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Eduardo de Araújo Carneiro e Egina Carli de Araújo Rodrigues Carneiro - Publicado em 16.01.2007

"O mito fundador explica a origem de um povo em função de um passado glorioso, passado esse que não cessa de apresentar no presente".Marilena Chauí

O mito sempre fez parte da literatura amazônica. A região que comporta a maior floresta tropical do mundo desde sua conquista, pelos europeus, é alvo de lendas e fantasias a
  Rio Branco, Acre
 


 

respeito de suas riquezas naturais e dos nativos que nela viviam.

Dentre os mitos mais instigantes está o das amazonas, guerreiras indígenas que viviam em grupos alheios aos homens e que, segundo relatos, tinham um dos seios cortados. Essa "república das mulheres", para utilizar o conceito de Antônio Esteves em seu livro A ocupação da Amazônia, atraiu muitos aventureiros à Amazônia. Sabe-se que até o astrônomo francês Charles Marie de La Condamine, membro da Academia de Ciência de Paris, foi seduzido pela lenda, a ponto de pesquisar, entre os nativos, o local onde viviam essas mulheres.

Os conquistadores, muitas das vezes, motivaram-se exclusivamente em lendas ao virem à Amazônia, o caso das minas de Eldorado é apenas um exemplo. O certo é que os mitos cimentam valores e estimulam comportamentos.

O Acre também tem os seus mitos. Mitos que até hoje são cultivados por políticos e empregados com o fim de formar uma identidade cultural entre os membros dos diferentes grupos sociais e etnias no Acre.

A opção em narrar a história da anexação do Acre ao Brasil de forma épica e fantástica - em que o Acre é criado sob a égide de um grande herói, Plácido de Castro e a identidade dos acreanos é formada sob a influência do patriotismo dos seringueiros - é a base do mito fundador do Acre. De acordo com o mito, o povo acreano deve se orgulhar por ter como marca de "acreanidade" um passado fundacional gloriosa.

A historiografia oficial é o principal veículo de difusão do mito fundador do Acre. A serviço dos detentores do poder político-econômico, essa historiografia estabelece "sentidos" sobre a Revolução Acreana que são próprios da elite acreana.

Mostra como verdade algo que é apenas uma versão do fato histórico. Nega a possibilidade de reinterpretação e sufoca a polissemia, característica intrínseca da escrita historiográfica. Não significa, no entanto, que a versão oficial consiste em mentiras. Mas que ela é uma representação de um acontecimento histórico. Que se baseia em um "olhar" da classe dominante.

Devemos questionar a afirmação de que no Acre houve um passado glorioso, patriótico e revolucionário. É bom dizer que existem "leituras não autorizadas" sobre o passado acreano. O patriotismo e o termo revolução bem poderiam ser formas de dissimular a ganância que os acreanos tinha pelos lucros "astronômicos" da borracha e encobrir diversos crimes cometidos pelos Acreanos tais como: assassinatos, sonegação de impostos, invasão de terras estrangeiras, etc.

Façamos algumas perguntas triviais: Até que ponto os humildes seringueiros, semi-escravizados pelo barracão teriam se identificado com o "inferno verde" a ponto de irem a guerra por patriotismo? Teria sido Plácido de Castro o GRANDE responsável pela anexação do Acre ao Brasil? Pensar patriotismo e nacionalismo nos confins do Amazônia em pleno final do século XIX não seria um anacronismo? Percebemos que há muitas questões que não são mencionadas pelos escribas do poder.

Houve um processo de instauração do sentido único. A versão oficial foi historicamente legitimada e ideologicamente construída por um grupo social com objetivos sociais de dominação. O discurso fundador cria uma dependência entre os cidadãos e os heróis; transmite a idéia de um Estado sem conflitos sociais; forja uma unidade social em torno de um projeto político.

Não existe uma identidade acreana enraizada num passado fundacional. A Revolução Acreana não é um sítio de significância que atribui uma essência identitária ao acreano. A identidade não é fixa, ela é fluída. Enquanto a história oficial criar uma unidade, a linguagem espalha, pois os sentidos não têm referências, são essencialmente polissêmicos. A história é feita de rupturas e as identidades, de ideologias.

A história é escrita por pessoas que estão constantemente travando relação de poder uns com os outros. Impossível é escrever sem propagar os juízos de valor do grupo social a que pertence. Não há neutralidade. O mito fundador do Acre é um discurso produzido pelo homem branco e letrado. Não há espaço para as mulheres, nem para os índios, nem para os humildes seringueiros.

No Acre, os mitos estão em toda parte, inclusive em muitos textos considerados científicos. Crer em amazonas guerreiras que viviam na "república das mulheres" não é um mal maior do que crer no mito fundador acreano. Nesses casos, a história e a ficção se confundem. É a ciência pedindo auxílio à literatura para justificar uma prática opressora. Desmistificar a historiografia oficial é destruir um dos maiores instrumentos de dominação em nosso Estado. "A escrita em História em nada se diferencia do gênero literário" Peter Burke, historiador inglês.

Egina Carli de Araújo Rodrigues Carneiro é professora de história, pós-graduanda em História da Amazônia pela UFAC.

Eduardo de Araújo Carneiro é licenciado em História, concludente do curso de Economia e acadêmico do Mestrado em Letras pela UFAC e edita o blog História do Acre

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Quem foi Gálvez da minissérie Amazônia?
Erroneamente apontado como boliviano, Luis Gálvez Rodríguez de Arias nasceu em São Fernando, na região da Andaluzia (Espanha) numa tradicional família. Gálvez era jornalista e diplomata. Gálvez estudou ciências jurídicas, tornou-se diplomata na Europa. Seu vasto conhecimento não impediu seu espírito aventureiro de procurar o "Eldorado" na Amazônia. Tornou-se jornalista em Manaus no jornal Comércio do Amazonas, abriu um bordel com uma antiga amante (Lola). Decide partir para a conquista do Acre ao traduzir um documento da Bolívia. Proclamou a República do Acre em 1899, o qual governou entre 14 de julho de 1899 e 1º de janeiro de 1900 e 30 de janeiro e 15 de março de 1900. Gálvez morreu em Madri em 1935.

Quem foi Chico Mendes?
Francisco Alves Mendes Filho nasceu em Xapuri, Acre, em 15 de dezembro de 1944. Chico Mendes, como era mais conhecido, era seringueiro. Fundou um sindicato de seringueiros para preservar a profissão da extração madeireira indiscriminada e o desmatamento. Atuou na fundação do Conselho Nacional dos Seringueiros e ajudou a formular a proposta das Reservas Extrativistas para os seringueiros. Em 1987 Chico Mendes foi reconhecido internacionalmente com os prêmios "Global 500" da ONU e a "Medalha do meio ambiente" da Better World Society. Foi assassinado em frente de sua casa em 22 de dezembro de 1988, aos 44 anos. A justiça condenou os fazendeiros Darly e Darcy Alves da Silva pela morte de Chico Mendes.

Ficha da minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes
Horário de exibição: 23:00 às terças, quintas e sextas e 00:05 às quartas
Emissora: Rede Globo
Estréia: 2 de janeiro de 2007
Minissérie de Glória Perez
Direção: Pedro Vasconcelos, Marcelo Travesso, Carlo Milani, Roberto Carminati e Emílio di Biasi
Direção geral: Marcos Schechtman
Site oficial da minissérie Amazônia, de Gálvez a Chico Mendes
Elenco da 1ª fase:
José Wilker - Luis Gálvez Rodríguez de Arias | Alexandre Borges - Plácido de Castro | Cássio Gabus Mendes - Chico Mendes | Giovanna Antonelli - Delzuite | Christiane Torloni - Maria Alonso | Vera Fischer - Lola | Cacau Melo - Diná | Débora Bloch - Beatriz | Regina Casé - Maria Ninfa | José de Abreu - Coronel Firmino Rocha | Ilya São Paulo - Viriato | Osmar Prado - Gianni | Matheus Nachtergaele - Poeta | Malu Valle - Dona Júlia | Juca de Oliveira - José de Carvalho | Alessandra Maestrini - Soledad | Anderson Müller - Osmarino | Antônio Pitanga - Alcedino | Antônio Calloni - Padre José | Tonico Pereira - Genival | Betty Gofman - Amelinha | Eriberto Leão - Dianesco de Castro | Mussunzinho - Dico | Paulo Nigro - Tavinho | Brendha Haddad - Ritinha | Tarcísio Filho - Orlando Lopes | Luci Pereira - Jovina | Jackson Antunes - Bastião | Thiago Oliveira - Bento (Jovem) | Cacá Amaral - José Galdino | Leona Cavalli - Justine | Eunice Baía - Ayani | Eduardo Galvão - Joaquim Vitor | Tânia Alves - Dos Anjos | Neuza Borges - Zefinha | Franciely Freduzeski - Amparito | Victor Fasano - Gentil Norberto | Werner Schunemann - Rodrigo de Carvalho | Duda Ribeiro - Doutor | Márcio Vito - Clemente | Milena Toscano - Ilka Jobim | Suyane Moreira - Ianká | Sóstene Vidal - Honório | Magdale Alves - Angelina | Cláudio Janborandy - Benedito | José Ramos - Zuca | Ronaldo Dappes - Augusto | Val Perre - Vitorino
Elenco da 2ª fase:
Vanessa Giácomo - Ilza (Ilzamar Mendes) | Caio Blat - Xavier | Marcelo Faria | Camila Rodrigues | Emílio Orciollo Neto - Bento | André Gonçalves - Zuca | Dan Stulbach - Leôncio | Irene Ravache - Beatriz | Eva Todor - Branquinha | Júlia Lemmertz - Risoleta | Diogo Vilela - Juvenal Antunes | Letícia Spiller - Anália | Humberto Martins - Augusto | Fernanda Paes Leme - Adenoura | Patrick de Oliveira - Alípio | Kadu Moliterno - Governador Souza Braga | Jurandir Oliveira - Russo | Ernani Moraes - Coronel Tiburtino | Roberto Frota - Padre Freire | Cláudio Marzo - Ramalho Júnior | Odilon Wagner - Alarico | Paulo Betti - Gomes | Suzana Faini - Zeferina | John Vaz - Coronel Rojas | Leopoldo Pacheco | Pedro Paulo Rangel
Elenco da 3ª fase:
Lima Duarte - Augusto | Francisco Cuoco - Bento

Ficha do Estado do Acre
Região: Norte
Capital: Rio Branco
O Acre faz fronteira com: Amazonas, Rondônia, Bolívia e Peru
Mesorregiões: 2
Microrregiões: 5
Municípios: 22
Área: 152.581,4 km² (16º maior Estado)
População: 669.736 hab. IBGE/2005 (25º Estado mais populoso)
Densidade: 3,7 habitantes/km² (23º Estado com mais densidade de habitantes)
Clima: Equatorial Úmido
Fuso Horário: GMT-5 (Duas horas a menos que Brasília).

Indicadores do Acre:
Analfabetismo: 16,9% exceto população rural (2003)
Mortalidade infantil: 33,2% (2002)
Expectativa de vida: -
Índice Gini:
IDH do Acre: 0,697 PNUD/2000
PIB do Acre: R$ 2.716.123 mil (2003) = 0,2% do PIB do Brasil
PIB per capita: R$ 4.338 IBGE/2003
Quem nasce no acre é: acriano ou acreano (mais usado)
Sigla: AC
Ouça o hino do Estado do Acre (Versão WMA - 1,3 Mb)
Ouça o hino do Estado do Acre (Versão MP3 - 3,9 Mb)

Bandeira, brasão e mapa do Estado do Acre - AC
Bandeira do Acre
Bandeira do Estado do Acre - AC
Mapa do Acre
Mapa do Estado do Acre - AC
Brasão do Acre
Brasão do Estado do Acre - AC
 


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