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| A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume - Análise das letras "Burguesia" de Cazuza, "Um Bodegueiro Na Fiec" de Falcão e "Artista é o K" |
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A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume
Maurício Torres - Publicado em 07.04.2007
Análise das letras "Burguesia" de Cazuza, "Um Bodegueiro Na Fiec" de Falcão e "Artista é o K" de Rubinho Jacobina - Nunca conheci nenhum crítico da burguesia que não fosse burguês. Pensando nisso me lembrei do abominável sucesso “Burguesia” do cantor Cazuza. Em sua música "Burguesia" o burguês é sempre o outro. Assim como
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todo esparramador de caracteres que usa e abusa de "burguesia", "capital" e "imperalismo" para acusar o próximo sem reparar nos três dedos de sua mão apontados em sua direção.
Este artigo não intenção nenhuma em desmerecer o falecido artista. Cazuza compôs letras inspiradas ao longo de sua vida louca vida. A música “Burguesia” de seu último álbum é um equívoco. É infantil, desnecessária e... ruim. Todos temos altos e baixos e não é uma música que irá desqualificar a sua obra. Não considero Cazuza genial, mas se estivesse vivo seria melhor do que qualquer "gênio" da nova geração. Entretanto, não podemos deixar de analisar a letra "Burguesia". Ela é uma amostra de um pensamento dominante na cultura brasileira: o desmerecimento do sucesso e a aversão às elites pelas próprias elites.
Quem não é burguês não sabe o significado da palavra burguês. Os pobres trabalham para os pensadores criticarem a burguesia. Esta é a força do povo. Logo, todos que escrevem sobre burguesia e burgueses são burgueses. São burgueses com vergonha.
Um jovem metido a cult me mandou um longo e-mail criticando os meus textos. Não respondi. Confessou que tem carro, é assinante de TV a cabo, tem camisas de clubes de futebol da Europa, mora numa casa com geladeira, micro-ondas, fogão, etc. Está melhor do que 95% da população mundial. Seus e-mails eram recheados de críticas contra os burgueses e a burguesia. Ele, claro, não se considerava um burguês.
Sempre terá um seguidor para bater palmas para este discurso. Eles realmente acreditam que os autores são coerentes, que o comunismo liberta, etc.
O burguês é sempre o outro, jamais o autor. Esta é a lógica dos defensores dos fracos e oprimidos. Estes mesmos defensores se apegam ao que o sistema oferece de melhor. A desculpa é sempre esfarrapada para justificar a incoerência. Fingem-se de pobres para os trouxas e, quando descobertos, afirmam que precisam daquele bem para combater o sistema. Sempre tem um “mas”, um “por que”, um “senão” e o indefectível “enfim”.
Compartilham os gostos das elites, mas da boca para fora querem os pobres no poder. Revertem inclusive o pensamento de escritores mortos que não podem mais se defender. No clássico 1984, Orwell mostrava o desencanto com um integrante da classe-média com o povo. O povão sem a classe-média nunca fará a revolução. Basta ter pão e circo. O povo entra nas revoluções como bucha de canhão para que a classe-média inconformada em não ser a elite possa tomar o poder. Sempre foi assim e continuará por muito tempo.
Eu não tenho nada contra a burguesia. Não sou "coerente" como os infelizes que iludem os pseudo-intelectuais de esquerda. Você sabe do perfil que eu estou falando. Jovem, acha que é cult, mais esperto que os outros e que a sua visão de mundo é a correta. Geralmente fazem força para gostar dos filmes ruins europeus e não tem a coragem de dizer que os filmes de Glauber Rocha são horríveis. Sabe por quê? Por que eles não são livres para dizer o que pensam. Eles repetem chavões e estão sempre do lado dos que os líderes mandam. Fazem uma força danada para serem cult, para descobrir artistas que ninguém conhece. Precisam reforçar sua personalidade com medo quedescubram sua verdadeira face vazia.
Eles fazem força para esquecer que os europeus do leste não tem nenhuma saudade do comunismo. Eles falam em liberdade, mas ao mesmo tempo torcem por ditaduras. Torcem pelo Irã, mas querem viver como os ingleses. Aplaudem cada movimento antilibertário de Chávez e se recusam a reconhecer que os países "porcos capitalistas" são muito mais socialistas do que o Brasil.
Muito mais coerente é a paródia do cearense Falcão em “Um Bodegueiro Na Fiec”. Falcão ridiculariza aqueles que saíram da pobreza e que agora tem respaldo na alta-sociedade. A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume. Os novos-ricos compram as melhores marcas.
Quando Cazuza cantava “Mas também existe o bom burguês...” é claro que ele está falando dos seus. O burguês ruim é o outro. Quem está acabando com o planeta são os outros. A verdade inconveniente é que Al Gore fala mais do que faz; e os tolos que acreditam em seu discurso fariam manifestações anti-Gore se este fosse o atual presidente dos Estados Unidos.
Em outra parte a personagem se desculpa “Pobre de mim que vim do seio da burguesia. Sou rico, mas não sou mesquinho.” Ou seja, ele admite ser burguês, mas ele faz parte do pequeno grupo de bons burgueses. O inferno são os outros. O burguês está preocupado com a destruição da Barra, mas não se considera integrante do grupo que pertence. A Amazônia que se dane. O importante é manter a Barra. Já o novo rico de Falcão é muito mais sincero: “Eu sei que o meu passado agora me condena. A sua presença só me prejudica...”
A personagem da letra de Falcão é justamente aquele pobre que não fazia parte da burguesia, tomou o lugar dela e tem vergonha de ser pobre. É o novo rico que se aproxima do poder e até dá palpite na vida sexual da primeira dama. Já o da música de Cazuza ignorou milhares de vendedores de chicletes durante toda a sua vida, mas a burguesia é sempre a culpada; afinal ela é a direita e a guerra. Neste pensamento supõe-se que a esquerda é boa. A esquerda é a paz! Ignorem as guerras promovidas pela URSS e as tropas de Castro na África. Pol Pot e Kim Jong-Il são a paz. Países ricos e capitalistas são a guerra. Quem entrou mais em guerras nas últimas décadas: Japão, Noruega, Suíça? Porcos capitalistas. Eles são a guerra! Ditadores sanguinários de esquerda é que são do bem! Enquanto houver hipocrisia, vai haver poesia.
A única parte que concordo da música de Cazuza é “são caboclos querendo ser ingleses”. Sabe quem me lembra? Daqueles colunistas que tiram férias em Paris e criticam a burguesia, o capital e tem a coragem de defender governos do povo. Governos com discurso de "povo no poder", vamos melhorar o nível de vida dos brasileiros. Acordem. Estes governos querem apenas se perpeturar nos cargos através de esmolas, tornando o povo refém de seu assistencialismo.
Infelizmente, Falcão e Rubinho Jacobina não são reconhecidos no país de Lula. No país em que os heróis são os participantes do Big Brother, usineiros e ministros. A personagem de Cazuza queria mesmo dinamitar a burguesia? Pense bem. O fim desta burguesia formaria uma nova classe (com a força do povo) com sede de poder pior ou igual à antiga elite. E com mais hipocrisia ainda.
O justiceiro quer colocar a Burguesia “Numa fazenda de trabalhos forçados”. Nenhum pensamento é mais stalinista do que este. Vamos colocar meus inimigos na Sibéria. E você, vai com eles? Claro que não. Eu sou burguês, mas sou artista.
Um mundo pior é possível.
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