operando sobre leis racionais e imutáveis. Por que esta idéia foi escolhida ao invés da idéia de Heráclito, de que o universo é dinâmico e mutável? A idéia de Parmênides era muito mais propícia para pessoas que, como Platão, acreditavam que a geometria era o conhecimento mais puro e essencial, e que o conhecimento absoluto sobre a realidade era possível, mesmo que para isso seja preciso transformar o corpo num mero instrumento e por fim abandonar o enganador mundo dos sentidos. Porque dar esse status à geometria? Geometria significa medição da terra. Fica claro que medir a terra é essencial para a agricultura expansiva e para a expansão de territórios, atividades que mais interessavam aos povos civilizados, assim como as leis escritas e o comércio. A economia e a política, inclusive durante a guerra, caminham sempre juntas com a ciência e a matemática. A idéia de Heráclito era a última remanescente da idéia que sempre esteve entre os povos mais antigos. De fato, a idéia da natureza dinâmica e complexa vem sendo resgatada por sua capacidade de lidar com muitos fenômenos que ficaram de fora da ciência tradicional. As relações entre as espécies no ecossistema dificilmente seriam compreendidas sem esses conceitos, e isto levou a uma compreensão um pouco mais ecológica da realidade.
É importante ressaltar que nossa ciência, a ciência da medição, jamais foi neutra ao observar o mundo. Francis Bacon não estava interessado em compreender como o mundo funciona, mas sim em usar a natureza como ferramenta para os propósitos da humanidade. Todas as leis que nós estabelecemos a respeito do universo são contingentes, e não necessárias. A influência das religiões monoteístas em nossa cultura é um dos fatores adicionais para a permanência da visão mecanicista de mundo. Um único deus controlando o mundo significa um único conjunto de leis válidas. A “perfeição” do funcionamento da natureza serve, ao mesmo tempo, de explicação e de implicação da existência de um deus artífice. Também significa que o mundo não estabelece suas próprias leis, mas elas são preestabelecidas pela vontade de uma entidade independente dele, que por prezar os seres humanos acima do mundo, dá ao homem o papel de dominador e governante do mundo.
Um outro evento importante foi o conceito da máquina autônoma e a invenção do relógio. O controle do tempo foi essencial para a industrialização. Descartes, Galileu e Leibniz eram fascinados por relógios, e não é de se desprezar a influência dos conceitos mecânicos em suas teorias. É difícil dizer se a religião e o desenvolvimento técnico serviram de base para o totalitarismo epistemológico, ou o inverso. O fato é que muitos cientistas eram ligados à igreja, e não passa de superficialidade que ciência e religião sejam opostas, pois funcionam sob a mesma moldura racional. Mas por que este tipo de “verdade” que nossa ciência é capaz de produzir é considerada tão importante para a humanidade se foi desenvolvida apenas tão recentemente na história humana?
Não é uma questão de acusar a ciência, a religião, o Estado ou o capital por seus abusos, mas por seus fundamentos ideológicos. Não é preciso entender matematicamente um ser ou um sistema para poder conviver com ele. As relações de simbiose na natureza não são relações calculadas de controle ou de poder. Nosso tipo de conhecimento é especializado, pois ele é desde o começo um método de controle, e apenas secundariamente de compreensão, e quase nunca de adaptação recíproca. O conhecimento matemático é essencialmente quantitativo e utilitarista. Não representa, como alguns gostam de pensar, um avanço na capacidade mental humana. A matemática não nos deixa mais inteligentes. É provável que o homem tenha as mesmas habilidades mentais a pelo menos 300 mil anos. Não que o número não seja uma idéia importante, é uma grande idéia, mas não é mais do que uma idéia. Esta idéia envolve, por exemplo, o desprezo pelo que as coisas têm de único, pois todas as coisas se tornam intercambiáveis. As medidas de valores universais partem dessa premissa. Para serem entendidas como máquinas compostas de peças com funções próprias as coisas devem ser dissecadas e em última instância replicadas. Isto significa que os elementos devem ser categorizados, analisados separadamente. Isso permite “roubar os segredos da natureza” para que então o homem possa se separar dela e para que alguns homens se separem dos outros, pois a própria sociedade passa a ser um objeto de estudo, sujeito ao controle. A ciência foi desenvolvida com um propósito que não se afasta do propósito da escravidão e do imperialismo. O que garantiu o grande desenvolvimento científico dos últimos tempos não foi o conhecimento que adquirimos sobre o mundo, mas sim o uso feito pelas pessoas no poder. Assim como a expansão da igreja na idade média não foi mérito da religião em si, mas do poder político envolvido nisso.
A relatividade, a física atômica e a física quântica, apesar de mudarem alguns dos conceitos da ciência, apenas transformam o mundo de máquina em constructo matemático, dando um passo além, porém ainda na mesma direção da ciência clássica. A visão cibernética da realidade continua dando validade para os interesses econômicos e políticos dos dominantes. Ao invés de ver o mundo como um grande relógio e deus como um artífice, podemos ver o mundo como uma simulação de computador e deus como um programador. Isso não muda os pressupostos básicos do papel do homem como governante do mundo. Muitos dos críticos do modelo cartesiano acabam adotando um modelo que não corrige esses preconceitos fundamentais, apenas os amenizam na medida em que a própria realidade exige isso de nós. Mostrar os limites da matemática, como Heisenberg fez com o Princípio da incerteza, ainda não significa deixar esses pressupostos de lado. O acúmulo jamais seria possível sem uma motivação e um método. A motivação é a idéia de que o homem é dono do planeta e deve tomar conta dele. O método é a ciência quantitativa, da qual a física quântica não é exceção, pois ainda lida com lógica linear. Todos os povos que criaram grandes desenvolvimentos técnicos e matemáticos estavam compromissados com a expansão de territórios e a concentração de poder nas mãos de poucos. O acúmulo, a expansão e a desigualdade estão diretamente ligados quantificação do mundo, e por isso a questão se torna muito mais complexa do que aparenta.
Uma dica para a tendenciosidade da ciência é dada ao observarmos que apenas alguns anos após o início da “era da informação” nós “descobrimos” que a base da vida é a informação contida no DNA de cada ser vivo. A digitalização da vida é o próximo passo lógico do processo cartesiano de artificializar a natureza, aproximando-a cada vez mais da matemática. Existem dogmas que mantém essa visão de mundo, entre elas três contingências transformadas em necessidades: 1 – A quantificação e a redução crescente de todos os elementos da vida às relações matemáticas ou lógicas. 2 – O trabalho e a produção cumulativa, com especialização também crescente, além da expansão do controle sobre a terra. 3 – A repressão dos instintos, dos sentimentos não quantificáveis, das diferenças e da unicidade de cada um. Desde Platão, nossas teorias precisam de um fundamento “científico” para parecerem convincentes. Na história de nossos pensadores sempre houve um grande medo do erro, da contradição ou do caos. E assim como Platão expulsa os artistas de sua República ideal, nós banimos a criatividade caótica da vida social e política, deixando-as sem expressão no mundo real, apenas como forma de alívio pessoal e temporário da fria racionalidade civilizada.
A influência da ciência quantitativa ultrapassa as ciências exatas, atingindo todo o pensamento humano. A concepção política de Hobbes, por exemplo, está fundamentada numa espécie de mecanicismo, onde os homens se organizam apenas pela força do medo, assim como a concepção de Locke está fundamentada na idéia de que existem leis universais regendo o mercado, as vontades e o individualismo humano. LeMetrie e o determinismo, Kant e os conceitos à priori, e muitos outros exemplos estão disponíveis para confirmar a persistência desta visão de mundo no pensamento civilizado. Ao invés de um enriquecimento lingüístico, o que temos é uma linguagem cada vez mais mecânica. Os filósofos da linguagem, como Russell e Frege, acreditavam que a redução da linguagem à lógica significava um grande avanço para a filosofia, considerando as linguagens naturais como sem sentido ou primitivas. A biotecnologia e a nanotecnologia são duas formas de afirmar a mesma redução da vida e da matéria aos conceitos da matemática, pois buscam a replicação artificial da vida. A manipulação dos genes e a manipulação dos átomos são apenas extensões dos objetivos mais primitivos da nossa visão religiosa e científica de mundo: o controle de todos os aspectos da natureza para proveito do homem.
Não precisamos criar um novo modelo para entender e subjugar o mundo de maneira mais sutil, ou mais “humana”, mas sim rejeitar que o mundo tenha sido criado para que o homem tome controle dele. E se não precisamos controlá-lo para conviver bem, logo perceberemos que muito do que consideramos um grande avanço científico não passou de estratégias para justificar e manter a sociedade com os mesmos pressupostos. Faz parte dessa visão de mundo que as coisas só possam ser explicadas por modelos mentais, o que nos faz pensar que tudo que precisamos é de um modelo mais completo. Isto não pode ser verdade. Não precisamos de modelo nenhum, já que não vivemos num mundo completamente sem leis e adverso à humanidade, nem tendemos naturalmente à autodestruição. Vivemos num mundo que parece caótico e irregular, mas que é dinamicamente auto-organizado. Todos os seres deste mundo, inclusive os seres humanos, nasceram dessa auto-organização e por isso não podem estar em descontinuidade com ele. Não podem não ser também auto-organizáveis. As leis da natureza não precisam ser escritas, quantificadas e forçadas para funcionar, assim como ninguém precisa explicar ou aprender os sentimentos humanos mais profundos para ter tais sentimentos. Explicar significa tornar inteligível, mas a que tipo de inteligência? Apenas a inteligência lógico-matemática. Isso nos deixa com uma visão parcial do mundo, vivendo incompletamente e nos tornando, por fim, seres incompletos.
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