George Orwell se revira no túmulo neste momento. Eric Arthur Blair, seu verdadeiro nome, descreveu em sua obra-prima (o badalado livro 1984) um mundo ocidental controlado por um regime totalitário. Neste ambiente futurista (o livro foi escrito em 1948) George Orwell imaginou um líder: O Grande Irmão, ou o Big Brother no original.
O nome Big Brother já foi usado para inúmeros propósitos. Em 1965 Sam Andrew, James Gurley, Peter Albin e Chuck Jones se reuniram para formar a banda Big Brother and the Holding Company. Em 1967 lançaram o famoso álbum "Cheap Thrills" com a lendária Janis Joplin. O álbum foi listado como um dos melhores álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone. A famosa capa desenhada pelo genial Robert Crumb foi considerada pela mesma revista a nona melhor capa de todos os tempos.
A produtora holandesa Endemol lançou em 1999 o famigerado programa. Se você não esteve em Marte nos últimos anos sabe do que se trata: uma gincana televisiva onde se reúnem algumas pessoas vigiadas todo o tempo. Estas pessoas escolhem quem é concorrente para sair e o público final vai eliminando (ou vaporizando, com o termo da novilíngua do clássico) os participantes. No final o vencedor ganha um polpudo prêmio em dinheiro. Existem particularidades neste programa que virou sucesso em todo o mundo. Mudanças em algumas regras, participações de celebridades para prolongar o tempo de vida do que um dia foi novidade.
No Brasil o Big Brother está na sétima edição. O programa foi batizado de Big Brother Brasil ou apenas BBB. Já desgastado, o BBB7 dá sinais de fraqueza. Desta vez, participam apenas jovens bonitos que em algumas semanas estarão nas capas de revistas masculinas (Playboy, Sexy, etc.) ou de nu masculino para o público gay (G Magazine).
Os amantes das cotas raciais ficaram indignados com apenas um participante negro, que saiu logo nos primeiros dias e retornou a casa com votação do público. A proporção da participação de negros nesta edição está abaixo até das estatísticas oficiais. Só quem já andou o Brasil todo sabe que o total de negros no Brasil é superior aos dados oficiais e inferior aos tais 46% que o movimento negro propaga. Nem isso nem aquilo. Entretanto o que chama mais a atenção no episódio é a falta de brasileiros comuns. Na edição anterior (BBB6) entraram na casa por sorteio dois típicos brasileiros. Os outros participantes foram escolhidos pelos tradicionais obscuros critérios da emissora. Augustinho e Mara (que venceu a edição) eram baixos, obesos e mestiços. Quando ficaram entre os quatro últimos a discrepância entre eles e os outros dois escolhidos a dedos era enorme. Diferença de peso, de altura e do uso do idioma. O Brasil não é uniforme. Não estou dizendo isso, mas a grande parte do povo brasileiro está mais para Augustinho e Mara do que os participantes do BBB7. Para evitar novos Augustinhos, Cidas e Maras o Big Brother Brasil 7 não teve sorteio de revistas nem por telefone. No país que envelhece sua média de idade todos os anos e enfrenta o drama do previdência o participante mais velho do BBB7 tem apenas 30 anos.
As porteiras foram reforçadas para só deixar entrar potenciais pôsteres de revistas e capas de sites eróticos. Até agora 30 participantes do Big Brother já fizeram ensaio sem roupa (veja a lista no final do artigo). O número vai aumentar quando os participantes da sétima edição deixarem a casa.
Os vencedores das seis edições anteriores eram pessoas com jeitão e sotaque do interior. O país que deu milhões de votos ao Lula por ser "do povo" também escolheu com os mesmos critérios os vencedores do programa. É coitado. É pobre. Precisa do dinheiro. É gente como a gente. O vencedor do BBB7 será aquele que mais fingir que é do povo.
Mesmo com a audiência em queda livre as pessoas continuarão a ligar. Para muitos brasileiros a televisão aberta é a única forma de entretenimento. Os votos serão daqueles que gastam tempo para assistir, torcer e depois telefonar para manter a sua personagem favorita. Personagem sim, porque ninguém age naturalmente numa seleção controlada 24 horas. A diferença para os cargos políticos é mínima. Muita gente está assustada com a volta de corruptos ao congresso, mas alguém os botou lá e não fui eu.
Gran Hermano, Loft Story, Grande Fratello, Big Brother VIP, Veliki Brat, Celebrity Big Brother. Seja qual for o nome o programa arrasta multidões cansadas do tédio de suas próprias vidas. O que isto tem a ver com o mundo imaginado por Orwell? Quase nada. A vigilância total não era para todos os habitantes. Os mais pobres eram deixado de lado porque eles não eram perigosos para os que dominam o poder. Não existiam teletelas nos lares dos pobres. A teletela foi uma criação de Orwell que vislumbrava um aparelho que enviava e captava áudio e vídeo. O aparelho ainda é futurista, mas pense bem, o computador também é um receptor e emissor de dados.
Na Inglaterra a indiana Shilpa Shetty foi a vencedora do Celebrity Big Brother 2007 após ser adotada pelo público. Shilpa sofreu preconceito dos outros participantes. O feitiço voltou contra o feiticeiro e ela acabou como a vitoriosa. O público adora sentir que ele foi o responsável por fazer a justiça. Se Shilpa não fosse a vencedora a emissora perderia muito mais do que qualquer outro participante. Os critérios de vitória nem sempre são claros.
O Big Brother já teve algumas variações. Algumas curiosidades dos Big Brothers: 92 homens venceram a edição contra 65 vitórias femininas. O Reino Unido é o campeão de edições: 13 no total, com 5 edições com celebridades e 1 com adolescentes. Na Alemanha o Big Brother já totalizou 1.142 dias de exibição. Em 2000 aconteceu a primeira expulsão (Reino Unido). Na Noruega uma edição teve apenas quatro participantes e na Suécia uma edição durou apenas seis dias. Já participaram grávidas, uma que engravidou na casa, edição teen, soropositivo, uma participante de 81 anos (Reino Unido) e outro de 15 anos (Filipinas), mesmo assim uma menina de 3 anos que ficou com a mãe durante o programa na Bulgária, mas não concorreu ao prêmio. Já teve pai e filha na mesma edição (Itália). No Big Brother 5 na Alemanha 15 participantes deixaram a casa por vontade própria.
Aqui os participantes chamam-se de big brothers e big sisters. O apresentador Pedro Bial também costuma chamá-los por estas alcunhas. E George Orwell? Que se dane. E a obra-prima do escritor? Que se dane. E os perigos que Orwell alertou contra o totalitarismo que avançam nesta década na América do Sul? Que se dane. O que o público quer ver são corpos sarados na piscina, intrigas, sexo sob o edredom e muitas caras e bocas.
Numa edição perguntaram aos participantes se eles sabiam a origem do nome do programa. Depois do silêncio constrangedor um "sábio" disse por que eles eram muito irmãos, muito camaradas, logo, eram big brothers. E ainda tem gente que tem a cara de pau de criticar o William Bonner sobre os telespectadores do tipo Homer Simpson. Bonner teria comparado o telespectador-médio ao personagem principal do seriado estadunidense “Os Simpsons”. A relação do editor e apresentador do Jornal Nacional era que muitos dos telespectadores não entenderiam matérias mais rebuscadas. Só a hipocrisia condena a verdade.
Quem se indignou com o fato são aqueles patriotas de ocasião que picharam o filme Turistas, sem ao menos saber do que se tratava. Eles são patriotas em Copa do Mundo, mas dão cinqüentinha para o guarda porque não pagaram o IPVA do carro, mas acabaram de comprar um aparelho novinho de DVD em dez vezes sem juros. São aqueles que acreditam que o Aquecimento Global é culpa dos ricos, como afirma o Nosso Guia. Acreditam que o Brasil faz a sua parte, apesar do país ser o quinto maior poluidor do mundo. Os jornais populares destacam notícias fúteis sobre celebridades porque o público quer ler isso. Sangue e suor dos pobres e lágrimas dos ricos. Campeonatos de futebol, escândalos, viúva do ganhador da mega-sena pode ir para cadeia, fulana que posa nua, sicrano preso em motel com amante, cinco mortos em chacina, etc., etc. e etc.
Os destaques são os mais fúteis possíveis porque as pessoas são fúteis em geral. Eis que surgem os defensores dos fracos e oprimidos que vivem confortavelmente em seus apartamentos. Idealizadores dos pobres, mas que não suportam coisas bregas. Idealizadores de um país que não existe. Ontem, turistas foram assaltados; na semana passada, assassinados; e no último ano uma Bélgica foi devastada na Amazônia Brasileira. O Pan Rio 2007 é uma ótima oportunidade para que estas pessoas voltem a ser patriotas. Depois do intervalo, a programação volta ao normal (seqüestros, assaltos, assassinatos, ônibus queimados, mensaleiros comemorando, etc.).
Os reality shows apareceram numa época que a televisão procurava algo novo. Em poucos dias anônimos viram estrelas de um público privado de lazeres. Vida sem propósito, ídolos vazios. O público vê na personagem alguém íntimo. O participante do reality show está numa casa que você pode ver. Alguém que faz parte de sua família sem você ter convidado, nem escolhido. Os parentes e cunhados não são assim?
Os reality shows se diferenciam em detalhes. Existem aqueles de desafios em situações extremas (Survivor e No Limite), show de calouros repaginado (American Idol e Ídolos), busca de pretendentes (The Bachelor), entrevista de emprego (The Apprentice, Aprendiz) e no estilo nada a fazer numa casa (Big Brother e semelhantes). Nos outros existem condições para ser o vencedor. No Big Brother basta a empatia popular, se é que os votos são mesmo populares. No Aprendiz a escolha fica a cargo aparentemente de uma pessoa (o contratador) de acordo com o desempenho em tarefas. Estas escolhas, diz o cético, são baseadas mais na audiência (permanência de personagens polêmicos), nicho de consumidores de determinada região, etnia, grupos social ou de interesse próprio. O telespectador não escolhe, mas também não tem a sensação que os votos populares foram manipulados. Os contratadores de programas como Rock Star Supernova estão muito mais para o Big Brother da ficção imaginada por Orwell do que as edições do programa Big Brother. Mesmo assim, muito pouco com os perigos alertados pelo escritor britânico.
No Big Brother compete-se por um prêmio em dinheiro. Na obra de Orwell competia-se para não ser eliminado de fato. Enquanto os personagens de 1984 competiam para sobreviver ao Partido os competidores dos reality shows torcem para sair na hora certa. O participante ganhará mais destaque fora do que dentro da casa. Eles já entram no programa pensando nas oportunidades futuras. Alguns conseguirão se transformar em apresentadores de TV e participar em alguns quadros de outros programas. Outros, capitalizam com festas de quinze anos e eventos diversos.
A TV aberta se consolida como uma máquina de fazer idiotas. O intuito é claro: produzir consumidores/eleitores estúpidos que votem numa eleição da mesma forma que a eliminação de um um participante do programa. Eles amam o Grande Irmão.
Artigo de
Maurício Torres publicado em 03.02.2007.