Ficções da realidade
Parte 4 - Homem biopolítico, ciência biodegradável
Fernanda Müller e Marcio Markendorf - Publicado em 14.08.2007
Há tempos o homem tem flertado com certa obsessão pelo domínio da ciência. E dominação é uma palavra que parece soar mais como um fetiche. Não seria de modo algum inapropriado dizer que há algo de sexual, porque prazeroso, em conhecer, controlar e manipular o que pertence ao mundo. Tal aventura sexual-científica teve vários marcos ao longo da história, mas foi o Empirismo proposto por Francis Bacon (1561 – 1626) que fundou o que chamamos de ciência moderna: com base na observação criteriosa dos fenômenos naturais, da coleta de dados, do estabelecimento de leis científicas, seria possível resumir qualquer fenômeno a uma teoria. A teoria, por sua vez, alcançava o abstrato sentido de Verdade se pudesse ser comprovada por experimentação. O Iluminismo do século XVII foi o movimento que mais festejou a ciência e suas descobertas, divulgando toda a sorte de conhecimento através das famosas “Enciclopédias”, encabeçadas por pensadores como D’Alembert, Diderot, Rousseau, Voltaire, Locke e Montesquieu. Desse modo, o conhecimento místico difundido pelas organizações religiosas foi brutalmente suplantado pelo conhecimento objetivo e racional das ciências. Sucedeu-se, então, que o homem passou a não se interessar tanto pelas verdades de constatação e se lançou com fervor nas verdades de indução: estava dada a largada para a experimentação científica desenfreada. Uma era governada não por reis-filósofos, como delineado pela “República” de Platão, mas por reis-cientistas que, na subversão do ditado popular, poderiam muito bem declarar que ‘em terra de ignorantes, quem tem uma teoria é rei’. Em se tratando de reinados, o princípio basilar que os sustentavam eram as formas de poder. O mais poderoso deles é o Reino de Deus. Ressentido de algum modo com Deus e o seu Verbo da Criação, poderíamos pensar que o homem internalizou um inconsciente coletivo deslumbrado com as possibilidades de (re)criação da vida, de profilaxia do mal e de imortalidade do ser.
A literatura acerca da criação da vida vem de longa data e seria possível enumerar uma centena de histórias e mitos que contemplou. A figura mítica do Golem, nascido no seio da cultura judaica, está entre as mais exemplares por difundir a lenda da matéria inanimada que poderia ganhar vida e corpo por meio de um processo mágico. É praticamente inevitável ficar à escuta de um eco vibrando no espaço do mito judaico-cristão quando este descreve o nascimento do homem primordial a partir do barro. Mas ao contrário da imagem bem formada de Adão, o Golem está subtraído da imagem perfeita: é uma criatura gigante, disforme, estúpida, descontrolada e sem capacidade para falar. Tal, fantasia, a de imitar o mecanismo de criação divino, surgiu quando o imaginário passou a flertar com o conhecimento científico ao invés de estar entregue somente ao misticismo. A transição do saber mágico para o pressuposto racional encontrou um catalisador na ficção gótica “Frankenstein ou o Moderno Prometeu” publicada em 1818 por Mary Shelley. De algum modo o romance dá vazão ao elogio da ciência moderna, creditando a ela a responsabilidade por instrumentalizar o homem com novos e ilimitados poderes, visto que naquela época microscópios permitiam vasculhar o mundo invisível, terremotos podiam ser reproduzidos em laboratório e a anatomia havia descoberto o processo de circulação sangüínea. A despeito de todas essas conquistas, entretanto, os mistérios da criação permaneciam (e permanecem em parte) ignorados.
Obcecado por desvendar tal segredo, Victor Frankenstein direciona todos os seus esforços na tentativa de animar um ser. Extasiado à primeira vista com os trabalhos do esotérico Cornelius Agrippa e do médico e alquimista Paracelso, rendeu-se às teorias das ciências naturais, muito especialmente aos ramos da biologia e da química modernas. Frankenstein acreditava na existência de algum princípio vital em estado latente, possível de ser ativado nos corpos inanimados. Sendo assim, exerceu um luxuriante trabalho de profanação de cadáveres em necrotérios e sepulcros, realizando todo tipo de experiência em seu “laboratório da vida humana”. O resultado final não foi exatamente o da criação de um ser novo, mesmo que o jovem médico tenha construído uma criatura com dois metros e meio de altura (estatura inédita na época) a partir de diversos restos mortais humanos. O gigante hediondo criado por Frankenstein ganhou vida por um processo muito mais semelhante ao da ressurreição e que sequer é descrito no romance. O leitor conta apenas com uma cena lacônica em que a criatura sem nome ganha vida numa noite tempestuosa. Tal recurso, porém, é justificado pela própria autora. Mary Shelley adverte no prefácio do livro que o fato físico da animação, muito embora seja impossível, atiça de tal modo a imaginação que a lacuna existente quanto ao método tem a capacidade de inspirar as mais diversas paixões humanas. A principal delas seria o terror.
É perfeitamente possível pensar que grande parte do sentimento aterrorizante esteja ligada essencialmente à idéia de um monstro perseguidor, o que, podemos visualizar em primeiro plano. A perspectiva maior desta paixão reside, no entanto, nas fantasias que levam o homem a querer tornar-se maior que a própria natureza que o criou, indo mais longe do que ela lhe permite avançar. É significativo que a construção corpórea de Victor Frankenstein não possua nome algum e seja pejorativamente chamada de monstro. O cinema erroneamente fundiu o nome do médico ao da criatura, talvez por conta da dificuldade de lidar com algo inominado. Ou inominável. Sem um nome próprio não há existência nem identidade, pois é apenas no momento posterior ao de algo ser nomeado que ele passa a ter significado e ação no mundo. A criatura de Frankenstein, portanto, é apenas um signo errante, fora do lugar e das coisas. O que não o priva de evocar a perspectiva mais aterrorizante do romance: o diálogo entre criatura e criador, numa espécie de ensaio simbólico do temido encontro do homem com Deus, no qual, a princípio, se extinguiriam todas as angústias existenciais do ser criado ao desvelar-se o grande Mistério da Vida. É por essa imagem que devemos ler o subtítulo do livro – o moderno Prometeu –, pois o romance trava um jogo de poderes e divindades. Por ter roubado a centelha da vida, Frankenstein é castigado pela audácia de equiparar-se a Deus por meio da própria matéria roubada. Ao fim do livro, criador e criatura se fundem numa mesma morte de fogo: é pela chama que se extingue a vida de quem animou e de quem foi animado. Da identidade para a diferença, Frankenstein representa, ao contrário do Prometeu mitológico, a premeditação mortal de um ser igualmente mortal e sexualmente atraído pelo poder – o fogo dos deuses, o conhecimento dos homens. Puro fetiche pela chama epistemológica.
O imaginário humano, depois de tais experiências míticas e literárias, concentrou-se no aspecto criacional e, estimulado pelo perfeccionismo e pelo purismo, inspirou o desejo humano de engendrar um ser que pudesse estar livre de qualquer imperfeição. É a profilaxia do mal que começou a tomar terreno no pensamento, descendo mais fundo em aspectos míticos, em imagens do inconsciente coletivo e até mesmo na vida pulsional, a ponto de tornar a segregação quase uma resposta instintiva. A mais famosa combinação entre ciência e literatura, se não a primeira a efetuar a assepsia de atributos negativos, foi a clássica novela de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”, publicado em 1886. Em suma, é um livro que trata do aspecto dual da alma. Reportando-se ao arquétipo do doppelgänger – imagens persecutórias de sombras, reflexos, gêmeos ou sósias – Stevenson revitaliza a literatura dos personagens duplos quando a associa a uma conjuração científica do mal. Fazendo experimentos em seu laboratório, Dr. Henry Jekyll acreditava ser quimicamente possível polarizar os aspectos contrários do ser humano e dissociar a personalidade em formas corporais e comportamentais diferentes. Ao contrário de Frankenstein, um homem da ciência dedicado à solução de uma problemática existencial, Dr. Jekyll nada possui de altruísta, pois seus fins científicos obedecem à necessidade egótica de ascender socialmente. Quando finalmente desenvolve uma solução funcional, o doutor consegue separar a esfera do seu desejo na impulsiva persona de Mr. Edward Hyde. Estamos diante, então, de uma dissociação psicanalítica corpórea e metafórica: Jekyll, superego; Hyde, id. O grande conflito da trama é que passou a existir uma predominância do Desejo sobre a Moral e a inversão das personalidades polarizadas, pois para manter-se na forma original de Dr. Jekyll passou a ser necessário o uso de um antídoto. A morte do médico ao final da novela parece dizer o quanto o prazer pode levar à destruição, ainda mais para uma combinação perigosa entre ciência e desejo. O poder, afinal, tem a capacidade de liberar o reprimido, as forças sádicas e também as masoquistas. Não seria por menos que Stevenson contribuiu para fundar a fantasia do experimento fora de controle, da ciência nociva e de auto-aniquilação.
Perseguindo também o caminho profilático, H. G. Wells apresentou ao público a ficção “A ilha do Dr. Moreau”. Publicado em 1896, o livro discute o modo como os limites éticos são colocados em risco quando um médico indiscriminadamente faz uso da vivisseção em estranhos experimentos. Dr. Moreau, acusado de tais crimes, exila-se voluntariamente numa ilha, onde estaria longe da consciência moral. Lançando mão de práticas cirúrgicas e psicológicas, manipula animais vivos na tentativa de eliminar seus traços selvagens e irracionais a fim de domesticá-los e humanizá-los. Dr. Moreau acreditava que o híbrido resultante da cruza de animais e homens poderia originar o ser perfeito, o que satisfaria enormemente seu ego no exercício pleno de seu complexo de Deus. Operada por tentativa e erro, a humanização dos animais fatalmente deslizou para a deformidade, a anomalia e a mutação, gerando as criaturas mais bizarras. Princípios de hipnose, de lavagem cerebral e deificação, aplicações práticas dos estudos do behaviorismo bem como intervenções cirúrgicas eram os elementos que estabeleciam o frágil equilíbrio desse sistema de “animalídeos”. Apesar de todos esses esforços, o sistema entra em colapso, os animais retornam à sua condição inumana original e Dr. Moreau, assim como seu assistente, são mortos pelos seres que hominizaram. Aliás, o fim mortal parece ser a forma preferida de punição para histórias com essa temática, uma resposta que ronda a ficção cientifica como afirma Susan Sontag. No ensaio “A imaginação da catástrofe” (1965), a crítica afirma que o uso desaprovado da ciência, tendendo para o desvario na figura de um cientista ou de um médico louco, deve ser interrompido e pago com a própria vida. Em Moreau, punição para as leis quebradas. A dos homens: a falta de ética científica. A dos animais: a desastrosa experiência de substituir instintos atávicos por conhecimentos adquiridos. Morte imposta para quem, a princípio, por uma causa nobre, mas muito questionável, desejou eliminar os vícios humanos, o lado mau da consciência, em busca de um ser perfeito. Nesse romance de Wells o objeto de desejo se desloca e as pulsões de poder passam a recair na evolução dos seres, não mais na origem da vida. No entanto, o narrador da história de Wells, ao final do relato só consegue concluir que o homem é apenas um animal pouco mais civilizado que outros e que, em algumas circunstâncias, pode ser mais animal e selvagem do que homem, colocando, assim, em dúvida o significado da evolução.
No que diz respeito à ficção científica, é preciso levar sempre em conta o quanto este gênero está co-relacionado às descobertas de cada período e à preocupação com o uso futuro dos novos conhecimentos. Muitas vezes questões éticas são ameaçadas por propostas destituídas de bom senso, como a idéia de gerar homens acéfalos para reposição de órgãos ou as mórbidas câmaras de criogenia em Phoenix, no Arizona, que congelam cabeças e/ou corpos humanos na esperança de ressuscitá-los no futuro. Outras vezes, a ética não parece ser violada, mas outros princípios são colocados em risco, dentre eles o da crescente despersonalização do indivíduo e conseqüente ascensão de novas formas de ditadura e preconceito. Evoluir (ou involuir) a ponto de realizar no plano da realidade o que a ficção propõe, enveredando pelos efeitos catastróficos advertidos pelo ficcional é uma fantasia alimentada no campo do nosso imaginário. Somos tentados a ficcionalizar a ciência e tornar a ficção um lugar de discussões científicas, borrando as fronteiras da fantasia, miscigenando espaços da realidade. Tem sido assim, por exemplo, com a engenharia genética. Depois que os códigos hereditários passaram a ser manipulados por pesquisadores, a probabilidade da seleção artificial dos seres está saindo da teoria (ou da ficção) para tornar-se uma prática que a literatura já havia proposto muito tempo antes. Em algum futuro não tão distante e um pouco além da simples fecundação in vitro, bebês poderão ser gerados com características pré-definidas e muito provavelmente aperfeiçoados em seus atributos físicos e mentais, quando não somados a novas características que potencializem a “utilidade” da espécie. Mesmo que tal grau de avanço científico ainda não seja realidade, a literatura e o cinema já virtualizaram tais práticas.
Um exemplo é a sociedade do devir descrita por Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”, de 1931, na qual um governo totalitário assume o controle da população mundial com base num rígido sistema social de padrões genéticos. Na década de 30 ainda não se sabia que o DNA era o responsável por transmitir informações genéticas, muito menos se falava em engenharia genética, biologia molecular ou clonagem. Sabia-se apenas que os genes regulavam a produção de enzimas e proteínas, o que não impediu que Huxley concebesse um futuro, bastante real nos dias de hoje, no qual alterações de seqüências do DNA pudessem exprimir os atributos que se desejassem, chegando à impressionante hipótese de um processo induzido de clonagem de seres embrionários em larga escala. Os centros de incubação estatais desse novo mundo funcionariam, portanto, de modo semelhante a uma linha de montagem industrial. Ora, se a obra de arte perdeu a aura na época de sua reprodutibilidade técnica, como afirma categoricamente Walter Benjamin, podemos dizer que, num paralelo com o pensador alemão, o homem perderia sua alma nessa era de reprodução clônica. Poderíamos ser melhores em vários sentidos, mas seríamos realmente humanos? O mundo dos clones nos subtrairia a característica mais cara do universo, ser único e, consequentemente, especial. A base moral e jurídica de toda nossa sociedade está assentada no princípio do individualismo e das liberdades individuais. Uma nova realidade obrigaria a reformulação de uma série de conceitos, desde o direito à psicologia, visto que o eu poderia se tornar um pronome tão genérico quanto o nós.
Genéricos, despersonalizados, a qual destino estaríamos entregues nesse devir clônico? Seríamos plurais e substituíveis, objetos de um mundo mercantil e capitalista, produtos de uma sociedade distópica e tirânica. Huxley apenas mostra outra forma disponível para os poderes totalitários e capitalistas aprofundarem radicalmente a divisão e o controle das classes sociais, ao se apropriarem do desenvolvimento científico para instituir uma nova ordem de exploração – a dos padrões genéticos. O poder e a consciência tornar-se-iam privilégio de uns poucos. De resto, qualquer forma de poder é uma ilusão e uma subserviência cega. Não seria para menos, posto que o marco estipulado por essa nova era foi o aparecimento das linhas de montagem, e o romance de Huxley, defendendo a idéia de que é abominável qualquer nascimento biologicamente natural, reduz a seleção natural de Darwin e as leis de hereditariedade de Mendel a uma lembrança remota, se não a uma memória extinta. A idéia de Destino perde toda a mistificação e segue uma nova lógica: no novo mundo de Huxley somos pré-destinados, do nascimento à morte, por leis humanas e pelo Acaso do mercado. Se a morte de Deus está decretada desde Nietsche, assistiríamos ao enterro divino em definitivo, sem qualquer luto ou culpa.
Não seria difícil afirmar que, como um prisma decompondo as luzes, o imaginário da ficção científica – inspirado pela própria ciência – aponta para preocupações de ordem diversa, mas todas centradas em questões existenciais, responsabilidades éticas, técnicas e afetivas. A fluidez do sangue parece lentamente enveredar para o caminho dos óleos aditivados, para as redes de cabos e chips de homens ciborgues, ou para os fluídos físico-químicos manipulados nos laboratórios de clones. Damos início à construção de um mundo povoado por seres perfeitos, mas descartáveis e infinitamente mortais. Baudrillard afirma que o homem, em função de uma idéia mítica de perfeição, ao adotar medidas profiláticas para eliminação de todos os traços negativos do indivíduo, caminha para um suicídio coletivo. A nosso ver, a literatura e o cinema de algum modo o representam, pois parece natural esperar de ficções desse gênero um resultado catastrófico. Na verdade, toda forma de perfeição em si mesma é uma catástrofe.
Na ficção científica de “Gattaca – Experiência Genética” (Gattaca, 1997, Andrew Niccol), a idéia de perfeição, instalada no centro do desejo humano quase como uma neurose, motiva a busca por um padrão genético de excelência. Provocadoramente o filme abre a narrativa com duas epígrafes: a primeira, retirada do livro do Eclesiastes (7:13), afirma que tudo o que foi feito por Deus não pode ser alterado pelo Homem; a segunda, pertencente ao psiquiatra Willard Gaylin, um dos fundadores do termo bioética, enuncia que devemos interferir na Natureza não somente para atender nossas necessidades, mas também para atender o próprio desejo da Natureza por uma interferência humana. Embora contraditórias, ambas justificam o enredo que segue.
A película, ambientada em algum ano da década de 1990, pode não direcionar os seus esforços para representar a possível auto-aniquilação do homem, mas apela para um outro tipo de discriminação que colocará por terra os critérios habituais de raça ou etnia, a partir do momento em que inaugura uma era de segregação genética. Deste modo, a distinção entre pessoas não recai no aspecto visual, no posicionamento político, religioso ou cultural, nem mesmo na classe econômica, mas sim num fator invisível, o genoma, que nesse futuro é passível de ser conferido em cada catraca de acesso aos prédios públicos, bem como de ser analisado em qualquer guichê de consulta. Por isso mesmo as células se tornaram o novo currículo, a única forma de entrevista de emprego, a mais fiel credencial de um indivíduo, a mais nova declaração de amor.
“Os filhos da fé”, “uterinos” ou “inválidos”, como passam a ser chamados aqueles nascidos de uma reprodução biológica natural, tornaram-se os párias da sociedade, cabendo o alto prestígio apenas àqueles que detinham o quociente genético oriundo da manipulação laboratorial. Os geneticistas assumiram o papel de oráculos desse novo tempo, de deuses da vida: podiam gerar as proles de acordo com especificações físicas e psíquicas solicitadas pelos pais, bem como erradicar qualquer característica ou predisposição prejudicial – alcoolismo, obesidade, violência, miopia, daltonismo. O Acaso (novamente) se tornou uma palavra morta senão uma religião extinta. A ciência alcançou um patamar tão avançado que na hora mesma do nascimento é possível avaliar as probabilidades de problemas vindouros, bem como a expectativa de vida e a provável causa de morte do novo ser. Talvez por isso a profilaxia realizada por essa ciência tenha se tornado a única crença do mundo, e a confiança em seus pilares seja renovada nos lugares sagrados de seus templos – os laboratórios brancos e os ambientes assépticos do Estado. Uma crença que pôde dar origem a novas formas de arte como, por exemplo, um concerto de piano que só pode ser tocado por quem tem doze dedos.
E para uma sociedade sem mobilidade social era de se esperar que algum estratagema fosse desenvolvido a fim de burlar as normas. Diferentemente do universo dos clones e seu tráfico de órgãos, aqui é instituído o mercado negro das identidades genéticas. Para tanto os traficantes se aproveitavam de indivíduos geneticamente superiores, mas que por alguma fatalidade tornaram-se inaptos para suas tarefas, comercializando tudo que pudesse constituir contrabando de códigos genéticos – cabelos, pêlos, unhas, urina, saliva. Num comparativo com os tempos de hoje, o sangue de contrabando seria equivalente a um passaporte falsificado para nós. Usando amostras de material genético de um válido (os “vitros” ou “programados”) era possível viver uma outra identidade e galgar uns tantos lances da pirâmide social numa prática conhecida por “falso alpinismo”. Seria um tempo em que o espírito de luta, a determinação e o desejo de superação eram considerados valores irrisórios, pois o que realmente era levado em conta era apenas a seqüência de DNA do portador.
Para muito além do que foi descrito por Huxley e muito perto do que o apocalíptico filósofo francês, Jean Baudrillard, prevê para o futuro, está o filme “A ilha” (The Island, 2005, Michael Bay), no qual uma corporação do ramo da biotecnologia desenvolveu clones como uma espécie de “seguro de vida” para aqueles que desejam prolongar sua longevidade. Aparentemente o tema da película não é essencialmente atual, haja visto que (re)construir o corpo humano tem sido um dos objetivos da ciência moderna há muitos anos, assim como o desejo de imortalidade é uma fantasia que ronda o inconsciente desde longa data. A novidade consiste na possibilidade de se escapar de um destino artificialmente natural – feito de próteses, extensões mecânicas, simuladores –por meio de uma saída naturalmente artificial – recolocações naturais de órgãos e tecidos sem risco de rejeição porque produzidos a partir de materiais geneticamente idênticos aos do paciente. Altera-se apenas o foco do artifício. Os clones passam a ser naturalmente artificiais. Produto de um processo e, consequentemente, outra forma de circulação e acúmulo de capital. Os “agnet”, como são chamados, são esse novo produto pecuniário.
Produzidos de acordo com as supostas leis genéticas de 2015, os “agnet” deveriam ser seres orgânicos produzidos diretamente na fase adulta, clones mantidos em estado vegetativo para que não atingissem a consciência – limiar que os tornaria humanos. A propaganda da corporação que os fabrica levando em conta o novo american dream – viver para sempre ou chegar muito perto de poder fazê-lo – não mede esforços para que tal desejo possa ser realizado. Mesmo que seja desrespeitando leis genéticas ou éticas. No filme, as experiências iniciais da empresa Merrick Biotech chegaram à conclusão de que, se provenientes de clones vegetativos, os órgãos transplantados logo falhariam. Era necessária a experiência humana de vida para que se desenvolvessem sadios. Mas como mantê-los isolados do mundo exterior e completamente ignorantes de sua real destinação? A resposta veio através de mensagens subliminares e propaganda comercial.
Por meio de uma série de sugestões hipnóticas, esses clones conscientes são retidos num laboratório subterrâneo sob o pretexto de que uma contaminação mundial teria extinguido a vida na Terra. Cada pessoa que lá vive acredita ser um sobrevivente. A fim de justificar os novos produtos integrados ao resto do grupo de clones, difunde-se a idéia de novos sobreviventes encontrados. A introjeção de um passado inventado e de normas comportamentais rígidas configura um artifício para manter a estabilidade do sistema. No caso do universo futurista de Huxley, por exemplo, a família estava extinta e junto com ela, acreditava-se, todo tipo de repressão, neurose, perversão e loucura. A supressão de laços afetivos colaborava para a regulagem da estabilidade e da unidade de indivíduos que tiveram o processo de individuação praticamente interrompido.
A película de Michael Bay, ao contrário de “Admirável Mundo Novo”, defende a idéia de que, para o desenvolvimento corporal pleno, é preciso que a subjetividade também se desenvolva. Nesse sentido o conceito de família torna-se um dado operante. Segundo Sigmund Freud, as relações familiares são o núcleo principal sobre o qual se forma a subjetividade de um indivíduo, e são elas que caracterizam o que o psicanalista convencionou de romance familiar, ou seja, as fantasias que a criança cria em relação aos seus pais. Para solucionar os problemas de um passado inexistente e da ausência de pais, memórias de infância são implantadas na mente dos clones para que funcionassem como um paraíso nostálgico e uma fonte de subjetividade. Era uma saída técnica para um problema psíquico, embora uma solução imperfeita, pois o passado, agindo como um suporte material para a emoção, faz a afetividade daí originada abrir um tipo de janela para o desenvolvimento da inteligência emocional – caminho para a individuação e o vir a ser humano. Por isso o protagonista Lincoln Six Echo desencadeia um especial sentimento de curiosidade que o leva, consequentemente, a questionar o mundo ao seu redor com um mínimo de consciência, tal qual Bernard Marx em “Admirável Mundo Novo”.
Por possibilitar a abertura de uma janela mnemônica para o desenvolvimento da consciência, o programa de aprendizado aplicado aos clones procura fornecer o menor volume de conhecimento possível. Soa como um déjà vu se colocarmos o filme lado a lado com o romance de Huxley. Não estaríamos, então, apenas diante de uma clonagem biológica, mas também de uma clonagem mental, reflexo direto do monopensamento como afirmaria Jean Baudrillard, a qual todos estão sujeitos, inclusive nós, por conta da indústria cultural e da cultura de massa. A essa realidade cultural é possível agregar a polêmica afirmação de Susan Sontag de que não existe um inconsciente coletivo, mas um aprendizado coletivo. A individualidade, desse modo, se assemelharia poeticamente a uma bandeira trêmula para a liberdade. No filme, a geração de clones Echo e as subseqüentes a ela, a despeito de todo controle técnico-científico, escancarou a janela da inteligência emocional, ao ser detectado que o campo cerebral ocupado pela memória desenvolveu-se mais do que o esperado. Haviam descoberto a existência genética da memória. Os clones passariam a recordar aquilo que foi aprendido pelos seus originais. As falsas memórias em pouco tempo entrariam em conflito com as memórias genéticas e levariam o sistema à falência.
A despeito de tais filmes, o aspecto mais visionário da clonagem, entretanto, ainda está na perspectiva em escala industrial de “Admirável Mundo Novo”. Muito embora a engenharia genética ainda não tenha chegado tão longe, foi com a clonagem da ovelha Dolly, em 1996, que os rumos desse ramo da ciência passaram a influenciar também os contornos do imaginário ocidental. Esbarrando em limites éticos e religiosos, mesmo que sua existência por enquanto esteja restrita à literatura e ao cinema, o clone já se tornou parte da mitologia doppelgänger. O terror do personagem duplo ocupar o lugar do original duplicado é amplificado porque se assenta numa perspectiva assustadoramente realista e científica. A literatura fantástica apresentava quase sempre um jogo maniqueísta de forças entre o bem – o original – e o mal – o duplicado –, mas ao criar a imagem de um Adão às avessas, a ficção científica discute a problemática existencial sobre o que ou quem habita um ser clonado. No futuro do diretor Bay, por exemplo, os clones são apenas seres irreais, não-humanos, não-verdadeiros. São réplicas, cópias, reproduções. Considerados tão somente produtos comerciais que podem ser destruídos e refabricados, são meros dublês biológicos postos em cena quando a vida original está em risco, a despeito de emoções ou sentimentos que apresentem. Fazendo um paralelo com o conceito do antropólogo francês, Marc Auge, de não-lugares – espaços transitórios, provisórios, efêmeros e sem identidade, tais como aeroportos, shoppings centers, campos de refugiados ou auto-estradas, poderíamos imaginar uma supermodernidade futura, representada por um possível devir clônico, fundamentando o conceito de não-pessoas, referindo-se a corpos igualmente transitórios, provisórios e efêmeros?
A ciência forneceu uma nova fábula para a imortalidade outrora representada por fontes da juventude ou pela pedra filosofal dos alquímicos. A reprodução indefinida de si mesmo é o apelo contemporâneo e racional para as fantasias de imortalidade. Tal obsessão ancestral por sobrepujar a morte por meio da ciência aparentemente está envolta em um sentido de conquista sobre o tempo, de evolução, mas, ao contrário do que se pensa, a imortalidade deve ser vista como um processo de involução, de regressão a um estado de diferenciação mínima entre os seres, de repetição de seres idênticos. É o que afirma de maneira contundente Baudrillard no livro “A ilusão vital”. O filósofo argumenta que as primeiras criaturas da natureza eram imortais, no sentido de que, ao se reproduzirem assexuadamente originavam inúmeros seres idênticos entre si. A mortalidade, nesse sentido, constituiria uma evolução celular (e reprodutiva) que permitiu que cada ser fosse um exemplar único, singular, individual. Um possível retorno à imortalidade, portanto, deveria ser visto como uma condição patológica, semelhante à proliferação indefinida de um câncer. O destino dos seres artificialmente (re)produzidos, como provou até o momento o caso da ovelha Dolly, sofre de um processo de mortalidade mais rápido do que as espécies naturais. A degeneração celular é veloz e voraz. Mesmo que os seres possam ser reproduzidos infinitamente por clones, cada ser clonado possui um fim, uma morte entranhada e acelerada em si mesmo. Talvez porque outras leis, que poderíamos atribuir a um Deus ainda vivo, desestabilizem o pretensioso Verbo científico de (re)criação, perpetuação e perfeição.
Afastando-nos um pouco do plano ficcional, podemos verificar como o resultado das pesquisas científicas vem determinando as políticas adotadas por Estados Modernos, e vice-versa. Essa confusão entre os campos da ciência e da política não é difícil de ser constatada. Basta observarmos a legislação vigente no que tange a matérias como a limitação de experimentos com células-tronco, as campanhas de vacinação obrigatória, a liberação e a repressão à venda e ao consumo de cigarros, bebidas alcoólicas, drogas e entorpecentes. Junto a elas podemos acrescentar ainda as leis sobre a eutanásia e o aborto, exemplos ainda mais claros do quão íntima das esferas vitais tornou-se a política, a ponto de legalizar quando começa e quando termina a própria vida, ainda que esta permaneça uma questão controversa inclusive no meio acadêmico. Com essa presença polêmica, o Estado passa a gerir certos aspectos da existência e da saúde que dizem respeito a uma decisão retirada do indivíduo e transferida à esfera pública, com o aval científico ou pseudocientífico.
É nesse âmbito que podemos inscrever o termo “biopolítica”, cunhado por Michel Foucault em 1974. Na ocasião, o pensador alertava para o fato do capitalismo não ter acarretado numa privatização da medicina, mas em uma socialização do corpo. A biopolítica passaria então a ser inserida dentro de uma estratégia maior, denominada “biopoder”. Contrapondo soberania, historicamente anterior, ao biopoder, torna-se evidente a relação mantida por cada qual entre vida e morte: enquanto o poder soberano faz morrer e deixa viver, o biopoder faz viver e deixa morrer. Explicando melhor, podemos dizer que a soberania encarava a vida e a morte como fenômenos naturais, exteriores ao campo político. O soberano era responsável não pela vida, mas pela morte, uma vez que detinha o direito de retirar a vida alheia. Matar ilustrava o poder absoluto do soberano. Todavia, a partir dos séculos XVII e XVIII, o ritual da morte, em que a vítima passava do poder terreno para o divino, passou a ser visto como o momento em que o indivíduo escapava de qualquer autoridade, passando da esfera coletiva para a privada. Conseqüentemente, o interesse se deslocou do poder matar, para fazê-lo viver, retirando a morte de seu âmbito. Um grande exemplo dessa virada são as guerras que, ao invés de se travarem em nome de um soberano, passaram a ser disputadas em nome da existência de todos. Trata-se do discurso da vida, da sobrevida e da sobrevivência: não mais a lógica da soberania, mas a lógica biológica de uma luta pelo resguardo da população como um todo.
Também cabe evidenciar que a partir do século XVII escolas, hospitais, fábricas e casernas auxiliaram na tarefa de transformar e gerir o corpo humano como uma máquina adestrada, otimizada e controlada, visando um corpo dócil e disciplinado. Todavia, em meados do século XVIII entrou em pauta a gestão da vida, quer dizer, não mais junto aos indivíduos, mas na esfera pública, que passa a abordar a população enquanto espécie. Abandonando aquele primeiro corpo-máquina, somos colocados diante de um corpo-espécie, regido por processos biológicos, como nascimento, mortalidade, nível de saúde e longevidade. Temas como saúde pública ou natalidade passam a depender de decisões estatais. Foucault esclarece assim que, a uma tomada de poder individual, segue uma massificante, maciça, total. O poder já não se exerce sobre sujeitos de direito, cujo limite é a morte, mas sobre seres vivos, biológicos, de cuja vida ele deve encarregar-se, na forma de um biopoder. Em sua célebre frase, retomada por Giorgio Agamben em “Homo sacer” (1995), “o homem era um animal vivente capaz de uma existência política, agora é o animal em cuja política o que está em jogo é seu caráter de ser vivente”.
O resultado? A uma sociedade soberana, em que o poder concentrava-se no sangue, segue uma sociedade da sexualidade, que faz a ponte entre corpo e população, e, quem sabe, seguirá uma do genoma. Seguindo por este caminho, deparamo-nos com a questão do racismo, uma vez que a biopolítica foi a responsável pela introdução do racismo nos mecanismos estatais. Deixar morrer o outro, o mais fraco, seria necessário para tornar a raça mais pura, mais forte, o meio mais sadio. Seja o mendigo da rua, seja o morador da favela ou o delinqüente encarcerado. Não significa mais eliminar os adversários, mas aqueles que representam qualquer perigo, inclusive na forma de uma herança genética indesejada. O ponto extremo dessa política foi marcado pelo nazismo, retratado de modo lúcido no documentário “Arquitetura da destruição” (Architektur des Untergangs, 1989/1992), de Peter Cohen. Evidenciando a preocupação maior de Hitler de criar de um mundo mais harmonioso, na forma de uma Alemanha mais forte e muito mais bonita, o diretor enumera, através de seqüências de imagens de comícios, passeatas, frentes de guerra e propaganda nazista, as políticas adotadas para esse fim. Nesse sentido, o fato do médico emergir como uma das figuras principais da administração do Terceiro Reich está intimamente ligado à política racial adotada. Em busca do sangue puro, são estes profissionais os responsáveis por apontar os inimigos: os judeus, os miscigenados e os “degenerados” (doentes mentais, artistas expressionistas e até soldados feridos). Defendendo que “o maior princípio de saúde é a beleza”, Hitler afirmava, já em 1935, que a ciência dispunha de métodos capazes de assegurar esse bem. É atendendo a tal proposta que o médico deixa de estar a serviço do indivíduo para curar o corpo da raça, quer dizer, o indivíduo tomado como coletividade cuja melhoria e preservação dependem de medidas estatais. Médicos e cientistas se confundem, assim, com o guerreiro biológico na luta contra as doenças que ameaçam o corpo coletivo: a higienização, tida como indispensável, acarreta no assassinato dos indesejáveis como a melhor terapia. O desejo da conquista universal da pureza, da busca pela perfeição e pela superioridade de um novo homem passando pelo crivo de uma pseudociência, como revela Cohen, foram os elementos responsáveis por desencadear a tragédia irreparável e sem precedentes dos campos de extermínio. Quer dizer, em prol de um determinado ideal acreditou-se necessária a destruição de tudo aquilo que fugisse a tal padrão, sejam construções históricas, obras de arte e, no abominável limite, seres humanos. Demolidos, destruídos e assassinados exatamente por aqueles a quem caberia os proteger: arquitetos, artistas, cientistas e médicos.
Não surpreende, então, quando o filósofo Giorgio Agamben situa a politização da vida nua como o evento decisivo da modernidade, visto que a vida nua encontra-se na intersecção entre os poderes jurídico-institucional e biopolítico. Assim, a sacralidade se descolou da figura humana, de modo que a própria vida dos cidadãos foi limitada cada vez mais à esfera biológica. Ecoa aqui novamente a imagem do Nazismo, uma vez que foi o primeiro Estado radicalmente biopolítico. Respaldados pela ciência, os nazistas retiraram no âmbito político toda a humanidade dos detentos antes de enviá-los aos campos de concentração. Reduzidos legalmente a corpos viventes, os detentos passaram a ser tratados, na expressão de Hannah Arendt, como futuros cadáveres. Legitimando a exclusão desses homens e mulheres de qualquer direito, o Estado poderia matá-los sem incorrer em crime algum. Além disso, ao subtrair os valores éticos na relação com o corpo do outro, criou-se uma situação perfeita para uma ciência experimental ilimitada, com a instituição de laboratórios de médicos-monstros como o Dr. Josef Mengele. Entre os primeiros a chegar a Auschwitz, foi um dos responsáveis por experiências com seres humanos nas quais injetou tinta nos olhos de crianças para alterar sua coloração, atirou pessoas em caldeirões de água fervente para testar as suas reações, amputou membros de prisioneiros, dissecou anões vivos e recolheu milhares de orgãos humanos. Eliminando não apenas judeus, mas toda a vida considerada indigna de ser vivida pelos padrões científicos de então, como a de deficientes, artistas expressionistas ou ciganos, a biopolítica transformou-se em tanatopolítica (política da morte) e o campo de concentração tornou-se seu paradigma contemporâneo. A questão fulcral deixa de ser como crimes hediondos puderam ser cometidos contra seres humanos, para ser uma tentativa de evidenciar quais dispositivos - científicos, jurídicos e políticos - permitiram que seres humanos fossem privados de todos os seus direitos e prerrogativas a ponto de serem reduzidos a uma animalidade matável, equiparados a insetos e piolhos.
Para finalizar, reiteramos como o fetichismo pelo conhecimento e pelo controle pode acarretar em uma ciência ilimitada, aquém do bem e do mau. Em seu gozo maior, imaginado pela literatura e pelo cinema, e mesmo retratado pelos livros de história, vemos a proliferação de micro-reinos – ilhas, cidades inteiras, países – fundados pelo cientista bizarro ou pelo bárbaro médico. São fantasias de poder ligadas ao domínio do conhecimento que ao mexerem com limites éticos, religiosos e estéticos só conseguem mostrar que, se levada ao catastrófico, a ciência atribui um valor biodegradável para os seres que a fundamentam, ou, se dominada por um governo distópico, tirânico e preconceituoso, só pode ser um braço forte para a mistificação e o controle. Torna-se preocupante pensar que, se nazismo e fascismo representam apoteoses da biopolítica, a democracia atual demonstra que também opera a partir do conceito de vida nua, de redução do indivíduo a um corpo biológico. Se o campo de concentração era o lugar onde havia uma indiscernibilidade biopolítica, esse paradigma se repete nas zonas de espera dos aeroportos internacionais, onde são revistados e detidos estrangeiros; em campos de refugiados na África e no Oriente Médio, de onde as pessoas são impedidas de sair; na base americana de Guantánamo, em Cuba, onde estão detidos suspeitos sem julgamento ou acusação formal; e em quaisquer outros lugares onde a ordem jurídica é suspensa e a suspensão torna-se a norma. Uma norma em que a biopolítica é a lei e para a qual um povo não passa do coletivo de corpos despersonalizados, a mercê do braço estatal. Se já é sintomático o fato de inúmeros Estados modernos tomarem para si a decisão sobre quantos filhos um casal deve ter, de quais doenças devem ser imunizados, se tem ou não o direito de botar um fim na própria vida, ou quais drogas é lícito que consumam, deveríamos olhar mais além para tentar enxergar o real alcance das novas decisões científicas em curso, envolvendo o início, o término e até a repetição da vida em sua forma clônica. Em outras palavras, devemos atentar para o fato de um ser humano ter sua própria humanidade discutida dentro de um laboratório e esse ato ser legitimado por uma política que, aliás, não é mais política, mas biopolítica.
Especial Ficções da Realidade
• Apresentação
• Parte 1 - Os aliens somos nós
• Parte 2 - Como um filme: o imaginário das catástrofes
• Parte 3 - Violência: entre o ato consumado e o consumista
• Parte 4 - Homem biopolítico, ciência biodegradável
• Parte 5 - A República dos Homens e o Império das Máquinas
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