conceito de ser humano e o papel que temos nos dado nesse planeta até então.

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