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Viegas Fernandes da Costa - Publicado em 03.04.2007

O peixe era velho e barato, cheirava mal e tinha um aspecto terrível. Aproximei-me para ver como o alvoroço terminaria e, sob o olhar da vendedora que se divertia com a discussão, desviei os olhos para os “invólucros” da mercadoria, deparando-me com o jornal da véspera, cuja página exposta era justamente a coluna para qual eu escrevia. Oliveira, 1999, p. 91-92

  O livro e a leitura na modernidade
 


 

Quando Gutenberg cria, por volta de 1450, a prensa de tipos móveis, concede ao Ocidente o que os chineses já conheciam desde o século VIII: o livro impresso e sua consecutiva popularização. Até então os livros produzidos na Idade Média, os in-fólios, eram, por si só, verdadeiras obras de arte; manuscritos reproduzidos e ilustrados pelos monges copistas no interior dos mosteiros. Umberto Eco mostra em “O Nome da Rosa” que estes livros, apesar da pequena circulação que possuíam, dado as dificuldades da sua produção, estavam restritos a uma parcela muito pequena da população em função dos riscos que a leitura representava para o poder da Igreja. Escritos em Latim, língua universal de domínio quase exclusivo dos religiosos, estes livros, cujas páginas transportavam os conceitos e crenças da cultura clássica, serviam como objetos de estímulo a reflexão e contestação do saber oficial nas mãos dos monges. É neste sentido que no filme homônimo da obra de Umberto Eco, as páginas do 2º Volume da Poética de Aristóteles estavam envenenadas. Em verdade, as páginas envenenadas são a metáfora do veneno que o livro poderia representar, já que a reflexão possibilitada a partir da leitura poderia matar a fé e a ordem estabelecidas.

A multiplicação e popularização dos textos impressos na contemporaneidade fez com que os mesmos se dessacralizassem, ao ponto de virem a se transformar em embrulho de peixarias, como mostra a citação que abre este artigo. Técnicas revolucionárias de impressão modificaram as estruturas dos textos, seus suportes e funções. Segundo Chartier, “os livros são objetos cujas formas comandam, se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que podem ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis” (Chartier, 1994, p. 08). Isto significa que suportes diferentes geram práticas de leituras também diferentes. No século XIX, por exemplo, temos a proliferação dos jornais, lidos em qualquer lugar, dobrados, amassados, rasgados, e dos livros de bolso, das edições populares. Ocorre a proliferação da leitura, desejada pelo Estado mas ao mesmo tempo vista com preocupação. Obviamente esta preocupação com a proliferação da leitura não é exclusiva do século XIX, já existia muito antes, no momento mesmo das Reformas Religiosas. É o caso de Lutero, “que depois de ter dado a todos a Bíblia, traduzindo-a para o alemão, tem um movimento de recuo quando percebe que ela suscita interpretações (...) política e socialmente perigosas. Daí o retorno ao catecismo e ao ensinamento do pastor.” (Chartier, 1998, p. 109).

Esta “revolução da leitura” de que estamos falando, com a multiplicação dos seus suportes, ocorre antes mesmo do século XIX. Conforme Chartier, já na segunda metade do século XVIII ocorre em países como a Alemanha, Inglaterra e França a redução do preço do livro, a proliferação das sociedades de leitura bem como das bibliotecas de empréstimo. Esta proliferação da leitura no século XVIII se faz acompanhar ainda de outra “revolução”, que é a que diz respeito ao estilo da leitura, que passa da leitura “intensiva” para a leitura “extensiva”. Se durante a Idade Moderna o leitor caracteriza-se por ser um leitor “intensivo”, que memorizava através de constantes releituras os textos que dispunha, a partir do século XVIII surge o leitor “extensivo” “que consome impressos numerosos e diversos” (Chartier, 1998, p. 99).

Neste nosso movimento de recuo na “modernidade”, recorremos novamente a Roger Chartier para afirmarmos que a proliferação de bibliotecas institui uma nova norma de civilidade, que é a leitura silenciosa. Até a Idade Média o leitor era um leitor oral, “ruminante”, e durante a Idade Moderna o “padrão culto de leitura”, “erudito”, “civilizado”, será a “leitura dos olhos”. Também as práticas de leitura vão sofrendo profundas modificações no transcorrer dos tempos modernos em função das transformações nos suportes dos textos. O rolo, por exemplo, impedia que o leitor comparasse as diversas partes do texto. Com o surgimento do in-fólio a comparação de trechos localizados em páginas distintas torna-se possível. Porém o in-fólio, o suporte mais comum até o século XVII, por ser muito grande e ter que permanecer aberto sobre uma mesa, remetia ao estudo. Então, se o leitor tinha a facilidade de comparar trechos e fizer anotações nas margens das páginas, ao mesmo tempo tinha a sua leitura restringida aos “gabinetes”. Já o códex permitiu uma maior liberdade da leitura, sem que a mesma tivesse que se dar em um espaço fechado. É assim que no século XVIII passa-se a ter também a leitura de prazer, e não apenas de estudo. É a época em que proliferam pinturas que mostram o ideal romântico do leitor lânguido, lascivo, deitado em cavernas ou semicoberto por lençóis. A leitura libertina associada ao risco da libertinagem.

Ao falar da história da leitura, Chartier lembra que esta dá origem a funções: função do autor, do editor etc. O autor, da forma como o conhecemos hoje, é uma invenção da modernidade. Devemos lembrar, no entanto, que “os autores não escrevem livros: não, eles escrevem textos que se tornam objetos escritos, manuscritos, gravados, impressos e, hoje, informatizados” (Chartier, 1994, p. 17). Então esta figura do autor, ao qual se associa a autoria de um texto, era praticamente inexistente durante a Idade Média. Seu advento ocorre com a Idade Moderna como uma forma de controle do Estado e da Igreja. Da mesma forma como um autor temia a punição, passou também a desejar o reconhecimento, primeiramente material e depois intelectual, do seu trabalho. “Depois do nascimento da ‘função do autor’, coloca-se a questão da condição de autor. Os autores que tentarão viver de sua pena só irão aparecer realmente no século XVIII” (Chartier, 1998, 38-39). Surge assim o patrocínio ao autor (mecenato), onde este dedicava seu livro ao patrocinador (muitas vezes o próprio rei) e o reconhecia como co-autor, quando não o autor principal. É o que acontece com a obra “Les Fâcheux”, de Molière, dedicada a Luís XIV:

Na dedicatória da edição impressa, ele explica que todo mérito da comédia vem de uma cena que o rei lhe inspirou e que, afinal, Luís XIV é o autor, senão da totalidade da peça, ao menos da parte que lhe propiciou o sucesso. Em suma, o príncipe recebe aquilo de que, no fundo, ele é virtualmente o autor.(Ibidem, p. 40-41). A partir do século XVII, em países como a França e a Inglaterra, surge a figura do editor e, conseqüentemente, as primeiras leis de direito autoral, não para proteger o autor da obra, mas sim, seu editor, já que o plágio era uma prática bastante comum até então. No caso da França cabia ao rei conceder o direito de publicação a algum editor, porém a pulverização dos Estados europeus e o desfavorecimento dos editores distantes dos grandes centros permitiu a continuação da prática do plágio, ainda que proibido. Para concluirmos, gostaríamos apenas de reforçar a idéia de que no século XVIII ocorrem grandes rupturas nas práticas de leituras, tais como a leitura extensiva, silenciosa e liberta, e transformações nos suportes dos textos, provocando a sua proliferação e popularização, bem como criando novos “padrões de civilidade” na sociedade européia.

Referências Bibliográficas
CHARTIER, Roger. A Aventura do Livro: do leitor ao navegador. Trad. por Reginaldo de Moraes. São Paulo: Unesp, 1998.
CHARTIER, Roger. A Ordem dos Livros: Leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Trad. por Mary Del Priore. Brasília: UnB, 1994.
MACHADO, Roberto. Ciência e Saber: A Trajetória da Arqueologia de Foucault. 2 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
OLIVEIRA, Patrícia Helena de. O Conto Perdido. In. Conto Poesia: 3º concurso literário. Florianópolis: Sinergia, 1999, p. 91-97.
PEY, Maria Oly. Educação: O Olhar de Foucault. Edição experimental. Florianópolis: Movimento Centro de Cultura e Autoformação, 1995.
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