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A via do cooperativismo popular
Parte 4 - As pedras no caminho

Ramana Jacques - Publicado em 06.01.2007

É fácil observar que os princípios cooperativistas vão de encontro ao sistema civilizatório que vige, o capitalismo. Se o cooperativismo, no âmbito da economia popular solidária, prega o coletivismo, o bem-estar do trabalhador em detrimento do lucro, a cooperação
  Pedras no caminho - Carteira de trabalho
 


 

intra e interempreendimentos solidários, no capitalismo, sobretudo em tempos neoliberais, o que predomina é o individualismo, a busca incessante pela reprodução ampliada do capital em detrimento do bem-estar do trabalhador, a competição desenfreada inter e intraempresas capitalistas. Entretanto, a transmutação de um empregado em um cooperativado é tarefa das mais difíceis.

Weber (1999) nos mostra que a idéia do trabalhador livre contraposta à servidão que caracterizava os tempos feudais foi vital para potencializar a migração dos feudos rumo às cidades, sinônimo de liberdade e oportunidade (Weber, 1999). De outra maneira, porém não conflitante, para Marx e Engels (2002) a classe revolucionária apresenta suas idéias e se apresenta não de maneira de classista, mas sim como sendo de toda a sociedade, a fim de conquistar legitimidade em relação a ela (Marx e Engels, 2002). Pois bem, seja de maneira espontânea, seja de maneira maniqueísta, o fato é que os valores burgueses foram legitimados pela sociedade, e o capitalismo vige hoje como sistema hegemônico mundial, na matéria e na consciência. Ainda nos valendo de Marx e Engels,

“Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes; em outras palavras, a classe que é o poder material dominante numa determinada sociedade é também o poder espiritual dominante” (Marx e Engels, 2002, p. 48).

Aceitando estes dizeres, temos o primeiro obstáculo para que o cooperativismo seja buscado pela sociedade. O capitalismo se constituiu e se solidificou com “patrão” e “empregado” sendo elementos-chave de seu funcionamento enquanto sistema. Quando uma relação social se arraiga de tal forma profunda no imaginário popular, ela deixa de parecer ter um caráter socialmente produzido e ganha cores naturais. Assim, neste caso específico, é como se fosse natural a existência de um patrão e de seus empregados, como se essa relação não tivesse sido socialmente produzida. É de tal forma arraigada que o empregado, enquanto está nesta posição, pensa e age como empregado, porém, no momento em lhe é dado poder, o seu modo de agir se adapta à nova realidade. Isto porque os papéis de patrão e empregado estão tão enraizados no inconsciente que não se contesta os seus significados, apenas se adapta às circunstâncias. Assim, a cooperativa, ao eliminar esses dois paradigmas do mundo do trabalho capitalista, e instituir um só, o do associado, não encontra respaldo no “pensar” do cooperativado, este se sente perdido, condicionado que está à relação verticalizada patrão-empregado. Corroborando, Singer (1999) atesta que

“... é comum que a consciência cooperativista se mantenha por algum tempo restrita a uma elite dos associados, enquanto a maioria ainda se julga empregada numa firma sem dúvida diferente, mas da qual não se percebem donos e responsáveis” (Singer, 1999, p. 62).

Aliado ao obstáculo de ordem subjetiva da consciência do indivíduo, a falta de conhecimento em relação a como se tocar um empreendimento é outra pedra no caminho do desenvolvimento de uma prática cooperativista. Fácil de entender: os sujeitos ingressantes no cooperativismo popular são pessoas geralmente de baixa escolaridade, muitas vezes analfabetas. Não é difícil perceber que a pouca ou nenhuma educação formal dificulta a assimilação de noções de administração cooperativa, legislação cooperativa, contabilidade cooperativa, formação de preços, etc, todas fundamentais para que o empreendimento seja exitoso. Sobre este aspecto, Singer (1999) mostra que apesar das inúmeras ações que buscam viabilizar a capacitação dos cooperativados, as lacunas da ignorância não são preenchidas,

“... tanto de cooperativismo como de gestão empresarial. Os cooperadores têm de aprender enquanto praticam, o que produz contradições e acarreta riscos de desvios” (Singer, 1999, p. 62).

Por fim, e também fácil de compreender, é a dificuldade financeira de se tocar um empreendimento cooperativista popular. O seu público-alvo é composto por indivíduos que possuem baixíssimos níveis de renda, com pouco (ou nenhum) capital inicial para se iniciar o empreendimento, em todos os seus aspectos. Esboçamos três elementos que inevitavelmente se colocam no caminho como impeditivos a que o empreendimento cooperativo tenha sucesso, três elementos que obscurecem a opção por novos rumos que não os estabelecidos e consolidados pela sociedade hierarquizada baseada no par “patrão-empregado”, três elementos condutores à inércia social... Mas é neste terceiro elemento, a baixa renda por conta da precarização de suas vidas, que a cobra pode morder o próprio rabo:

“... o mapeamento da Economia Solidária no Brasil indicou que a motivação da criação dos empreendimentos mais incidente foi alternativa ao desemprego” (Santiago, 2006).

Bibliografia
- Durkhein, Emile (1984). A divisão social do trabalho, vol. 1. Ed. Presença, Lisboa;
- Guimarães, Gonçalo (2003). Um novo momento no mundo do trabalho. In: Leboutte, Paulo. Economia popular solidária e políticas públicas – A experiência pioneira do Rio Grande do Sul. ITCP/COPPE, Rio de Janeiro;
- Huxley, Aldous (1937). O despertar do mundo novo. Ed. Hemus, São Paulo;
- Keynes, John Maynard (1982). A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Ed Atlas, São Paulo;
- ITCP/COPPE/UFRJ (2006). Apostila – Introdução ao Cooperativismo. ITCP/COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro;
- Lisboa, Antônio de Melo (2006). Moção sobre o conceito de desenvolvimento.
- Marx, Karl e Engels, Friedrich (2002). A ideologia alemã. Martins Fontes, São Paulo, 3ª ed;
- Santiago, Eduardo Girão (2006). Economia como estratégia e política de desenvolvimento. I Conferência Estadual de Economia Solidária. Fortaleza (CE);
- Santos, Milton e Silveira, Maria Laura (2003). O Brasil – Território e sociedade no início do século XXI. Ed Record, São Paulo, 5ª ed;
- Santos, Milton (2004a). A natureza do espaço – Técnica e tempo. Razão e emoção. Edusp, São Paulo, 4ª ed;
- Santos, Milton (2004b). O espaço dividido. Edusp, São Paulo, 2ª ed;
- Schumpeter, J (1984). Capitalismo, socialismo e democracia.Zahar Editores, Rio de Janeiro;
- Singer, Paul (1999). Alternativas da gestão social diante da crise do trabalho. In: Rico, Elizabeth de Melo e Raichelis, Raquel (orgs.). Gestão social – uma questão em debate. Educ, São Paulo;
- Weber, Max (1999). Economia e sociedade. vol.1. Editora UNB, Brasília.

Ensaio - Esgotamento do paradigma da carteira de trabalho e a busca por novos horizontes - A via do cooperativismo popular?
Parte 1 - A falência do mercado formal de trabalho
Parte 2 - O cooperativismo popular como alternativa
Parte 3 - Definindo cooperativismo popular
• Parte 4 - As pedras no caminho

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