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Artigo sobre o livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell
Vladimir Miguel Rodrigues - Publicado em 23.10.2006


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Estarei satisfeito se ao final do meu mandato, os brasileiros puderem fazer três refeições diárias.”
Luiz Inácio Lula da Silva, janeiro de 2003.

“Vote em Napoleão e na manjedoura cheia”.
”A Revolução dos Bichos” de George Orwell

“Deus pôs os pés aqui (no Brasil) e falou: 'Olha, aqui vai ter tudo. Agora, é só homens e mulheres terem juízo que as coisas vão dar certo'.”
Luiz Inácio Lula da Silva, falando na abertura da Expo Fome Zero, em 10 de fevereiro de 2004.

“O solo da Inglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode oferecer alimentos em abundância a um número de animais muitíssimo maior do que o existente... Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos.” O porco Major em “A Revolução dos Bichos” de George Orwell

Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, nasceu em 1903 em Bengala, região da Índia. De família inglesa, foi para a terra de seus pais logo quando criança. Quando adulto, ingressou na carreira militar, tendo participado de campanhas na Birmânia vestindo a farda da polícia colonial britânica. Na década de 1930, quando já publicava romances e vivia no submundo, ingressou numa milícia marxista para lutar contra a opressão franquista durante a Guerra Civil Espanhola, fato decisivo para sua conversão ao socialismo democrático.

Sua fama como escritor só começou a render frutos depois de escrever a obra-prima “A Revolução dos Bichos” em 1945. Nesse livro, os animais da “Granja do Solar” começam a se revoltar contra a dominação humana encabeçada pelo dono da propriedade, o Senhor Jones. Os “bichos”, liderados pelos porcos, fazem uma Revolução e expulsam-no junto com os outros moradores da Granja visando construir uma sociedade igualitária.

Porém, o Estado democrático não passou de um sonho. Apesar de inicialmente criarem uma espécie de “Constituição Animal”, explicitando os direitos e deveres de cada bicho, as “leis” acabaram sendo deturpadas e reinterpretadas ao longo da trama. E, na verdade, os porcos, que chegaram ao poder com Bola-de-Neve logo após a “Revolução”, iniciaram um governo incoerente, jogando o ideal de igualdade na lama, uma vez que jamais trabalharam após a Revolução (somente davam ordens aos outros animais).

Depois de desavenças internas, Bola-de-Neve, expansionista e visionário, perde o poder para outro porco, Napoleão, que inicia uma ditadura dentro da Granja. No seu mandato, profere uma das frases mais marcantes do livro: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros” (Orwell, 1962: 93) e afunda os ideais iniciais da Revolução, ao relacionar-se com humanos, ingerir álcool, residir na casa grande, usar roupas, etc.

Cercado por cães ferozes, o camarada Napoleão, chamado de “Nosso Líder”, perseguiu Bola-de-Neve e todos os inimigos do governo, matando uma série de animais. Ao passar dos anos, Napoleão e os outros porcos se tornaram cada vez mais humanos, chegando ao absurdo de caminharem sobre as duas patas traseiras. No fim da trama, a humanização dos porcos alcança seu ápice, quando Napoleão convida proprietários vizinhos para uma festa. O resto dos animais, praticamente escravizados, chegam perto da casa grande e não conseguem enxergar os porcos. Essa passagem está escrita no último parágrafo do livro e diz: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era porco, quem era homem”. (Orwell, 1962: 98)

Pode-se perceber claramente que esta incrível obra, lançada durante a ditadura stalinista, é uma alegoria à Revolução Russa e ao seu desdobramento. Vários personagens da trama remetem àquela época. Major, o porco velho, sábio e idealista, morre sem ver a Revolução vingar, podendo ser comparado a Lênin e Marx, que faleceram sem ver os frutos da Revolução. As intrigas entre Bola-de-Neve, o expansionista, e Napoleão, o ditador, faz-nos lembrar da rixa entre Trotski e Stálin, em que o primeiro acabou sendo perseguido e morto a mando da sanguinária ditadura stalinista. Aliás, a corja de cães que fazia a segurança de Napoleão poderia perfeitamente ser vista como uma espécie de KGB, ou no caso, “CãoGB”, que afora a perseguição de Bola-de-Neve ainda o fez a vários animais contrários ao governo, como aconteceu com Stálin.

Outro porco, Garganta, o porta-voz de Napoleão, transmitia a propaganda do governo sempre por meio da retórica e da eloqüência, sustentáculo da manutenção de qualquer ditadura. Os outros animais, os únicos que de fato trabalhavam e que fizeram a Granja crescer, podem ser classificados como o proletariado russo. Analisando mais a fundo algumas passagens do livro, ainda é possível dizer que a obsessão pelo trabalho disciplinado e dirigido pelos porcos (que controlam o Estado) na expansão da Granja e na construção do Moinho relaciona-se com os onipresentes Planos Qüinqüenais de Stálin. E por fim, senhor Jones, explorador e alcoólatra, poderia se identificar com o czar Nicolau II, que ao que dizem as más línguas, tinha aversão ao povo e era um beberrão.

Embora o livro tenha sido escrito em alusão à Revolução Russa, ele pode acertadamente se relacionar com quaisquer outras Revoluções, ou no caso, pseudo-revoluções. Atualmente, a obra de Orwell se encaixa muito bem ao governo do companheiro Lula, afinal ele fora eleito com ampla aceitação nacional, prometendo o céu para a população e querendo ou não, suportado por um partido com uma histórica orientação esquerdista. Há uma clara sintonia nos discursos de Major e Bola-de-Neve com o de Lula no que diz respeito à alimentação. Os porcos subiram ao poder prometendo comida abundante, e Lula, três refeições diárias e o Fome Zero.

Quanto ao totalitarismo de Napoleão, é óbvio que não se pode compará-lo ao Lula, mas é evidente que após quase quatro anos de governo, Lula, “Nosso Guia”, fez pouquíssimo do que prometeu e está por terminar um dos mandatos mais incoerentes da História republicana. Nem mesmo as iniciativas assistencialistas do governo conseguem tapar o fiasco da administração e a incomparável incoerência dos velhos ideais, que contrastam com o “Mensalão”, continuidade na política econômica conservadora, lucros históricos dos bancos...

Assim como Napoleão, PT e Lula, logo que subiram ao poder, trataram de fritar seus opositores, como aconteceu com Bola-de-Neve, Heloísa Helena, Babá, Luciana Genro, e até o próprio Suplicy. Sem contar a semelhança na política de propaganda, onde os petistas gastaram horrores do dinheiro do contribuinte para massificar slogans fajutos, como “sou brasileiro e não desisto nunca”. Lula não tem Garganta, que era capaz de convencer que o preto era branco, mas possui Duda Mendonça, escalado para fazer a população engolir goela abaixo a conversa de que “Nosso Guia” não sabia do “Mensalão” e afins.

É quase certo que Lula não tenha lido a Revolução dos Bichos e muito menos saiba quem é George Orwell, pois ele mesmo disse que não leu sequer um livro na vida, o que mostra o seu desdém com a Literatura e a Educação. Mas para aqueles que leram e compreenderam a mensagem do texto, fica mais fácil visualizar os abusos de poder, a propaganda enganosa, e a cada vez maior desigualdade social. Se a leitura de “A Revolução dos Bichos” fosse obrigatória nas escolas, no mínimo do Ensino Médio, dificilmente o país passaria por um estelionato eleitoral, como ocorreu em 2002.


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