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Dia-a-dia e a fantasia – antagônicos?
Ramana Jacques - Publicado em 27.01.2007
Nossas vidas são marcadas na maior das partes, por momentos de construção, sem grandes sobressaltos, é o nosso dia-a-dia, aquela rotina que inevitavelmente temos que nos submeter, queiramos ou não. Isso é inevitável e inescapável, temos que estudar, que trabalhar, que viver a terça que sucede a segunda... E a maioria das segundas e terças são dias tipicamente de segundas e terças mesmo, salvo casos típicos, não usuais. E o que fazemos com isso, caímos na monotonia, no “dia a dia que esvazia a fantasia”?
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Alguns o fazem. São aqueles que se submetem às exigências do nosso mundo contemporâneo, marcado pela competitividade do mercado de trabalho, onde o homem, mais do que nunca se torna o lobo do homem; são aqueles que têm no “american way of life” o seu paradigma de existência; são aqueles que perdem o sentido da vida, que se preocupam em preencher suas carteiras e contas bancárias, mas se esquecem de preencher aquilo que é mais importante no ser humano, sua alma... Contas bancárias abarrotadas, porém almas ocas; são aqueles que resumem o significado da palavra Vida, à sua própria vida. O que mais temos nesse nosso mundo ensandecido são pessoas que se submetem à inércia existencial que o dia-a-dia insiste em querer nos levar, e que acabam “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, vivem, mas não percebem que vivem, e acabam não vivendo, e quando dão por si, a vida só lhes reserva o espelho retrovisor, nada mais. Cazuza já mandou um recado a essas pessoas: “Agora eu vou cantar pros miseráveis / Que vagam pelo mundo derrotados / Pra essas sementes mal plantadas / Que já nascem com cara de abortadas / Pras pessoas de alma bem pequena remoendo pequenos problemas... Vive contando dinheiro e não muda quando é lua cheia... Quero cantar só pras pessoas fracas / Que tão no mundo e perderam a viagem...”.
Mas como dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra, e sempre existem teimosos que insistem em “destoar do coro dos contentes”, que não se deixam afogar no mar de mediocridade em uma sociedade em que cidadão se tornou sinônimo de consumidor insiste em querer afundar nossas cabeças. Por isso, penso que essas pessoas, pessoas que priorizam dar sentido sólido às suas vidas, que fazem Vida com “V” maiúsculo, têm um dever... O dever de ser feliz. E o simples fato de ter um sentido de vida e ter a alma preenchida, dá solidez à própria existência, não a faz ser vã e à guia ao encontro da felicidade.
Disse que grande parte de nossas vidas é marcada por momentos sem sobressaltos, de rotina, o que está longe de ser depreciativo, muito pelo contrário. Nessa rotina, construímos os alicerces para os grandes saltos, solidificamos valores, princípios, ideologias, sistematizamos idéias, e o grande desafio, não deixar que os sonhos sucumbam à mesquinhez. Tudo isso dá sustentação para quando o momento do up grade chegar, para quando o momento das grandes decisões de Vida que inevitavelmente ocorrerão, estar preparado pra ele. Nesses momentos parte-se para algo novo, desafiador, que ao mesmo tempo em que angustia (o algo novo é sempre temeroso), dá uma adrenalina avassaladora que simplesmente te impede de ficar parado, algo como pular de uma cachoeira de 20, 30 metros... O medo é enorme... Mas a adrenalina é maior ainda, o pulo é inevitável, e quando se pula, o temor transmuta-se em liberdade... E o melhor de tudo... Essa liberdade é suprema, realmente sublime e gratificante, porque não é o bolso que está abarrotado, e sim a alma.
Não, dia-a-dia e fantasia não são antagônicos, definitivamente que não são.
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