O artigo procura entender as contribuições do comportamentalismo dentro do universo lingüístico, elucidando seus pontos principais, num sistema imparcial de análise.
A língua(gem) é uma característica eminentemente humana, capaz de tornar o ser humano político, social, munido de civilidade, assim como o homem, os demais animais possuem a voz, mas não a palavra, responsável por exprimir o bem e o mal, o justo e o injusto.
A necessidade de comunicar-se, expressar-se, fez com que surgisse a língua(gem) humana, através dela o homem tem força para criar e recriar o mundo segundo seus mitos, “e deus disse: Faça-se!”, e foi feito.
Para expressar melhor o poder da língua(gem), diz Marilena Chauí (2001, p.136), interpretando as palavras de J. J. Rousseau : “A palavra distingue os homens e os animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado”.
Devido essa importância ímpar que a linguagem exerce sobre a vida e relações humanas que surgiu a lingüística e, posteriormente a psicolingüística, que se voltaram para o estudo sistemático desta. A psicolingüística é o ramo da lingüística, que tem como um dos seus objetos de estudo o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, apesar de ser uma ciência ainda bastante jovem, já dispõe de um apanhado de idéias que nos ajudarão a compreender melhor como a criança até três anos adquire e posteriormente desenvolve sua língua(gem) materna.
Nessa dimensão surgirão duas concepções psicológicas/ filosóficas que deram atenção especial na tentativa de explicar fatos lingüísticos infantis, são elas o behaviorismo/ empirismo e o racionalismo/ inatismo. Sendo que, o behaviorismo será, por enquanto, nosso objeto de estudo nesse trabalho.
O leitor observará no decorrer desse trabalho algumas concepções sobre o behaviorismo, que estuda o comportamento humano, dentro de um breve apanhado geral sobre essa teoria e, posteriormente, maiores esclarecimentos das suas implicações no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem.
Behaviorismo: uma primeira aproximação
Para entendermos qual a contribuição das teses behavioristas para os estudos da aquisição e desenvolvimento da linguagem, precisamos, a priore, destacar para o leitor uma visão geral e conceitual dessa tese, que para Campos (2005, p. 174), seria que: “Através do condicionamento, a máquina - o corpo – é regulado para comporta-se de uma maneira previsível. Para um psicólogo S – R, então, todo comportamento é dirigido pelo estímulo, quer o estímulo provenha de dentro ou de fora do organismo”.
Ou seja, o behaviorismo, do termo inglês “behavior”, significando comportamento, propõe que todo e qualquer aprendizado é adquirido através das experiências empíricas, a memorização, a repetição exaustiva, torna-nos capazes de adquirir algum conhecimento, inclusive a linguagem.
Nessa tendência psicológica, com início no despertar do século XX, o conceito que lhe determina são os de estímulo e respostas (S- R), abreviatura dos termos latinos “Stimulus – Responsio”, tendo como um de seus principais teóricos B. F. Skinner (1904 – 1990), que lançou teorias sobre o condicionamento para se chegar a um comportamento pré-estabelecido, lançando mão das experiências conduzidas pela “Caixa de Skinner”, através do reforço positivo e negativo, que na idéia de Campos (2005, p. 193):
Um reforço positivo consiste em adicionar alguma coisa – alimento, água ou um sorriso do professor – ao ambiente do organismo. Um reforço negativo consiste em retirar alguma coisa – um som muito alto, um choque elétrico, ou uma carranca do professor – da situação.
O reforço está ligado a noção de prêmio, de um estímulo, para ser adquirida uma resposta desejada, um comportamento satisfatório. Numa visão geral, essa teoria descarta a possibilidade das emoções, do aprendiz sujeito de seu conhecimento, todos são “tabulas rasas”, sendo assim, a aquisição da linguagem ou de outro aprendizado, não é inata, e sim, empírica.
Contribuição dos behavioristas para os estudos de aquisição da linguagem
Para os behavioristas “a criança é uma ‘tabula rasa’, [...] ela só desenvolve seu conhecimento lingüístico por meio de estímulo - respostas (S – R), imitação e reforço”, (DEL RÉ, 2006, p.18).
A criança aprende falar pelo simples fato de conseguir memorizar as palavras ou frases da língua, sendo reforçada positivamente quando necessário fosse para aprender um novo comportamento lingüístico.
O empirismo parece nesse contexto, colocando a língua(gem) como apenas uma convenção social, onde a criança não faz parte ativa desse processo, adquire e desenvolve através das respostas condicionadas ou da aprendizagem por memorização.
Assim, o adulto desempenha um papel preponderante para tornar a criança um falante competente, como explica Kaufman (1996, p. 58):
Os comportamentalistas enfatizam o papel da pessoa que cuida das crianças em modelar as formas adultas corretas e em, seletivamente, reforçar ( punir e recompensar) as produções imitativas da criança. Através desse processo, a criança, por fim, torna-se um comunicador maduro.
Pelo menos até a primeira metade do século XX, acreditou-se na teoria behavioristas para explicar como o ser humano adquire a língua(gem), daí em diante essa concepção começou a sofrer grande oposição por parte do lingüístico Noam Chomsky, que derrubou suas teses e lançou o inatismo.
Um dos principais problemas que transcendem a explicação comportamentalista está na capacidade criativa da criança, como explicar de que maneira ela pode memorizar ou repetir aquilo que nunca ouviu? Nota-se que na maioria dos casos, as crianças no processo de aquisição da linguagem, tende a generalizar o uso dos verbos regulares para os irregulares, como por exemplo, o verbo irregular saber, que é freqüentemente pronunciado na primeira pessoa do singular no presente do indicativo como “sabo”, seguindo a regra dos verbos irregulares, a exemplo do verbo comer que na mesma pessoa e tempo ficaria “como”.
Está evidente que a criança não é totalmente passiva nesse processo que por sua vez, não é tão simples, ela pode construir e reconstruir dentro de seu universo lingüístico. Porém, não fica totalmente excluída a possibilidade da memorização, da imitação e dos estímulos fazerem parte efetiva deste aparato lingüístico.
“Presumivelmente, frases e sentenças podem ser aprendidas através do processo de memorização”, esclareci-nos (krech e Crutchfield, 1980, p.123), já que de certa forma todos nós controlamos e somos controlados. Á medida que o comportamento for mais profundamente analisado, o controle virá a ser mais eficaz. Mais cedo ou mais tarde, passaremos por um desses estágios.
Ao chegarmos ao final dos estudos afirmamos que não existe nenhuma concepção mais ou menos favorável para os estudos de aquisição e desenvolvimento da linguagem, cada uma deu ou deram sua importante contribuição e submeteram favoráveis conceptulizaçãoes inerentes ao estudo.
Por algumas vezes, encontramos opiniões controversas sobre o assunto, que tem de ser analisados com bastante imparcialidade para que não sejamos injustos, ao não percebemos seu valor, por isso o behaviorismo ainda nos permite levar em conta suas teorias, e com um olhar crítico percebermos onde o estudo pode ser mais favorável dentro da realidade lingüística.
Como conseqüência desse processo, entendemos que o estímulo - respostas não tem o poder auto-suficiente para determinar o processo de aquisição de linguagem, contudo, pode influenciar o desenvolvimento melhor ou pior desta, o meio ainda tem grande poder pra transformar ou manter uma determinada realidade, inclusive a lingüística.
Portanto, não podemos simplesmente descartar as contribuições do behaviorismo na aquisição da linguagem, mesmo sendo a partir das brechas que ele deu para que novos conceitos fossem lançados. Diríamos que as teses comportamentalistas não foram somente ultrapassadas, mas no fundo, transformadas.
Referência Bibliográfica:
1. CAMPOS, D. M. de S. Psicologia da aprendizagem. 34º edição. Petrópolis, Vozes, 2005.
2. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 12º edição. 4º impressão. São Paulo: Ática, 2001.
3. DEL RÉ, A. Aquisição da linguagem: uma abordagem psicolingüística. São Paulo: Contexto, 2006.
4. KAUFMAN, Diana. A natureza da linguagem e sua aquisição. In GEBER, Adele. Problemas de aprendizagem relacionados à linguagem: sua natureza e tratamento. Tradução de Sandra Costa. Porto alegre: Artes Médicas, 1996.
5. KRECH, d; CRUTCHFIELD, R. Elementos de Psicologia. Tradução de Dante Moreira Leite e Miriam L. Moreira Leite. 6º edição. São Paulo: Pioneira, 1980.
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