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Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 07.03.2007

Outro dia, numa conversa com um amigo, surgiu uma lembrança, comum, dos tempos de infância: Nossas avós vestidas de preto.

Naquela época - e não faz tanto tempo assim - era tradição guardar luto, temporariamente, pela morte de um ente querido. O respeito era compartilhado por desconhecidos, que fechavam seus estabelecimentos, tiravam seus chapéus ou
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faziam uma grave reverência quando da passagem de um féretro. Mas não foi esse aspecto respeitoso o que mais marcou essa recordação, foram os enormes períodos de manutenção desse luto.

Minha avó materna enviuvou com menos de cinqüenta anos. Vestiu luto por um ano. Mas não deixou de sorrir. Findo o período, voltou a vestir roupas coloridas, viajar e conviver. Lembro-me de vê-la, já perto dos setenta, escalando pedras - intrépida e rindo a cada escorregão - para ver a "Cama de Anchieta", em Itanhaém e questionando, após a façanha concluída: "- Esse sujeito não tinha lugar melhor para dormir?".

A lembrança carinhosa de meu avô - pessoa maravilhosa - nunca a abandonou. Mas ela não deixou de viver em nome de sua ausência!

Continuando a "seção nostalgia", avancei um pouco a máquina do tempo e fui parar em Portugal, 1986, cidade do interior, mas nem tanto.

Lá existiam três primas, todas por volta dos sessenta anos, todas vestindo luto. Delas, duas o faziam em nome dos maridos, a terceira por solidariedade a elas. Os maridos já haviam morrido há alguns anos, mas parecia algo extremamente recente. Mas não foi isso que me intrigou. Duas coisas chamaram minha atenção: Primeiro, as duas viúvas haviam transferido suas posses para os filhos e viviam na casa de um parente próximo. Moravam em condições espartanas, com mobiliário mínimo e tosco. Segundo, numa conversa sobre tempos de juventude, uma delas - a mais nova - após exibir um largo e espontâneo sorriso, fechou o rosto abruptamente e pediu desculpas! Quando indaguei o motivo do arrependimento, ela respondeu: "Não devo sorrir, pois perdi minha maior alegria: meu marido!"...

Fiquei perplexo, ainda mais por constatar o assentimento das outras primas e a naturalidade com que os outros membros da casa aceitavam suas "mortes". Tradições? Bem, cada povo tem as suas...

Admiro os irlandeses, que festejam a morte. Faz sentido, pois se passamos a vida acreditando na vida eterna e no paraíso, a morte - apesar de representar uma inevitável perda - devia ser motivo de regozijo! Os budistas também cultuam a memória de seus mortos sem se mortificar.

É impossível não sofrer com a morte de um ente querido, mas é um absurdo penalizar os que ficam, com tradições esdrúxulas e anacrônicas.

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