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Reminiscências de família II
Viegas Fernandes da Costa - Publicado em 02.04.2007
Em outra crônica já disse que meu pai é português. Cresci naturalizando este fato, e não sei em que momento me dei conta de que ser português significava ter nascido em uma terra distante, do outro lado do mar. Também cresci naturalizando o fato de que ele participara de uma guerra em uma exótica África, coisa que também não sabia muito bem o que significava, mas que o menino que eu era corria a contar para todo mundo porque despertava curiosidade e popularidade, já que não era lá muito comum
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alguém em Blumenau ter um pai português que lutara numa África que só aparecia nos filmes e nas histórias de caça ao tesouro do Tio Patinhas. Só mais tarde fui compreender que ele servira ao exército em Angola, então uma colônia portuguesa que lutava por sua independência, e confesso que muito do meu orgulho se dissipou com este entendimento. Afinal, era ele cabo do exército de um país que colonizava e explorava os angolanos, algo bastante injusto para aqueles meus olhos já mais crescidos e não tão inocentes. Mas foi em Angola, também, que comecei a nascer, e é disso que quero contar.
Como a sua especialidade militar era tocar o clarim, sobrava-lhe muito tempo livre no quartel, e para preenchê-lo começou a se corresponder com jovens de diferentes países de língua portuguesa. Dentre os jovens que lhe escreviam estava um brasileiro que, passado o entusiasmo inicial de poder trocar idéias com um soldado em combate, rareava suas missivas. O Cabo Carlos Alberto, no entanto, continuava enviando as suas cartas, contando das tabas no interior angolano, dos perigos na selva, das saudades de casa, e eram tantas as cartas enviadas e sem resposta que minha mãe, irmã do tal moço brasileiro, resolveu assumir para si a tarefa de respondê-las. Escrevia com a simplicidade esperada de uma jovem do interior de Santa Catarina, criada em um ambiente austero e recém entrada na adolescência. Respondia como podia, contava dos seus, perguntava pelos dele, e assim ia tecendo uma amizade que lhe abria a janela para um mundo muito maior do que aquele que lhe podia oferecer o vale onde nascera. A janela e o coração, que fique bem dito, porque pouco a pouco a formalidade esperada de um bom lusitano ia dando lugar à ternura das confissões, das palavras de carinho e para os declarados desejos de um dia poderem se ver e falar pessoalmente. O carteiro passou a ser aguardado com um anseio cada vez maior por esta Anneli, seu nome, e peço desculpas se a imagem de uma moça correndo todas as manhãs à caixa de correio está por demais explorada no cinema e na literatura; cumpro apenas meu dever de narrar os fatos tais como minha consciência afirma verdadeiros, ainda que correndo o risco de não contar nada de extraordinário. E assim as palavras – que antes cruzavam o Atlântico mensalmente – passaram a quinzenais, semanais... e se não chegaram a diárias foi porque assim o exército não o permitira.
Passados dois anos, o Cabo Carlos Alberto recebeu baixa e retornou a Portugal, mas o namoro postal continuou. Começaram a trocar fotos, pequenas lembranças e fitas cassetes onde vozes nervosas e ansiosas diziam do que sentiam um pelo outro. Ansiedade que esperou por quatro anos, até chegar aquele dia em que a jovem Anneli foi informada pelo carteiro que a correspondência que chegara não estava remetida para si, mas para o senhor seu pai, e que vinha registrada e em caráter de urgência. O que podia ser senão o pedido de casamento? Nunca até então coubera tanta alegria em seu peito de dezesseis anos, nem tampouco tanta vergonha por ser o centro de todas as conversas na família e na vizinhança. “A filha do Seu Paulo vai se casar com um português rico” – diziam todos. Carlos Alberto não era rico, mas tinha palavra, e em janeiro de 1976 despediu-se dos seus, em Lisboa, sem dizer que não voltava mais, para constituir família e vida em Blumenau. Namoro mesmo, deste de poder pegar na mão, olhar nos olhos e passear lado a lado, durou menos de um mês. Casaram-se em dia de verão escaldante, na igrejinha luterana abarrotada dos olhos curiosos por ver aquele português, de quem tanto ouviram falar, suando em seu pesado terno europeu. Já lá se vão mais de trinta anos!
Tem aquele poema do velho e sempre presente Drummond chamado “Infância”, onde o poeta conclui que não sabia que sua história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Pois então, talvez eu não tenha lido tanto a Crusoé como o fez o poeta sob a sombras das mangueiras de sua antiga Itabira, mas por muito tempo pensava que as histórias que lia nas insones noites de menino eram tão mais bonitas que todas as histórias reais que eu vivera ou conhecera. E se Drummond pôde se lembrar do bucólico da sua infância, do pai à cavalo, da mãe cosendo as roupas e do café preto que perfumava a cozinha, por aqui me ocorreu compartilhar um pouco da minha história, desta história parida em terras africanas, e julgá-la, também, tão mais bonita que as muitas que li nos avançados das madrugadas de um tempo que apenas recupero nos fragmentos da memória.
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