Minissérie Amazônia - De Galvez a Chico Mendes: o discurso branco na tela da Globo - Minissérie da Rede Globo: Amazônia - História do Acre < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Eduardo de Araújo Carneiro - Publicado em 11.01.2007




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Exijo a possibilidade de viver plenamente a contradição da minha época, que pode fazer de um sarcasmo a condição da verdade. (Roland Barthes)

A minissérie Amazônia: de Galvez a Chico Mendes pretende contar os cem primeiros anos da história do Acre. A imagem inaugural do primeiro capítulo foi a chegada dos nordestinos. Há uma pergunta que não quer calar: cadê os mais de 150 mil índios, divididos em quase 50 povos, que moravam há mais de 10 mil anos no território que o branco passou a chamar de Acre?

O Acre é uma invenção do branco. Um branco do gênero masculino, de classe econômica abastada e de nacionalidade brasileira. A história que estamos vendo na telinha turva da Globo é uma representação midiatizada de um discurso marcado por efeitos de poder. Um discurso branco para entreter o próprio branco.

A presença milenar dos indígenas nas terras de Galvez se desmancha no ar. Quem fundou o Acre para o reino da civilização foram os heróis brancos, o que ficou para trás é somente barbárie e pré-história. Índio não tem vez. Índio não entra em cena. Quando entra é para acentuar a bravura dos brancos na saga da conquista e para fazer 150 milhões de telespectadores brancos se divertirem com o que chamam de exótico.

A minissérie está atravessada por uma política de produção do saber. Ela materializa um discurso marcadamente ideológico e o faz funcionar como evidência. É a ordem do discurso da qual Foucault tanto falava. Os discursos são governados por formações discursivas, que regram o aparecimento de certos enunciados e determinam o que pode e deve ser dito num dado momento e num dado lugar.

A ordem do discurso limita a visibilidade, fixa um sentido desejado e, neste caso, dirige o olhar do telespectador. O objetivo da minissérie não é problematizar a história do Acre; pelo contrário, é regrar o olhar de quem a enxerga. Ela põe em funcionamento mecanismos de organização do real, por meio dos quais, somos interpelados a crer que a história é realmente contínua e teleológica.

Mas, Nietzsche e Foucault nos afirmam que a história é descontínua. É pulverizada por rupturas. A regularidade histórica é um efeito de sentido criado pela ideologia, que esconde a emergência da singularidade dos acontecimentos. A unidade histórica está ligada a sistemas de poder - a uma “ordem do discurso” que fixa um sentido desejado.

A milenar presença indígena nas terras de Galvez é sacrificada para que se construa um momento inaugural de origem branca. Esse fenômeno é chamado pela filósofa Marilena Chauí de mito fundador. Jacques Derrida diz que esse discurso nos remete “... a uma origem em que nada começou, à gênese de um ego que não existe”.

Amazônia: de Galvez a Chico Mendes aparece como a narração de um eu acreano. Como se o acreano tivesse marcas de nascença ou uma identidade fixa espelhada nos heróis Galvez, Plácido de Castro e Chico Mendes. O acreano - assim como o brasileiro - não tem apenas um ego, mas muitos, um para cada situação. O eu que exterminava os índios nas correrias em prol da formação de seringais não é o mesmo que se uniu aos remanescentes indígenas em defesa da floresta nos anos 80.

Queremos agitar o que nos mostram como imóvel. A identidade é híbrida, o perfil é movente, a origem é vacuolar. Um mosaico de sentidos, e não um sentido apenas! A mesma retórica que significa uma identidade para o acreano é a mesma que desloca o índio para a insignificância.

Os índios são defensores da floresta há milênios, embora não recebam prêmios na ONU, nem monumentos no centro da capital acreana, muito menos papel de destaque numa minissérie sobre a Amazônia. Galvez, Plácido de Castro e Chico Mendes - o branco sente a necessidade de criar heróis para amenizar-lhe a consciência acusadora e para projetarem-se politicamente sobre outros brancos. Índio nunca vira mocinho em história branca.

Todo discurso possui brechas. Nesse artigo, nos colocamos em uma das fissuras desse discurso midiático sobre a história do Acre – a interdição do índio. É nas gretas que o sentido se mostra tenso. É no entre-lugar que se ouve as vozes silenciadas, que se vê as múltiplas resistências e que se pode reivindicar o sarcasmo como a condição da verdade!

Eduardo de Araújo Carneiro é licenciado em História, concludente do curso de Economia e acadêmico do Mestrado em Letras pela UFAC e edita o blog História do Acre

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Quem foi Gálvez da minissérie Amazônia?
Erroneamente apontado como boliviano, Luis Gálvez Rodríguez de Arias nasceu em São Fernando, na região da Andaluzia (Espanha) numa tradicional família. Gálvez era jornalista e diplomata. Gálvez estudou ciências jurídicas, tornou-se diplomata na Europa. Seu vasto conhecimento não impediu seu espírito aventureiro de procurar o "Eldorado" na Amazônia. Tornou-se jornalista em Manaus no jornal Comércio do Amazonas, abriu um bordel com uma antiga amante (Lola). Decide partir para a conquista do Acre ao traduzir um documento da Bolívia. Proclamou a República do Acre em 1899, o qual governou entre 14 de julho de 1899 e 1º de janeiro de 1900 e 30 de janeiro e 15 de março de 1900. Gálvez morreu em Madri em 1935.

Quem foi Chico Mendes?
Francisco Alves Mendes Filho nasceu em Xapuri, Acre, em 15 de dezembro de 1944. Chico Mendes, como era mais conhecido, era seringueiro. Fundou um sindicato de seringueiros para preservar a profissão da extração madeireira indiscriminada e o desmatamento. Atuou na fundação do Conselho Nacional dos Seringueiros e ajudou a formular a proposta das Reservas Extrativistas para os seringueiros. Em 1987 Chico Mendes foi reconhecido internacionalmente com os prêmios "Global 500" da ONU e a "Medalha do meio ambiente" da Better World Society. Foi assassinado em frente de sua casa em 22 de dezembro de 1988, aos 44 anos. A justiça condenou os fazendeiros Darly e Darcy Alves da Silva pela morte de Chico Mendes.

Ficha da minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes
Horário de exibição: 23:00 às terças, quintas e sextas e 00:05 às quartas
Emissora: Rede Globo
Estréia: 2 de janeiro de 2007
Minissérie de Glória Perez
Direção: Pedro Vasconcelos, Marcelo Travesso, Carlo Milani, Roberto Carminati e Emílio di Biasi
Direção geral: Marcos Schechtman
Site oficial da minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes
Elenco da 1ª fase:
José Wilker - Luis Gálvez Rodríguez de Arias | Alexandre Borges - Plácido de Castro | Cássio Gabus Mendes - Chico Mendes | Giovanna Antonelli - Delzuite | Christiane Torloni - Maria Alonso | Vera Fischer - Lola | Cacau Melo - Diná | Débora Bloch - Beatriz | Regina Casé - Maria Ninfa | José de Abreu - Coronel Firmino Rocha | Ilya São Paulo - Viriato | Osmar Prado - Gianni | Matheus Nachtergaele - Poeta | Malu Valle - Dona Júlia | Juca de Oliveira - José de Carvalho | Alessandra Maestrini - Soledad | Anderson Müller - Osmarino | Antônio Pitanga - Alcedino | Antônio Calloni - Padre José | Tonico Pereira - Genival | Betty Gofman - Amelinha | Eriberto Leão - Dianesco de Castro | Mussunzinho - Dico | Paulo Nigro - Tavinho | Brendha Haddad - Ritinha | Tarcísio Filho - Orlando Lopes | Luci Pereira - Jovina | Jackson Antunes - Bastião | Thiago Oliveira - Bento (Jovem) | Cacá Amaral - José Galdino | Leona Cavalli - Justine | Eunice Baía - Ayani | Eduardo Galvão - Joaquim Vitor | Tânia Alves - Dos Anjos | Neuza Borges - Zefinha | Franciely Freduzeski - Amparito | Victor Fasano - Gentil Norberto | Werner Schunemann - Rodrigo de Carvalho | Duda Ribeiro - Doutor | Márcio Vito - Clemente | Milena Toscano - Ilka Jobim | Suyane Moreira - Ianká | Sóstene Vidal - Honório | Magdale Alves - Angelina | Cláudio Janborandy - Benedito | José Ramos - Zuca | Ronaldo Dappes - Augusto | Val Perre - Vitorino
Elenco da 2ª fase:
Vanessa Giácomo - Ilza (Ilzamar Mendes) | Caio Blat - Xavier | Marcelo Faria | Camila Rodrigues | Emílio Orciollo Neto - Bento | André Gonçalves - Zuca | Dan Stulbach - Leôncio | Irene Ravache - Beatriz | Eva Todor - Branquinha | Júlia Lemmertz - Risoleta | Diogo Vilela - Juvenal Antunes | Letícia Spiller - Anália | Humberto Martins - Augusto | Fernanda Paes Leme - Adenoura | Patrick de Oliveira - Alípio | Kadu Moliterno - Governador Souza Braga | Jurandir Oliveira - Russo | Ernani Moraes - Coronel Tiburtino | Roberto Frota - Padre Freire | Cláudio Marzo - Ramalho Júnior | Odilon Wagner - Alarico | Paulo Betti - Gomes | Suzana Faini - Zeferina | John Vaz - Coronel Rojas | Leopoldo Pacheco | Pedro Paulo Rangel
Elenco da 3ª fase:
Lima Duarte - Augusto | Francisco Cuoco - Bento

Ficha do Estado do Acre
Região: Norte
Capital: Rio Branco
O Acre faz fronteira com: Amazonas, Rondônia, Bolívia e Peru
Mesorregiões: 2
Microrregiões: 5
Municípios: 22
Área: 152.581,4 km² (16º maior Estado)
População: 669.736 hab. IBGE/2005 (25º Estado mais populoso)
Densidade: 3,7 habitantes/km² (23º Estado com mais densidade de habitantes)
Clima: Equatorial Úmido
Fuso Horário: GMT-5 (Duas horas a menos que Brasília).

Indicadores do Acre:
Analfabetismo: 16,9% exceto população rural (2003)
Mortalidade infantil: 33,2% (2002)
Expectativa de vida: -
Índice Gini:
IDH do Acre: 0,697 PNUD/2000
PIB do Acre: R$ 2.716.123 mil (2003) = 0,2% do PIB do Brasil
PIB per capita: R$ 4.338 IBGE/2003
Quem nasce no acre é: acriano ou acreano (mais usado)
Sigla: AC
Ouça o hino do Estado do Acre (Versão WMA - 1,3 Mb)
Ouça o hino do Estado do Acre (Versão MP3 - 3,9 Mb)

Bandeira, brasão e mapa do Estado do Acre - AC
Bandeira do Acre
Bandeira do Estado do Acre - AC
Mapa do Acre
Mapa do Estado do Acre - AC
Brasão do Acre
Brasão do Estado do Acre - AC
 

  Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo José Wilker interpreta Luiz Gálvez na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo Cássio Gabus interpreta Chico Mendes na minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes da Rede Globo
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