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Janos Biro - Publicado em 10.05.2007

A evolução não gera máquinas, ela gera vida. A idéia de que a evolução só é capaz de gerar “máquinas orgânicas”, e só um criador divino pode criar vida é puro dogma. A natureza não precisa de um criador externo para gerar vida inteligente e autônoma. Ninguém montou a "intricada engenharia da vida", acreditar nisso é reduzir a teoria da evolução a um fenômeno sem sentido. O princípio da vida é a autonomia criativa, negando-se isso, nega-se todo o fundamento da evolução. É por isso que aceitar a
  A idéia de que a natureza não poderia gerar seres tão inteligentes quanto nós, mas apenas 'máquinas orgânicas', sem capacidade de escolha e sem liberdade...
 


 

teoria da evolução é tão difícil para pessoas que acreditam no ordenamento pré-determinado do mundo, onde tudo que acontece se justifica como predestinado. Isso reduz nossa liberdade e nossa responsabilidade, uma vez que tudo que fizemos era “inevitável”. A teoria do design inteligente é como a tentativa reducionista dos positivistas lógicos, é um projeto tendencioso e imparcial, cujas justificativas são tão válidas quanto as justificativas da eugenia e da superioridade ariana. Ambas se baseiam na crença de que é possível conhecer o ordenamento do mundo, posto que ele é pré-determinado.

O preconceito mais prejudicial da nossa era é a idéia de que o universo inteiro foi feito exclusivamente para nosso benefício. Nossa sociedade não permite a imparcialidade de credos, ela explicitamente favorece crenças baseadas neste preconceito, enquanto desfavorece o resto. O argumento de que “não existem ateus, pois todos os homens acreditam em uma força superior” expressa isso. O problema é que uma força superior não é a mesma coisa que um criador inteligente e externo à criação. Seria possível aceitar sequer essa hipótese sem negar a necessidade de um Deus? Qualquer um que diga que a própria natureza é a força que rege o universo, e que não existe um criador inteligente externo, estaria afirmando algo impossível, uma vez que está negando algo necessário. Neste dilema, os teístas devem logicamente escolher entre intolerância ou não-necessidade divina.

Fica mais complexo quando percebemos que a humanidade passou a maior parte de sua história sem o conceito de criador externo. As únicas forças superiores eram as próprias forças sensíveis da natureza. Dizer que essa crença “evoluiu” até se tornar s religiões que temos agora se torna indefensável uma vez que observemos que nossas religiões surgiram apenas no último instante da história humana. Uma evolução, supostamente gradual, não poderia ficar dezenas de milhares de anos estacionada num estágio inicial para decolar espantosamente somente nos períodos mais recentes da história humana, principalmente surgindo em confluência com a civilização, que é um evento cultural. Obviamente existe uma falha no argumento dessa “evolução natural da religião”, uma falha impressionantemente ignorada pelos teólogos. Se for defensável que a religião é uma característica intrínseca do ser humano, e não apenas uma estrutura cultural, então seria igualmente defensável que a agricultura expansiva também é uma característica intrínseca. “O homem tem necessidade de se comer”, seria tão justificável para isso quanto “o homem precisa acreditar em algo superior” seria para a religião. Mas uma coisa não leva necessariamente a outra, pois cultivar campos extensivamente para acúmulo de alimentos e acreditar em num criador inteligente e externo ao universo são características culturais, não biológicas.

Outro argumento retórico é refletir seu próprio fundamentalismo na crença dos seus oponentes. Alguns teístas afirmam que o ateísmo é “a religião mais fundamentalista que há”. A distinção sendo ignorada aqui é entre negar a existência de Deus e não ter o conceito de Deus. Muitos ateus são realmente tão dogmáticos quanto os teístas, porque são cientificistas, mas não todos. Esse preconceito é pela crença de que a verdade absoluta é necessária a todo ser humano. Aquele que não aceita a verdade religiosa deve aceitar a verdade científica, e vice-versa. Isso se expressa na frase: “Se não acredita em Deus, então como explica os mistérios do universo?”. O que implica que esses mistérios podem ou devem ser explicados de alguma forma, e que só há duas formas de explicá-los: ciência ou religião. Outra frase similar é: “Acredito em Deus porque o conhecimento científico é limitado demais para compreender o universo, logo, o universo só pode ser explicado pela religião”. O que é apenas uma repetição do mesmo pressuposto. “Mas todos nós buscamos e queremos respostas”, pode-se dizer. Sim, mas porque isso implicaria na verdade de um ou outro tipo de resposta? O fato de a ciência ser limitada não implica que a religião possa completá-la, assim a limitação da religião não implica na verdade da ciência. Essa crença parece se basear numa antropomorfia do conhecimento: “Se eu não sei, alguém deve saber”, o que de forma alguma se justifica.

O mais irônico é a tendência de unir ciência e religião como se essa união gerasse um conhecimento completo sobre o universo. Mas se, de acordo com os próprios propositores da “síntese”, ciência e religião nunca foram opostas, mas sim caminharam lado a lado, então como a união de ambas pode ser a síntese do conhecimento humano? A falsa bifurcação, mesmo quando é quebrada, serve para justificar este totalitarismo epistemológico.

O conceito de que “se o mundo foi criado, foi criado por um ser inteligente e externo à criação” é tão forte, que leva a crer que qualquer um que não acredite neste tipo de criador, não acredita em qualquer tipo de criador. Em outras palavras, não é permitido acreditar num criador intrínseco e não-inteligente, que não planejou tudo previamente. Uma conceituação errônea de caos faz as pessoas pensarem que não haveria tanta ordem se o mundo não tivesse sido planejado. Padrões ordenados emergem do caos sem nenhuma influência externa, com tanta naturalidade que o que seria realmente impressionante é se eles não emergissem. Ou seja, se o caos não criasse qualquer tipo de constância, isso sim seria de se admirar, e não o inverso.

A idéia de que a natureza não poderia gerar seres tão inteligentes quanto nós, mas apenas “máquinas orgânicas”, sem capacidade de escolha e sem liberdade, é fruto da crença que nossa complexidade, nosso grau de ordenamento está muito acima do resto dos animais, ou seja, somos muito mais superiores que eles, tão superiores que quase não há relação de continuidade entre nós e eles. Tendemos a achar que tal continuidade seria uma redução do humano ao pré-humano, o que obviamente faz tão pouco sentido quanto um salto abismal entre ambos. O que nos faz ver outros animais como “máquinas orgânicas” é que identificamos neles a falta de alguns elementos, os elementos humanos. São meros detalhes para a evolução como um todo, mas para nós são de importância vital. Mas toda diferença específica é de importância vital a cada espécie.

Nossas novas capacidades nos fazem únicos, mas todas as espécies são únicas. Elas não estão privadas da liberdade, no sentido amplo, mas sim privadas de liberdade humana, como não poderia deixar de ser. Mas os graus de liberdade entre humanos e não-humanos não são descontínuos. Então porque o fato do ser humano ser um animal limitaria suas capacidades? E como dizer que o fato dos chimpanzés serem muito próximos dos bonobos limita as capacidades de um a outro. As diferenças entre as capacidades de primatas não-humanos são tão grandes quanto a diferença entre as capacidades humanas com qualquer dos outros primatas. Não há pretensão nenhuma de reduzir as capacidades únicas dos homens ao dizer que eles são produtos da evolução, e não de um criador inteligente e exterior. A postulação de um criador inteligente e externo não é necessária para explicar o fenômeno da vida, mas sim uma grande hipótese “tapa-buraco”, que também é desnecessária, porque os “buracos” só incomodam as pessoas que tem a convicção de que o universo funciona de forma racional.

A evolução gera vida, não máquinas. Transformar a vida numa maquinaria é o objetivo do cientificismo, não da ciência. Transformar a vida em algo supranatural, negar sua naturalidade, é o objetivo da religião, não de uma “força superior”. Não precisamos nos orientar por essa dicotomia para buscar sentido para nossas vidas. A vida tem sentido intrínseco, nunca houve um desligamento com o sagrado. No máximo, um esquecimento.

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