Os crimes do preto Amaral e a história de Orfeu e Eurídice - A história da eugenia e os crimes do Preto Amaral - Quem foi o Preto Amaral? < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Adriana Zimbarg - Publicado em 28.01.2007

Essa foi a matéria que me levou mais tempo para escrever. Talvez porque o tema abrangido por ela seja um tanto quanto delicado e muito polêmico, ou talvez tenha sido porque a realidade por trás do tema seja muito maior do que eu possa sonhar em descrever com palavras.
  Mitologia grega - A história de Orfeu e Eurídice
 


 

A peça “Os crimes do preto Amaral” foi baseada no mito de Orfeu e na história do preto Amaral, que supostamente teria sido o primeiro “Serial Killer” brasileiro.

A história de Orfeu e Eurídice faz parte da mitologia grega. Essa história de amor talvez seja a mais adorável das lendas da mitologia grega.

Orfeu era o músico mais talentoso entre os Deuses e mortais. Tudo parava quando o jovem tocava a lira, que ganhou de Apolo. Orfeu era casado com a belíssima Eurídice, que ao fugir de um homem que a perseguia, tropeçou em uma serpente que a picou. Eurídice morreu por causa do veneno da serpente.

Orfeu pegou sua lira e foi até o mundo dos mortos, para tentar trazer a sua amada de volta a vida. Venceu todos os obstáculos um a um, com a sua música, e chegou até Hades, o rei dos mortos, e sua esposa Perséfone, que devido à beleza da música do rapaz pediu a seu esposo para que ele deixasse o belo rapaz levar sua amada de volta para o mundo dos vivos.

Hades atendeu o desejo com uma condição, que Orfeu não olhasse para ela até que eles estivessem a luz do sol. Orfeu partiu com Eurídice para fora da escuridão da terra dos mortos. O rapaz durante todo o caminho de volta não olhou uma vez se quer para trás, e com sua lira produziu os sons mais doces. Quando chegaram perto da saída da trilha, ele olhou para trás, talvez para ver se sua amada estava bem ou quem sabe para ver se ela o estava acompanhando. Foi nesse momento que Orfeu viu Eurídice pela última vez: seu corpo mais uma vez se tornou um fantasma e a bela Eurídice foi levada mais uma vez de volta a terra dos mortos. Orfeu sabia que neste exato momento ele havia perdido seu amor para o resto de sua vida.

O nosso herói que cruzou o mundo dos mortos para ter sua amada de volta, após esse acontecimento, nunca mais sorriu, nunca mais tocou sua lira e nunca mais olhou para nenhuma outra mulher, até que as Mênades cruzaram o seu caminho, e sentindo-se desprezadas por Orfeu, o mataram e jogaram sua cabeça no rio Hebrus. A cabeça de Orfeu flutuou nas águas e de sua boca saia a melodia do nome de Eurídice.

Chorando, as nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no monte Olimpo. Dizem que desde então os pássaros cantão mais docemente, pois Orfeu esta finalmente junto com Eurídice.

A história de José Augusto do Amaral, com 56 anos, nascido em uma pequena cidade no estado de Minas Gerais, filho de uma escrava, infelizmente não é tão romântica quanto a história do Orfeu ou tão bela quanto à figura de Eurídice.

José Augusto do Amaral ou “preto Amaral” ficou conhecido na história como o primeiro “serial killer” brasileiro, por ter assassinado três jovens rapazes e cometido necrofilia com os corpos ainda quentes. Então, como você pode ver, os crimes do preto Amaral não vão trazer poesia e encanto, porem pode ser que abram os seus olhos para algo muito mais forte, que vai além do amor e da rotina.

Todos os fatos que eu posso ter certeza sobre esse assunto que, de dissertação de doutorado virou uma peça de teatro, é que Amaral faleceu na cadeia antes de ser levado a julgamento. Como ele faleceu?

Infelizmente certas perguntas têm respostas que não são agradáveis de dar. Amaral foi preso, torturado, confessou todos os crimes dos quais estava sendo acusado, e quem sabe provavelmente o que mais se passou neste período entre o interrogatório, a confissão e sua morte.

Amaral antes de ser preso era um andarilho: foi ao Espírito Santo, Bahia, Ceará, Argentina, Bolívia, Uruguai e vários outros locais. Ele também foi parte do primeiro batalhão da brigada policial e de vários outros batalhões, sendo que ele, na maioria, acabava por desertá-los. Até que em Bagé ele se juntou a o exercito nacional, onde ao desertar foi preso, e teve que responder ao conselho de guerra. Foi condenado a sete meses de prisão no quartel.

Após esse incidente, Amaral não deixou a carreira militar e também não deixou para trás seu hábito de desertar, fato que é compreensível quando se é negro no começo do século passado.

Quando levado para depor, o preto Amaral confessa que após um mês e meio depois de ter chego a São Paulo que ele cometeu o seu primeiro crime. A vítima teria sido um rapaz branco e aparentava cerca de 17 anos. Lendo os documentos, a confissão de Amaral me parece linear e muito clara, como se fosse ditada ao investigador sem pausas.

Supostamente o segundo crime atribuído a Amaral foi um menino de cerca de 10 anos, e sua confissão começa um pouco rebuscada, sem muitas certezas nas primeiras linhas, porém logo toma uma forma semelhante a do primeiro crime. Amaral trava conhecimento com a vítima, se torna conhecido da pessoa, ganha a confiança da futura vítima e convida-a para um local no qual ele consegue dominar a pessoa, sufocá-la e logo após cometer necrofilia.

O terceiro crime acontece durante uma longa história, envolvendo Amaral, botequins, dois amigos, e muita caminhada. Existem três grandes diferenças nesse crime em comparação com os outros dois: 1) Na confissão de Amaral conta que, durante a caminhada, contou ao menino sua intenção de usar o corpo do pequeno para a pratica de coito anal. Segundo o depoimento da vítima, esse após ouvir as intenções do acusado não teve nenhuma reação, se manteve calado e caminhando juntamente com o mesmo.

2) Amaral atirou a vítima ao solo e praticou coito anal com esse ainda vivo. Após o coito, com o menino ainda agonizando, ele o matou com o uso de um cordão, que segundo o depoimento pertencia à vítima. 3) Pela primeira vez o declarante remove o corpo de sua vítima do local onde o crime foi cometido e o leva para outro local.

No final do interrogatório, Amaral declara que não conhecia nenhuma das vítimas anteriormente, porém afirma que os menores eram crianças; afirma também que ele estava nas proximidades do mercado (provavelmente se referindo ao mercado central) quando foi intimado para comparecer a delegacia e que nada mais podia dizer sobre os crimes fora os fatos que já tinha narrado.

Amaral, por ter se declarado analfabeto, não teve o direito de ler ou assinar seu próprio depoimento. O documento foi assinado por testemunhas presentes.

Entre os três crimes que foi acusado, Amaral pode provavelmente não ter cometido dois: em um deles seu álibi era de que não se encontrava na cidade de São Paulo e o outro crime aconteceu enquanto Amaral estava detido.

Desde que eu comecei a ler sobre os casos do Preto Amaral, acabei levantando várias questões que infelizmente me proíbem de afirmar se Amaral foi culpado ou inocente.

A busca pela verdade às vezes é inútil, principalmente quando a pessoa em questão falece antes do julgamento. Porém, sabemos que quando Amaral foi intimado por policiais para ir até a delegacia de polícia dar seu depoimento de “livre e espontânea” vontade, ele acabou contando aos investigadores que ele teria sido o culpado do crime, e que além de ter assassinado e currado o jovem em questão ele teria cometido outros dois crimes da mesma natureza.

Nesse momento, em circunstâncias normais, o interrogatório pararia e Amaral teria direito a chamar ou nomear um advogado, que deveria conversar com seu cliente e de alguma maneira tentar ampará-lo, antes que qualquer depoimento fosse concluído. Esse suposto advogado, que nunca apareceu, deveria ter lido e assinado a confissão do preto Amaral, pois o mesmo era completamente analfabeto.

O fato que me deixa confusa nos parágrafos acima é a idéia de que quem em sã consciência iria confessar crimes tão brutais assim durante um simples interrogatório, especialmente quando neste caso, em que ele estava vivendo em um momento no qual a sociedade estava praticamente enamorada com a idéia de higienização e do movimento eugenista.

Fazia pouco tempo que a abolição da escravatura tinha acontecido, e honestamente, essa liberação de um dia para o outro foi apenas um pretexto para se livrar dos escravos que geravam gastos e contratar imigrantes que trabalhavam livres, mas que, com o passar do tempo, criavam uma dívida financeira que acabava os transformando em eternos serventes.

Quanto aos escravos, eles foram simplesmente extraídos de suas vidas aprisionadas para serem transformados em marginais por uma sociedade hipócrita, que pregava a abolição da escravatura, porém que nunca pensou em dar condições básicas para que os ex-escravos pudessem ter alguma chance de estabelecer um modo de vida descente.

A maioria dos escravos libertados não sabia ler ou escrever. A única coisa ensinada a eles era trabalhar, na maioria das vezes em campos e lavouras, espaço que agora era dado a imigrantes europeus, que eram brancos, ou seja, eram pessoas que, segundo ao movimento eugenista pertenciam a uma espécie mais desenvolvida e superior aos negros.

Posso afirmar que no primeiro passo que Amaral deu dentro da delegacia de polícia, ele já era considerado culpado pelo menos de um crime: ser negro, por tanto pertencente a uma raça inferior. O fato que Amaral tinha desertado a força militar várias vezes e já tinha passado pela cadeia anteriormente, também foram fatores que ajudaram para criar esse mito que foi atribuído a ele de monstro.

A verdade é que nós nunca vamos descobrir o que aconteceu realmente entre as quatro paredes em que o preto Amaral estava sendo interrogado. Tudo o que nós sabemos é que ele entrou nessa sala sendo um homem e saiu dela um monstro, violento, cruel, um ser que definitivamente não deveria fazer parte da sociedade, um vagabundo, sádico e necrófilo, que faleceu antes de ser julgado ou condenado culpado, perante uma corte e um juiz.

Não importa se José Augusto do Amaral era gay, tinha problemas mentais, era pobre, preto, viciado. O fator marcante nessa tese/ peça é que ela faz com que as pessoas se lembrem da professora de educação moral e cívica da 7° série. Sabe, aquela aula que todo mundo achava um porre, porque na verdade essa matéria nunca teve a liberdade de ser aplicada trabalhando com a verdade ou com a nossa realidade social. Porém é certo que a sua professora chegou a comentar sobre essa tão polêmica palavra, que é “eugenia”. Contudo o assunto foi deixado lá para trás, como apenas mais um nome, citado no meio de uma aula cuja palavra “moral” jamais deveria ter sido atribuída.

É obvio que o fato de Amaral ter falecido antes de ser julgado não o torna inocente. No entanto, se fomos nos basear na lei de que nenhum homem na pode ser considerado culpado até que se prove ao contrário, existe uma enorme margem para discussão sobre o fato que José Augusto do Amaral não pode ser considerado o primeiro “serial killer” do Brasil, e que seu nome deve ser retirado do museu do crime. Não em caráter definitivo, porém em caráter provisório até que seu caso seja, se possível, reaberto e a sua culpa ou inocência sejam estabelecidas.

Caso não seja possível provar que Amaral foi culpado ou inocente desses crimes seu nome deve ser mantido definitivamente fora dos livros, museus e todos os outros locais que estejam insinuando que ele seria um assassino. Processos e multas deveriam ser aplicados por difamação, até que essa história não seja devidamente abordada. Não existem provas concretas, fora um depoimento extraído não se sabe em que circunstâncias, sendo que o mesmo não contém assinatura ou marca do mesmo ou de um advogado de defesa, provando que foram essas as palavras ditas durante o interrogatório e se esse foi conduzido de maneira própria, sem o uso do recurso de violência ou força bruta no interrogado.

As testemunhas presentes deveriam ser pessoas neutras, contudo é obvio que neste caso as pessoas que assistiram o depoimento não eram desinteressadas na condenação do preto Amaral, que para muitos membros da sociedade nessa época seria a prova física da eficácia e da assertividade da teoria eugenista.

Especial - A história da eugenia e os crimes do Preto Amaral
Parte 1 - Introdução (23.01)
Parte 2 - Eugenia no mundo (24.01)
Parte 3 - Nietzsche e o super-homem (25.01)
Parte 4 - Movimentos eugenistas (26.01)
Parte 5 - Eugenismo e eugenia no Brasil (27.01)
Parte 6 - A história de Orfeu e Eurídice
Parte 7 - A peça "Os Crimes do Preto Amaral" (29.01)

Adriana Zimbarg é editora do site www.minharua.com.
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