Ficções da realidade
Apresentação
Fernanda Müller e Marcio Markendorf - Publicado em 16.05.2007
O século XX, mais do que qualquer outro, parece ter elevado a imaginação ao status de produto do momento histórico. Pierre Nora já disse que o que é proposto pela realidade, é disposto pelo imaginário. Nesse sentido, nada mais compreensível do que a “era da informação” acarretar numa era da ficção apegada ao real. Captada diariamente através dos nossos sentidos, a difusão de descobertas científicas e tecnológicas, aliada à cobertura de grandes catástrofes, da criminalidade cotidiana e do terrorismo à espreita, se assentam no terreno do inconsciente e, pouco a pouco, ganham formas amplificadas – para não dizer neuróticas – de representação.
Em tempos antigos o medo baseava-se num temor pelo irracional ou pelo sobrenatural, diferentemente do que ocorre em nossos dias, quando essa ansiedade se pauta em fatos cuja realidade é noticiada pela TV, exposta nas bancas de jornal e alardeada em boletins científicos. Tal consciência de perigo nos coloca diretamente nas garras do medo e consequentemente, numa situação de vigília e apreensão constantes. Temos medo daquilo que nos parece absolutamente possível: um desastre aéreo, um assalto à mão armada, um seqüestro relâmpago, um ataque terrorista, uma grande tempestade, a vida fora da terra. E tais situações entram definitivamente para o imaginário na medida em que nos confrontamos com romances, obras de arte e, sobretudo, películas de cinema, que materializam tais medos, num processo combinado de retroalimentação.
A máxima segundo a qual a demanda gera o mercado e o mercado gera a demanda demonstra-se aplicável no que se refere à ficção, tornando-a mais palpável, mais material, mais real, à medida que as representações externas e internas se confundem. É exatamente esse trânsito que nos interessa: ilustrar as inquietações da sociedade contemporânea, em cinco trabalhos que apontam para aquilo que a assusta e a faz sentir-se ameaçada e em perigo. O produto que nossa sociedade engole e a ficção do medo que ela desenvolve em resposta.
Especial Ficções da Realidade
• Apresentação
• Parte 1 - Os aliens somos nós
• Parte 2 - Como um filme: o imaginário das catástrofes
• Parte 3 - Violência: entre o ato consumado e o consumista
• Parte 4 - Homem biopolítico, ciência biodegradável
• Parte 5 - A República dos Homens e o Império das Máquinas
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