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Artigo sobre o massacre de Virginia Tech - Tiroteio em universidade mata 32 pessoas em Virgínia
Jaime Leitão - Publicado em 18.04.2007

O assassinato de 32 pessoas, 29 estudantes universitários e três professores, no início da última segunda-feira, em Virginia Tech, universidade norte-americana, mais uma vez choca o mundo e exibe a cultura de guerra presente naquele país. Hiroshima, Vietnã e Iraque somados transformaram-se em um vírus que penetra no subconsciente de
  Cultura de guerra - Artigo sobre o massacre de Virginia Tech
 


 

grande parte dos jovens norte-americanos, e a qualquer momento pode tomar forma em um novo massacre nas escolas.

Enquanto o Serviço Secreto fica correndo atrás de prováveis bombas nos aeroportos e nos aviões, de terroristas islâmicos, outras bombas são armadas na cabeça de estudantes que copiam o modelo dos super-heróis, que eles adoram, e transformam-nos, assumindo a sua face mais monstruosa e exibindo a sua angústia pessoal e o caldo de cultura altamente explosivo que eles recebem desde a infância.

Li que o alucinado que perpetrou o massacre é um sul-coreano de 23 anos, que queria se vingar da ex-namorada e do atual namorado dela, e que fez tudo por amor. Que amor mais avassalador esse que mata mais de três dezenas de pessoas e que provocaria a morte de trezentas ou até mais se tivesse munição para isso.

Ele era um coreano legalizado, aculturado, que morava no país desde pequeno e que possuía a senha mágica que todo imigrante persegue como se fosse sinônimo de realização plena: o green card (cartão verde) que também funciona como um destruidor da própria identidade do indivíduo.

Nos Estados Unidos, cultua-se muito mais a morte do que a vida, o consumismo é o valor que norteia o dia-a-dia de cada um, a tecnocracia soterrou a filosofia, o humanismo e outros valores que contribuiriam para desarmar os corações e colocar as emoções nos lugares devidos.

Os armamentos que sustentam as guerras em quase todas as partes do mundo e também a economia norte-americana são os mesmos que fornecem pistolas e rifles para estudantes liberar a sua ira da forma mais selvagem e primitiva possível. Só que há um detalhe: os primitivos originais não faziam tamanho estrago porque só possuíam pedras e porretes.

Os civilizados do século XXI, fundamentalistas de mercado, são vítimas e ao mesmo tempo engendradores do terror que recebem da própria educação e da cultura que os incita a consumir, a se drogar, e matar é só uma conseqüência da lavagem cerebral muito bem feita. Vejo as fotos dos estudantes em Virginia Tech, em estado de choque, e percebo neles a sensação de que de agora em diante a insegurança será maior porque a doença da civilização em que estão inseridos está em movimento, e não irá parar por aí, destruindo a vida e os sonhos , porque traz a neurose como valor imprescindível. E se a neurose é cultivada como valor, como se sentir bem?

O sangue brotou em Virginia Tech - poema de Jaime Leitão
O sangue brotou
Na manhã
E sujou o sol
Que ficou vermelho
Sem fenômeno natural
Que justificasse
O eclipse estranho.

Virginia Tech
Nunca será a mesma
Porque a morte
Daqueles estudantes
Ficará pairando
No horizonte
Como uma sombra
Espessa
Trazendo o crepúsculo
Assombroso
Na hora do dia-galo cantar
E avisar
Que os livros
E os professores
Esperam
Para a primeira aula.
O café da manhã
Teve e terá gosto
De morte
Em Virginia Tech
E em muitas outras
Universidades
E escolas
Norte-americanas
Por muito tempo.
O pão amanhecido
E reamanhecido
Não será saboreado
Porque tantas mortes
Não cicatrizam
Em um dia.
Os espelhos de Columbine
Refletiram-se
Ampliados em Virgínia Tech
E os tiros
De um atirador solitário
Ressoaram
Em todas as casas
Desse país
Que corteja a morte
Muito mais do que a vida.

Há muitos Vietnãs
Iraques
Hiroshimas
E Hollywoods
aprisionados
No inconsciente
De jovens
Que se sentem super-heróis
Ao contrário
Justiceiros
Do vazio
E do consumo
Que consome almas
E sentimentos.

Querem a fama
No front
E transformam
Escolas
Em campos de concentração
Midiáticos
Construídos
com tiros de ficção
que entram na realidade.
Filmes de ação
Na desrazão
Que contamina
O ar
E empapa os livros
De sangue
Dos universitários
Que viram o futuro
Ir embora
Em cliques trágicos.

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