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Antonio Brás Constante - Publicado em 19.04.2007

O ser humano é uma máquina extremamente complexa e por esse motivo, muitas vezes inadequada para as atividades (sociais, físicas, mentais, etc.) que ele próprio se propõe a realizar (sendo, de um modo geral, coisas simples e rotineiras). Para lidar com isto o homem tenta muitas vezes simplificar seus pensamentos, transformando sua vasta rede neural em algo mais fácil de operacionalizar.

  Em guerra com seus neurônios
 


 

Para conseguir esta proeza, utiliza alguns BVM (Bloqueadores Visuais da Mente) também conhecidos como: novelas, jogos de futebol e programas de auditório. Através deles consegue minimizar sua capacidade pensante. Algo que equivaleria a reduzir o poder de processamento de um microcomputador, transformando-o em uma máquina de escrever antiga. Estes programas “recreativos” dispõem de mecanismos que conseguem anestesiar as funções dos neurônios (elementos que auxiliam na condução das coisas que acontecem na nossa cabeça), fazendo uma boa parte desses neurônios agir de forma mais lenta, paralisando quase que completamente uma outra parcela deles, e contribuindo para o aumento no índice de suicídios de outros tantos.

Caso os BVM não sejam suficientes para diminuir a atividade dos tais neurônios, a pessoa ainda pode apelar para o uso de componentes externos, servidos em copos, cujo conteúdo alcoólico parece conseguir aniquilar uma boa parte daquelas coisinhas insignificantes.

Algumas pessoas começam a se frustrar com os seus neurônios quando, por exemplo, ouvem entre uma novela e outra, que fulano recebeu um prêmio pelo uso de um novo composto na geração de energia, e que até aquele momento elas nem sabiam que o tal novo composto existia e muito menos que o estudo dele dava prêmios.

A culpa desta falta de conhecimento só pode ser atribuída aos irritantes neurônios que habitam suas cabeças, morando de graça, dispondo de segurança craniana, um amplo espaço com duas janelas chamadas de ouvidos e comendo (sei lá o quê) às suas custas. Porém, na hora de mostrarem um pouco de gratidão, elaborando alguma descoberta cientifica milionária enquanto a pessoa dorme, simplesmente nada fazem. De que adianta ter uma infinidade deles ocupando o topo de nossos corpos se eles não parecem muito dispostos a prestar qualquer ajuda para alavancar de forma espontânea as nossas aptidões mentais?

Por causa desta suposta falta de utilidade neural, muitos acreditam que basta ter a quantidade suficiente deles para interagir de forma inteligível com o garçom (para que o mesmo entenda que deve continuar lhes servindo mais cervejas), e tomar o cuidado de não afogar em álcool aqueles poucos neurônios que podem lhes auxiliar a chegar a casa, que ficará tudo bem. Outros acham que o que não é visto não é lembrado, e como os neurônios são completamente invisíveis aos nossos olhos, o melhor é fazer de conta que eles não estão ali e deixar que a morte os separe.

Enfim, para dispormos de um bom uso de nossos cérebros, devemos nos transformar em personals trainers de nossos neurônios, lendo, estudando, aprendendo sempre mais e mais. Ou seja, uma atividade que requer um esforço inicial enorme, pois começa pelo ato de desligar a televisão. Uma tarefa extremamente difícil. Afinal, somos uma espécie de “drogados televisivos”, que não podem deixar de assistir ao capítulo da novela, ao jogo da rodada, a apresentação do artista no auditório, etc. Com tudo isto, nosso tempo ocioso fica completamente preenchido, e nossas vidas... Completamente vazias.

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