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Adriana Zimbarg - Publicado em 27.01.2007

O Brasil foi o primeiro país da América do sul a ter um movimento eugênico organizado. A sociedade eugênica de São Paulo foi criada em 1918. O movimento eugênico no Brasil foi bastante heterogêneo, trabalhando com a saúde pública e com a saúde psiquiátrica. Uma parte, que pode ser chamada de ingênua ou menos radical do movimento eugenista no nosso país, se dedicou a áreas como saneamento e higiene, sendo esses esforços
  Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital
 


 

sempre aplicados em relação ao movimento racial.

A doutrina chamada de “vocação agrícola” era aceita pela elite brasileira, pois mantinha os trabalhadores do campo afastados das cidades grandes. Enquanto os trabalhadores estavam residindo na zona rural, eles e suas famílias teriam garantias de ter estabilidade econômica, proteção à saúde.

Nas cidades a higiene passou a ser o assunto mais divulgado pelos eugenistas, a formação de uma população sadia e sem conflitos: saúde mental e moral eram exemplos de uma raça desenvolvida, fatores externos como doenças e alcoolismo eram fatores que contribuíram para a degeneração da raça.

Foi nessa época que o famoso sanatório “Pinel de Pirituba” foi fundado, um local usado como depósito de pessoas que não eram aceitas pelos padrões eugenistas. Um dos argumentos para a pessoa ser mandada para o “Pinel” era que muitas vezes as pessoas eram inaptas a se adaptar ao meio urbano, e por isso desenvolviam estados psicóticos juntamente com complexos de perseguição. Porém, para ser mandado para uma instituição menta, bastava fazer parte do que qualquer movimento de oposição. Ativistas políticos, feministas que poderiam ser uma ameaça à família, e muitos outros que apenas reivindicavam alguns direito básicos eram considerados fora do padrão de conduta, e por isso seriam separados da sociedade.

Renato Kehl foi o fundador da sociedade eugênica no Brasil, e seu divulgador mais entusiasta. Entre 1917 e 1937 ele publicou dezenas de livros sobre o assunto e foi literalmente o seu maior defensor.

Inicialmente Kehl foi o que pode ser considerado até um pouco ingênuo, achando que eugenizar seria parte apenas do movimento de sanear, sem ter idéia de que as leis de aperfeiçoamento da espécie chegariam a ser utilizadas de modos tão radicais como os imaginados pelos sócio-darwinistas.

No final dos anos 30 Kehl, já conhecendo bem o movimento, começa a publicar material mais agressivo e radical sobre a eugenia, chegando a ser o defensor da esterilização de sujeitos considerados alienados e criminais. Em 1937, Kehl passa a declarar que não existe cura para os males sociais, que eles só poderiam ser tratados com o aperfeiçoamento da espécie, afirmando assim a política eugênica no Brasil, como uma eugenia que teria que lidar com os fatores biológicos e não só sócio cultural.

Em 1947 Kehl encerra sua carreira como eugenista, provavelmente porque após o holocausto, e com a quantidade de mortes que sua ideologia trouxe, se tornou muito difícil achar argumentos para continuar defendendo o desenvolvimento de uma raça pura.

Belisário Penna explorou o abandono rural e a superpopulação nas cidades grandes. Os problemas de saúde rurais são o seu maior foco de trabalho. O aumento de doenças, segundo Penna, foram co-relacionadas à abolição da escravatura, que levou indivíduos sem o menor conhecimento de higiene pessoal, que antes formavam parte de um contexto, mesmo sendo escravos, a serem agregados a uma sociedade, tornando-os seres produtivos.

O argumento de Penna era que a libertação desses indivíduos fez com que eles se tornassem marginais, habitando a periferia das cidades ou locais extremos, onde se entregavam a bebida e as orgias, deixando para trás todas as marcas de uma civilização desenvolvida, especialmente no campo de higiene. Penna chegou a dizer que muitos dos escravos após a abolição retornaram ao seu estado primitivo e quase selvagem.

Muitos autores eugenistas usavam como exemplo a população brasileira, para provar que a liberdade racial iria encher o mundo de mestiços, levando o mundo a promiscuidade, sendo esses cruzamentos nada mais do que a prova viva da degeneração da raça pura.

Havia uma divergência de opiniões dentro do movimento eugênico no Brasil. Uma parte dos eugenistas dizia que seria por meio da miscigenação que o Brasil desenvolveria o seu próprio futuro eugênico. Essa miscigenação contava com a mistura entre os ex-escravos e os imigrantes europeus, que já traziam com eles os genes superiores da raça branca, proporcionando um futuro mais puro à nossa população.

E quando se fala em raça pura trazer benefícios genéticos, a primeira pessoa que deveria ser citada no Brasil é Machado de Assis, provavelmente o maior escritor da literatura brasileira, que era “mulato”. Ele nunca foi visto como uma mistura de genes puros com impuros. Machado era uma exceção, um fenômeno diferente, uma aberração positiva da natureza.

O nosso Machado, com suas palavras e histórias, conquistou o coração e a admiração do meio intelectual, que até então era somente aberto para brancos. Esse homem era considerado pelos eugenistas nada mais do que uma aberração positiva da miscigenação entre raças, um acaso, uma semi-raça em vias de desenvolvimento.

Mesmo tendo Machado do Assis como prova de que a mistura entre raças não era uma idéia tão terrível, o Brasil continuou sendo citado entre os meios racistas e os sócio-darwinistas da Europa, como exemplo de sociedade degenerada pela miscigenação racial, uma maneira muito educada de nos chamar de promíscuos.

Gobineau esteve no Brasil de 1969 a 1870, e quando voltou a sua terra disse a seus companheiros de movimento que aqui ele encontrou a prova viva de que a miscigenação das raças causaria a degeneração da espécie humana.

Segundo suas observações, o Brasil não tinha conhecido o desenvolvimento econômico social, pois fatores como o clima e a mistura entre raças inferiores haviam gerado uma população preguiçosa, indisciplinada e pouco inteligente. Por mais estranho que pareça, mesmo após tantos anos terem passado, até hoje ainda existem pessoas que continuam pensando em nós, brasileiros, da mesma maneira.

Kehl propôs meios de transformação da sociedade por adoção das seguintes estratégias: exame pré-nupcial, castração, esterilização e educação higiênica. Essas normas básicas tinham como intuito melhorar a cara do nosso povo, considerado doente, pobre e inculto.

A esterilização, principalmente de indivíduos negros que fossem considerados suspeitos de qualquer anomalia ou crime, reduziria de maneira poderosa a reprodução de degenerados, porém a eficácia do método não é imediata. E demoraria várias gerações para que os mestiços não mais apresentassem vários dos defeitos das raças inferiores, tais como a preguiça e o parasitismo.

Alguns intelectuais consideravam esse problema de origem vital. Monteiro Lobato afirmava que o fator que dominava a sociedade brasileira não era biológico, e para ele e seu grupo a solução para os problemas da nossa pátria seria a eugenia, aplicada de maneira ativa e a higienização usada de maneira educativa.

Tanto a eugenia positiva como a negativa foram divulgadas no Brasil com o objetivo de exterminar os símbolos da degeneração racial. Entre campanhas contra o alcoolismo e proliferação de doenças, existiam teorias que pregavam o embranquecimento da população, produzindo o que seria chamado de “tipo nacional”, que poderia ser chamado carinhosamente de eugenismo com o jeitinho brasileiro.

Para que o tipo nacional pudesse prevalecer, os eugenistas sabiam que teriam que tomar atitudes radicais tais como a esterilização, pena de morte, controle na entrada de imigrantes, exame pré-nupcial, proibição do casamento inter-racial e os portadores de doenças contagiosas teriam que ser confinados e observados. Foi neste contexto complexo e, sobretudo, confuso, que aconteceram os chamados crimes do preto Amaral.

Continua amanhã.

Especial - A história da eugenia e os crimes do Preto Amaral
Parte 1 - Introdução (23.01)
Parte 2 - Eugenia no mundo (24.01)
Parte 3 - Nietzsche e o super-homem (25.01)
Parte 4 - Movimentos eugenistas (26.01)
Parte 5 - Eugenismo e eugenia no Brasil (27.01)
Parte 6 - A história de Orfeu e Eurídice (28.01)
Parte 7 - A peça "Os Crimes do Preto Amaral" (29.01)

Adriana Zimbarg é editora do site www.minharua.com.
  Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês Monteiro Lobato, escritor brasileiro, autor do livro eugenista O Problema Vital Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês
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