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Sapatos em guerra
Antonio Brás Constante - Publicado em 02.12.2006
Se existe uma peça de indumentária que mereceria se revoltar contra o homem, seriam os sapatos. Quando digo “sapatos” me refiro a todo e qualquer calçado, incluindo desde chinelos e sapatinhos de neném, até botas, sandálias e tênis.
Os calçados ficam literalmente por baixo em nossa sociedade, são os chamados eternos sofredores. Passam a vida pisando em coisas desagradáveis, sendo largados
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sujos em cantos da casa. Vivem pisoteados, carregando todo peso das pessoas nas costas.
Nos jogos são sempre os que mais sofrem e nunca são lembrados. As camisetas que não fazem nada durante a partida são beijadas e trocadas entre os jogadores ao final do jogo. Já os pobres sapatos, que passaram o tempo todo dando de cara na bola, ficam com o chulé do time sem a merecida importância que deveriam ter. Afinal, se um jogador jogasse pelado calçando apenas suas chuteiras, ele conseguiria jogar sem maiores problemas (desde que evitasse o jogo de corpo), mas se usasse todo fardamento e jogasse descalço, não conseguiria correr direito e se firmar em campo.
Os sapatos são considerados muitas vezes como potros selvagens, pois em muitos casos necessitam ser “amaciados” antes de se poder usá-los com o devido conforto. Nestes casos, o não “amaciamento” pode causar bolhas e calos nos pés.
Se um dia os calçados resolvessem se vingar e partir para o confronto, levariam vantagem, pois eles mais do que ninguém sabem enfrentar desafios, vieram de baixo e dominam a arte de chutar as dificuldades. Possivelmente começariam lançando um ataque químico utilizando nossas próprias meias, para então nos dar uma bela rasteira, mostrando que se quiserem “fincar o pé” eles conseguem.
Caso fossem vitoriosos, reescreveriam a história da moda, tomando o lugar dos chapéus na cabeça das pessoas, passando a ver o mundo de cima.
Neste momento teríamos a certeza que o fim está próximo, pois quando os calçados alcançarem o topo, então será porque nosso mundo estará finalmente todo de cabeça para baixo.
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