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A via do cooperativismo popular
Parte 2 - O cooperativismo popular como alternativa

Ramana Jacques - Publicado em 05.01.2007

O cooperativismo surge no século XIX, na esteira da emergência da Revolução Industrial que então se desencadeava na Inglaterra, e instituía o trabalho assalariado e a relação patrão (detentor da propriedade) e empregado (detentor da força de trabalho). Um grupo
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de vinte e oito tecelões (vinte e sete homens e uma mulher), contraposto à crescente exploração a que os trabalhadores (homens, mulheres e crianças) eram submetidos, se organiza no bairro de Rochdale, em Manchester na Inglaterra e fundam a primeira cooperativa, que recebeu o nome de “Sociedade dos Probos Pioneiros de Rocdale”. Neste grupo, o trabalhador era a principal finalidade, e não o lucro. A fundação desta cooperativa demarcou os princípios básicos que viria a se consolidar como os princípios básicos do cooperativismo.

Desde então, a prática cooperativista, de viés popular, se difundiu pela Europa e em outros continentes, no campo e na cidade. Entretanto, a Revolução Russa, com o seu centralismo estatal, e as conquistas social-democratas do pós-segunda guerra mundial, nos chamados “trinta anos gloriosos” (1945-74), que conseguiram reduzir o desemprego nos países centrais a níveis baixíssimos, com as políticas keynesianas de bem estar social, fizeram com que a prática cooperativista caísse no ostracismo (Singer, 1999).

As políticas neoliberais que se seguiram, e o retorno do desemprego em massa, fizeram com que o cooperativismo fosse revisitado como alternativa face ao desemprego estrutural que passou a caracterizar a sociedade contemporânea, na América Latina e na Europa (Singer, 1999).

A precarização das vidas das pessoas tem como conseqüência direta a falta de perspectivas e de horizontes que elas passam ter sobre suas próprias vidas4. O dia-a-dia o maltrata, o subjuga, o humilha, o massacra. A certeza que o indivíduo tem de que o dia seguinte será igual ou pior do que o vigente o motiva a buscar novos caminhos, novos horizontes5. Neste momento, o cooperativismo popular vem se apresentando como uma dessas novas possibilidades, no âmbito da economia solidária, definida por Singer (1999) como,

“... as formas de organizar produção e/ou distribuição que aplicam como princípio a democracia na tomada de decisões e a equanimidade (justiça) na distribuição dos resultados. A economia solidária faz com que numerosos desempregados ou pessoas que carecem de trabalho e renda adequados possam juntar seus esforços para se reintegrar coletivamente à produção social, em vez de tentar isoladamente – como microprodutores – ganhar a vida”(Singer, 1999, p. 62).

Aprofundando ainda mais essa definição, Leboutte, acrescenta o “popular” à economia solidária, esboçando o seguinte conceito de “economia popular solidária”6:

“A economia está no centro das atividades e relações humanas, mesmo que envolvam capitais financeiros que sejam não mercantis. É a base das atividades de transformação da natureza em produtos e serviços e destes em benefício para a sociedade. O capital tem aí uma função interna, mas não é o centro, não é o objetivo final, muito menos propriedade de um ou outra pessoa, mas do empreendimento, do seu conjunto.
O popular, para definir um conteúdo de classe, não porque é de “pobre”, de “miserável”, de “coitadinho”, de excluído pela sociedade capitalista. Popular porque é do povo, é das pessoas desprovidas dos meios de produção, é dos trabalhadores e trabalhadoras, que compõem uma classe social bem delimitada pelo sistema capitalista. Quaisquer elaborações que não levem em conta a sociedade de classes em que vivemos não podem jamais reivindicar-se transformadora. O solidário porque são empreendimentos integrados em um sistema coletivo, de valores humanos, verdadeiramente democrático. Não a solidariedade da esmola, mas do trabalho conjunto e da repartição dos resultados, do servir à sociedade, sem exploração, sem acumulação” (Leboutte, 2003, p. 31)


É dentro, pois, do cenário sócio-econômico exposto anteriormente, e dos princípios populares e solidários apresentados agora, que o cooperativismo popular emerge como um instrumento para fazer frente à precarização e falta de perspectivas de vida dos cidadãos, baseados nos princípios econômico-popular-solidário... Tarefa das mais difíceis, sem dúvidas.

Notas:
4 - “A globalização está concentrando a riqueza e a renda pessoal em todo o mundo, mesmo nos países desenvolvidos. Além disso, está criando uma massa crescente de “excluídos”, sem nenhum tipo de perspectiva ou horizonte de melhoria de suas vidas” (Fiori, 2002, p. 27).
5 - Os caminhos possíveis de serem percorridos são múltiplos, inclusive o da criminalidade.
6 - Esta conceituação foi elaborada no bojo do Programa de Economia Popular Solidária, desenvolvido no Rio Grande do Sul, pelo governo Olívio Dutra.

Ensaio - Esgotamento do paradigma da carteira de trabalho e a busca por novos horizontes - A via do cooperativismo popular?
Parte 1 - A falência do mercado formal de trabalho
• Parte 2 - O cooperativismo popular como alternativa
Parte 3 - Definindo cooperativismo popular
Parte 4 - As pedras no caminho

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