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A relação perniciosa entre Saddam Hussein, os Estados Unidos e a mídia mundial
Rogério Beier - Publicado em 05.01.2007
O ano começou sob o impacto de imagens gravadas por um celular que mostravam o corpo de Saddam Hussein balançando, após ter sido enforcado dentro de seu próprio país, que se encontra sob o domínio estadunidense. Não que eu me importe com a morte do ditador, por mim, é mais um que nem deveria ter nascido. Contudo, o que |
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me incomoda profundamente em toda esta história é este sentimento de que estão subestimando minha inteligência e me tratando como idiota. É odioso ver a escancarada hipocrisia dos estadunidenses que insistiram em patrocinar o verdadeiro teatro que foi o julgamento de Saddam Hussein, como se quisessem mostrar ao mundo que, ao contrário do que o ditador fazia, eles sim, os "ilibados" estadunidenses deram ao ditador um julgamento "justo", feito pelos seus compatriotas e com toda a possibilidade de se defender das acusações. Puro teatro, pura hipocrisia. Quem não sabia que o homem já estava condenado de antemão?
Pior que isso, estadunidenses e iraquianos alegam que Saddam foi condenado à forca pelos crimes de guerra que ele cometeu enquanto líder supremo do Iraque. Hipocrisia máxima, não? Se a moda pega, certamente nenhum presidente estadunidense depois da segunda guerra mundial escaparia do cadafalso. E o primeiro a puxar a fila seria o atual presidente, Mr. George Walker Bush, que nestes últimos seis anos tem provocado guerras e matado milhares de pessoas inocentes apenas para enriquecer a si próprio e a seus amigos petroleiros. Como diria Michael Moore, "shame on you, Mr. Bush"!
Quem acha que a fila ficaria só no Bush, muito se engana. Se olharmos pra trás e começarmos a enfileirarmos os presidentes americanos e seus respectivos crimes de guerra, veremos que cada um tem uma ficha corrida tão grande, ou até maior, que a de Saddam Hussein. Acha que estou exagerando? Iniciemos com Bill Clinton. Muitos diriam que este não fez nada, pelo contrário, foi um bom presidente. Todavia, apesar dele ter ficado na memória de todos como o garanhão que transava com suas estagiárias, ele também é um criminoso de guerra e dos fortes. Pra começar, foi diretamente responsável pela morte de dezenas de sudaneses, em um ataque, por engano, a uma indústria farmacêutica em Al Shifa. Defendeu-se alegando que os estadunidenses tinham provas para acreditar que a tal fábrica de remédios se tratava, na verdade, de uma indústria de armas químico-biológicas. Não era. Com a destruição da fábrica condenou, indiretamente, milhares, quiçá milhões de africanos, à morte por malária ou outras doenças curáveis que assolam a região, uma vez que aquela era a única fábrica a produzir remédios a baixo custo para boa parte dos africanos de toda uma vasta região. E olha que nem mencionei a desastrosa atuação de Bill e seus marines na guerra da Bósnia, onde servos e croatas se aniquilavam mutuamente com ajuda das tropas estadunidenses e da ONU.
Agora seria a vez de falar dos crimes de Bush pai e sua primeira guerra do Golfo e, em seguida, do finado Ronald Reagan e sua atuação terrorista fomentando grupos paramilitares para derrubarem governos legítimos e instituírem ditaduras na América Central dos anos 80. Mas creio não ser mais necessário continuar listando os crimes de guerra dos "ilibados" presidentes estadunidenses. O melhor a fazer agora é pararmos por aqui e sugerir a reflexão sobre o que é real e o que querem nos fazer acreditar. Isto é, cabe agora a cada um se perguntar como é que muitos de nós deixamos de perceber, durante muito tempo, que estes crimes jamais foram punidos, pior, jamais foram sequer divulgados abertamente na mídia como crimes. Não teriam sido os ataques nucleares a Hiroshima e Nagazaki os maiores crimes de guerra já ocorridos na história da humanidade? O uso aberto e indiscriminado de Napalm nos vietnamitas também não seria um crime de guerra condenável? Políticas terroristas para desestabilizar estados legítimos e fomentar e implementar ditaduras que mataram atrozmente milhões de civis em toda a América Latina podia ser considerado simples políticas de estado?
Como vimos, se compararmos os crimes de guerra de cada um dos presidentes deste belicoso país com os crimes de Saddam, veríamos que os crimes deste último talvez tenham afetado grupo muito menor de pessoas do que aqueles perpetrados pelos estadunidenses. Mas foi apenas Saddam Hussein a morrer na forca com apoio dos países ocidentais. Não é curioso?
Outro fato curioso é que para chegar aos fatos reais sobre a atuação da política externa dos Estados Unidos no mundo não é tarefa tão fácil. Para chegar a tais informações, tive que pesquisar em fontes jornalísticas e escritores considerados alternativos e rotulados como duvidosos por grande parte da imprensa oficial. Esta, por sua vez, parece preferir fechar os olhos e acobertar as atrocidades cometidas pelos estadunidenses. Pior que isso, quando um dos presidentes do lar dos bravos e terra dos livres morre, normalmente já velhinhos, em suas casas e em decorrência de causas naturais, a dita imprensa oficial não só vai prestar as últimas homenagens, como também faz questão de louvar os feitos do morto com belos discursos laudatórios destacando a importância daquele cidadão para o mundo. Se você acha que estou exagerando, basta relembrar a recente cobertura das mortes de Ronald Reagan e Gerald Ford.
Infelizmente, cheguei à conclusão de que é isso que querem nos fazer acreditar. É esse tipo de alienação que o governo e as instituições estadunidenses divulgam globo afora para suas agências co-irmãs perpetrarem localmente, cada qual em seu país. Cabe a cada um de nós tomar uma decisão pessoal de querer acreditar nestas informações ou não. Eu, particularmente, prefiro sempre questioná-las e confrontá-las enquanto ainda posso. Mas isso requer não só coragem de ser diferente, pois muitos o considerarão um idiota alienado, mas também tempo e interesse para buscar informações em outras fontes e formar um senso crítico não alinhado com este que tenta nos enganar o tempo todo, escamoteando e deturpando informações. É contra essa informação fácil, mastigada, enlatada e disponível na ponta dos dedos que me posiciono. E é justamente na facilidade de encontrar, obter e reter esta informação que a mídia dita oficial e o poder instituído (leia-se Estados Unidos), depositam toda sua confiança. Eles acreditam que a maioria das pessoas do globo jamais vão se dispor a buscar informações que não sejam facilmente encontradas. Afinal de contas, quem quer perder tempo com isso neste mundo dinâmico e competitivo de hoje, não é?
Enfim, de fato existem aqueles que, conscientemente, prefiram acreditar que a ignorância é uma dádiva e de que é melhor se adequar ao modus operandi deste mundo, tirando proveito dele. Definitivamente não é para estes que escrevo. Escrevo para aqueles que se incomodam de serem tratados como idiotas diariamente por uma mídia mentirosa e mancomunada com governos criminosos que querem construir uma imagem de protetores da liberdade e da democracia. Para aqueles que não se deixam enganar facilmente, mesmo não tendo informações suficientes para questionar, mas que recebem cada informação como se fosse uma farpa em suas mentes, incomodando e machucando, desejando extirpá-las e saber algo além do que se vê nas compradas linhas dos jornais diários.
Leia também:
• Execução Dupla - Artigo sobre a condenação e enforcamento de Saddam Hussein - Jaime Leitão
• Julgamento da História - Paulo Alexandre Filho
Veja também (Vídeo da execução de Saddam Hussein na forca):
• Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (antes da execução)
• Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (execução - streaming)
• Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (execução - Formato wmv - 8,06 MB)
• Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (depois da execução)
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