telecomunicações1. Shumpeter (1984) denominou este processo de “destruição criativa”, quando um paradigma tecnológico é rompido (destruição), dando lugar a um novo (criativa), nesse caso o da microeletrônica. É o momento em que se estabelece um novo padrão de desenvolvimento tecnológico.
No mundo do trabalho, evolução tecnológica significa redução mão-de-obra na medida em que máquinas passam a desempenhar funções antes operadas por homens2. De acordo com Santos (2004b) “O período atual diferencia-se nitidamente dos precedentes por sua capacidade de revolucionarização” (Santos, 2004b, p. 35). O aprimoramento tecnológico no setor secundário, e cada vez mais no setor primário, reduz a necessidade de trabalhadores em suas unidades de produção. Ainda nos valendo de Santos (2004b),
“Essas modernizações atuais nos países do Terceiro Mundo só criam um número limitado de empregos, visto que as indústrias instaladas são de alto coeficiente de capital. Por outro lado, uma boa parte dos empregos indiretos são criados nos países centrais ou para os naturais desses países. A indústria, portanto, responde cada vez menos às necessidades de criação de empregos. Quanto à agricultura ela também vê diminuir seus efetivos, ou porque é atrasada ou porque está se modernizando. Essa é uma das explicações do êxodo rural e da urbanização terciária; nas cidades dos países subdesenvolvidos, o mercado de trabalho deteriora-se e uma porcentagem elevada de pessoas não tem atividades nem rendas permanentes” (Santos, 2004b, p. 37).
De acordo com a corrente neoliberal, o que vem ocorrendo não é a eliminação de postos de trabalhos por conta do aprimoramento tecnológico, mas sim, uma realocação destes postos, em que se necessitaria que houvesse uma elevação do nível escolar dos trabalhadores para que pudessem atender às demandas das novas tecnologias informáticas (Singer, 1999)3. A respeito desta avaliação os dizeres de Fiori (2002) são elucidadores:
“Hoje, um terço da força de trabalho – algo em torno de um bilhão de pessoas – está sem emprego, mas essas pessoas não vivem em “cabanas eletrônicas”, não estão no “setor de serviços” nem se dedicam, aparentemente, ao ócio criativo. Pelo contrário, o que as estatísticas mostram é que esses milhares de desempregados seguem ligados aos mesmos “paradigmas de trabalho, só que agora como trabalhadores precarizados, terceirizados ou subcontratados, com direitos cada vez mais limitados e cada vez mais alheios ao mundo das organizações sindicais” (Fiori, 2002, p. 15).
Como se fosse que possível que o velho operador de maquinário de uma grande indústria pudesse, de uma hora pra outra, se sentar à frente de um computador e manusear softwares, coisa que muitas vezes ele nem sabe da existência.
Portanto, a despeito da queda do número de trabalhadores formalmente empregados, não tem ocorrido um movimento rumo ao que a ideologia dominante apregoa, de emergência do setor terciário frente ao secundário, como se estivéssemos chegando a uma nova etapa evolutiva. De acordo com essa visão “otimista”, da mesma forma que a consolidação do capitalismo como sistema hegemônico mundial fez com que o setor secundário suplantasse o primário, estaríamos agora numa fase pós-industrial, com a emergência do setor de comércio e serviços em relação ao industrial. Como bem atesta Fiori (2002),
“... quando os teóricos do “pós-industrialismo” decretam o “fim do trabalho”, estão olhando apenas para os números que indicam a redução do peso relativo do emprego industrial na estrutura ocupacional” (Fiori, 2002, p. 15).
Portanto, a realocação dessa mão-de-obra não que dizer que ela esteja migrando para “cabanas eletrônicas”. O que a redução do número de carteiras assinadas do emprego industrial provoca, na verdade, é a precarização da vida deste trabalhador, que deixa de integrar o mercado formal para integrar o informal, que deixa de planejar sua vida para gerir, que passa a engrossar o que Santos (2004b) denominou de “circuito inferior da economia”, marcado pela informalidade, economia de varejo, pequenas margens de lucro, improviso (Santos, 2004b). Não é sem motivo que
“Os trabalhadores do mercado informal, ou seja, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas reconhecidos, que representavam cerca de 35% da força de trabalho, em curto espaço de tempo ultrapassam a marca dos 50%. O índice de desemprego chega a 20%, levando um contingente cada vez maior de trabalhadores para o mercado informal” (Guimarães, 2003, p. 13).
Com estas bases, se estamos vivendo um período que se queira denominar pós-industrial, isso quer dizer menos evolução na qualidade de vida do antigo trabalhador industrial e mais precarização de sua vida. A figura do trabalhador sindicalizado das grandes indústrias marcou a sociedade industrial. Se for verdade que estamos vivendo a sua superação, não é a figura do sujeito manuseando complexos programas de computadores que marca essa nova fase, é sim a figura do ambulante. Concordando com Lisboa (2006),
“Hoje não cabe mais se procurar "incluir a todos" na economia de mercado pois o excedente de mão de obra no grande circuito econômico moderno é cada vez mais estrutural, deixando de ser um "exército de reserva” (Lisboa, 2006).
É nesse contexto que alternativas devem ser buscadas.
Notas:
1 - Momento que Milton Santos, ao dar sentido geográfico ao processo chamou de “meio técnico-científico-informacional” (Santos, 2003; 2004a). “... hoje, quando nos referimos às manifestações geográficas decorrentes dos novos progressos, não é mais de meio técnico que se trata. Estamos diante da produção de algo novo, a que estamos chamando de meio técnico-científico-informacional” (Santos, 2004a, p. 238).
2 - “Na religião, o ser humano é dominado por criações de seu próprio cérebro; analogamente, na produção capitalista, ele é subjugado pelos produtos de suas próprias mãos” (Marx, 2003, p. 724).
3 - Como se fosse simples e fácil trabalhadores que se acostumaram a vida inteira a um tipo de trabalho se adaptarem a um novo sistema altamente tecnológico, ou como se essas novas demandas de postos trabalhos fossem suficiente para suprir a oferta de mão-de-obra. Como sempre, a um descolamento da teoria clássica, neoclássica, neoliberal com a realidade. O mundo perfeito é o real, o que destoa dessa perfeição é encarado como anomalia e conjuntural, e não como elemento estrutural do sistema. Sobre esse aspecto, Keynes já dizia: “Argumentarei que os postulados da teoria clássica se aplicam apenas a um caso especial e não ao caso geral, pois a situação que ela supõe acha-se no limite das possibilidades de equilíbrio. Ademais, as características desse caso especial não são as da sociedade econômica em que realmente vivemos, de modo que os ensinamentos daquela teoria seriam ilusórios e desastrosos se tentássemos aplicar as suas conclusões aos fatos da experiência” (Keynes, 1982, p. 23).
Ensaio - Esgotamento do paradigma da carteira de trabalho e a busca por novos horizontes - A via do cooperativismo popular?
• Parte 1 - A falência do mercado formal de trabalho
• Parte 2 - O cooperativismo popular como alternativa
• Parte 3 - Definindo cooperativismo popular
• Parte 4 - As pedras no caminho
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