Conforme a música - Nos anos de 1960 ter um aparelho de televisão ainda era um luxo para poucos. Mais de um, então, era algo inimaginável! < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 07.02.2007

Nos anos de 1960 ter um aparelho de televisão ainda era um luxo para poucos. Mais de um, então, era algo inimaginável!

Em compensação, todas as emissoras tinham excelentes programações: shows ao vivo, novelas, teleteatros, séries etc; e qualquer uma era capaz de entreter toda a família, desde o início da programação, normalmente, a partir das 11:00, até seu final, por
  Conforme a música
 


 

volta da meia-noite - exceto no fim de semana, quando começava um pouco mais cedo, e terminava um pouco mais tarde.

Ainda lembro de algumas vinhetas daquele tempo: “Bom dia, São Paulo! São Paulo do meu coração! Canal 9 está entrando em seu lar: TV Excelsior está no ar. Bom dia! Bom dia! Bom dia!”, para anunciar o início das transmissões; e o inesquecível: “Já é hora de dormir. Não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você, e um alegre despertar.”, quando a programação adulta começava, no período noturno... E a gente obedecia!

Mas, havia alguns programas que eu não agüentava assistir: O “Sílvio Santos” era um deles, que, além de infinitamente longo, coincidia com os horários dos programas que eu queria ver: “Thunderbirds”, “Circo do Arrelia”, “Jovem Guarda” e “Perdidos no Espaço”. E só tinha uma televisão em casa...

Outros igualmente insuportáveis para crianças eram: “Clube dos Artistas” e “Almoço com as Estrelas”, apresentados pelo Casal Lolita e Ayrton Rodrigues. Em tempos de grandes festivais, onde brilhavam: Chico, Gil, Gal, Nana Caymi, Marília Medaglia, Maria Odete, Elis Regina, Jair Rodrigues, Nara Leão, MPB 4, Os Mutantes, Edu Lobo etc - e com a “Jovem Guarda” mandando “brasa, mora?” - era um suplício ouvir aqueles cantores da velha guarda interpretando músicas que nem o rádio tocava mais.

Minha mãe, no entanto, adorava e lembrava, a todo o instante, que Lolita era nossa conterrânea.

Bem... Na falta do que fazer, principalmente à noite, eu ficava jogando botão no assoalho de “cascolac”... No entanto, de vez em quando, eu era “despertado” por um som interessante ou uma voz marcante.

Foi assim que conheci e passei a gostar de ouvir, por exemplo: Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto. Havia algo de diferente neles em relação aos seus contemporâneos: Eles mesclavam canções antigas com músicas novas. Às vezes reinterpretavam seus antigos sucessos, dando-lhes uma roupagem mais moderna. Talvez por isso, ao contrário dos outros, eles apareciam em outros programas e canais.

Dalva, pouco antes de sua prematura morte, nos brindava com: “Bandeira Branca” e “Máscara Negra”. Elizeth, que já havia aprendido “as canções de Canção do Amor Demais”, apesar de reconhecer que a saudade era uma torrente de paixão, criou polêmica quando cantou: “Eu bebo sim! Estou vivendo! Tem gente que não bebe está morrendo”; mas, tempos depois, foi solista da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Municipal do Rio.

Nelson Gonçalves fez duetos memoráveis, à “la Sinatra”, inclusive com Tim Maia, ambos no auge.

Cauby, apesar da excessiva afetação, ainda faz performances vocais fantásticas, com um repertório eclético e atualizado que incluiu, até, Chico Buarque: “Cantei! Cantei! Jamais pensei cantar assim!”.

Donos de vozes inconfundíveis, eles decidiram não parar no tempo, e prosseguiram suas carreiras, cantando e encantando, enquanto viveram. Cauby, aliás, ainda está na ativa!

Hoje, eu aprendi a revisitar e dar valor às músicas e intérpretes de outros tempos, e a apreciar seu valor dentro do contexto em que foram criadas. No entanto, admiro os cantores que, como os atores, aprendem a envelhecer. Esses ensinam, com seus exemplos de vida, que o bom permanece e, mais que isso, se renova, se adapta e se aprimora!

  Elis Regina Conforme a música Elis Regina Conforme a música Elis Regina
Recomende este artigo
Recomende o artigo "Conforme a música" de Adilson Luiz Gonçalves.