| |
|
|
Sobre a arte do mal
Archidy Picado Filho - Publicado em 30.10.2006
Minha última discussão filosófica girou em torno do que se conhece por Jusnaturalismo. Segundo texto pescado na Internet, de José Ademir Campos Borges, promotor de justiça em Barretos (SP), “o Jusnaturalismo se abebera no idealismo, sua matriz filosófica, concebendo o Direito como se fosse um fenômeno de origem divina, regido por princípios preexistentes ao homem, dotado de imutabilidade absoluta, desvinculado do mundo real 1, produto, portanto, da força intangível e imaginadora de um ser supremo”.
Em seu livro Como vejo o mundo, o cientista Albert Einstein escreveu: “O espírito científico, fortemente armado por seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue das crenças das multidões ingênuas, que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo (...). Mas o sábio, bem convencido da lei da causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe sucinta problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar”.
Guardadas as muitas interpretações jus naturalistas (entre muitas de outras vertentes filosóficas) sobre a qualidade boa ou má, Humana ou inumana de nossa natureza, penso que os grupos de filósofos que defenderam o Jus naturalismo perceberam também a Vida como Einstein – embora talvez não tenham se explicado direito. Porque, assim como eles, poderemos inequivocamente nos observar inseparáveis partes da ordem suprema da Natureza, seres os quais a incontestável inteligência organizativa natural da Vida 2, em milênios e milênios de evoluções, finalmente Se desenvolveu enquanto organismos cujos cérebros foram capazes de gerar uma mente, ou conjunto de impulsos psíquicos (mesmo ainda um tanto limitados), capaz de se perceber, e ao resto da existência, a inventar novos mundos de “civilidade”, onde há colheres, Moral e, por causa dela, algo como o “Bem” e o “Mal”; uma Mente que nos dá sentidos, enfim, identidades, e conta-se sua própria História de conquistas à consciência de Si mesma através de gerações de nós 3, ao mesmo tempo em que nos impede de perceber as razões, o Sentido supremo para o qual tudo explodiu e continua a explodir.
Mas, para o pensador contemporâneo francês Jean Baudrillard em seu livro A ilusão vital 4 a Vida “não ‘significa’ nada, nem mesmo a vida humana; se ela é preciosa, não é como valor, mas como forma, uma forma que transcende todo valor individual ou coletivo. Hoje a vida é preservada na medida em que tem valor, isto é, valor de troca. Mas, se a vida é preciosa, é justamente porque ela não tem valor de troca – porque é impossível trocá-la por algum valor final”.
Em Seu longo processo de evolução, enquanto a Vida não realiza organismos dotados de um órgão psíquico a Lhe tornar ciente de tudo o que diz respeito a Si mesma, conquistou, conosco, capacidades de manipular Sua dimensão material à invenção de outros objetos-manifestações de Sua infinita criatividade, de Suas artes – que, como eu disse, em nós (e também conosco) se processam.
Com seus muitos valores demandados pelas necessidades de nossas relações materiais, as muitas formas de arte objetivadas, sejam elas belos poemas ou armas de fogo, na Verdade nunca são apresentações deliberadas de uma essência vital “benigna” ou “maligna” – embora determinados impulsos A façam considerar bons àqueles seres e coisas que manifestam Sua tendenciosa harmonia (ou o equilíbrio de Suas partes à construção de Seus todos).
Quem duvidar de que, a despeito do caos, a Vida tende a amorais harmonias vide complexas estruturas de micro-organismos, como os genes à formação de vegetais, animais, misteriosos cânceres, fractais ou como se sustentam mutuamente os corpos celestes em seus motos-contínuos pelo espaço infinito – bem como aqueles que com eles se chocam a destruí-los.
Em relação à possibilidade da existência de uma “maldade Humana” (se é que, a considerar equivocados conceitos vigentes, podemos considerar tal esdrúxula definição), no livro Gramáticas da criação 5 o pensador parisiense naturalizado norte-americano George Steiner escreveu: “O liberalismo do século XIX e o positivismo científico consideravam evidente em si mesma a expectativa de que a difusão da escolaridade, do conhecimento, da produção científica e tecnológica, do livre intercâmbio e do contato entre comunidades diversas resultaria numa melhoria concreta da civilidade, da tolerância política e dos mecanismos dos negócios públicos e privados. Cada um desses axiomas de bem fundada esperança provou-se falso. Não foi só a educação em si que se mostrou incapaz de fazer com que a sensibilidade e o conhecimento resistissem à irracionalidade assassina. Num nível muito mais perturbador, a evidência comprova que a própria intelectualidade refinada, o virtuosismo estético, a apreciação das artes e a eminência científica colaboraram ativamente com as determinações totalitárias ou, no melhor dos casos, permaneceram indiferentes ao sadismo que as circulava. Concertos fulgurantes, exibições em grandes museus, publicações de livros eruditos e consideráveis desenvolvimentos da pesquisa acadêmica, tanto no campo científico quanto humanista, floresceram próximos a campos de concentração. A engenhosidade tecnocrática ou se submeteu ou permaneceu neutra à convocação do inumano”.
Para infelizmente corroborar o ponto de vista de Steiner, o psicólogo-educador norte-americano Howard Gardner (descobridor das chamadas “inteligências múltiplas”) escreveu em seu livro O Verdadeiro, O Belo e O Bem – os princípios básicos para uma nova educação: “O Holocausto envolve os sentimentos mais extremos da existência humana: ódio, crueldade, perversidade, e o poder usado criminosamente, a par de alguns exemplos de coragem e decência. Compele-nos a considerar como uma nação pode chegar ao ponto em que o genocídio passou a ser uma política de Estado; e como determinados indivíduos puderam, por vezes com entusiástico fervor, tornar-se os veículos dessa política. Suscita indagações igualmente profundas sobre o que é civilização. As idéias de genocídio ganharam forma numa nação que era considerada, sob muitos aspectos, o pináculo da civilização; o plano foi minuciosamente estudado por indivíduos que possuíam doutorados de importantes universidades; e as realidades do genocídio foram levadas a efeito por indivíduos que, por uma razão ou outra, conseguiam manifestar seu interesse pela literatura, artes, música e religião. E em especial para aqueles que estiveram pessoalmente envolvidos nos eventos, o Holocausto sucinta as mais fundamentais questões de significado: como pode alguém encontrar razões para viver em face de tão horríveis ações?”.
Para que entendamos as razões de tamanho absurdo, penso que, filosoficamente, somente considerando a questão da inexistência ontológica de maniqueísmos nas dimensões mais profundas daquilo que Einstein chamou de “religiosidade cósmica” (atentando, sempre, para seus reflexos em nós) se nos explicaria atitudes tão inacreditáveis àqueles que, em meio a feras, se consideram inequivocamente seres “Humanos”.
No mesmo livro aqui citado, Jean Baudrillard também discorre sobre o que é ser Humano: “Os limites do humano e do inumano estão em processo de serem eliminados” – escreveu ele – “mas o humano não cede lugar ao super-humano, como Nietzsche sonhou, com sua transvaloração dos valores. Antes, ele cedo lugar ao subumano, a algo não acima, mas abaixo do humano, a uma rasura daquelas marcas simbólicas que fazem a espécie”.
A despeito da consideração de algum negativo jus naturalista sobre a inequívoca existência de uma “essência Humana má”, a possibilidade real de que a Arte possa ser instrumento de realização do Mal também só se explicaria pela razão de que, enquanto recurso de transformações, ela é amoral; ou seja, está para além de nossas vulgares noções de “Bem” e “Mal”. E que deve ser assim que também se consideram alguns artistas, tanto quanto muitos de seus admiradores, quando impulsionados por instintos e ideologias capazes de objetivar as formas e valores do Céu, mas também de um inferno para onde, a despeito de todos os esforços à construção de uma civilização Humana, parecemos estar condenados a terminar por chegar.
Notas:
1 - O senhor José Borges, como a maioria, só considera o “mundo real” aquele construído pelos esforços da sensibilidade, da memória e da imaginação pré-Humana, desconsiderando a condição ontológica da Realidade.
2 - Isenta de moralidade, somente na condição de “Deus”, porta-voz da Vida imaginado e verbalizado em livros sagrados por homens de boas vontades, se considerou “boa” ou “má” a Criação.
3 - “Nós” como expressão da primeira pessoa do plural e para definir a qualidade das ataduras que promove às Suas manifestações.
4 - Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro - 2001.
5 - Editora Globo, São Paulo – SP, 2003 (página 12, 2º parágrafo).
|
|
|