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Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 16.05.2007

Existem, basicamente, dois tipos de pessoas que vão ao cinema: as que querem, contrariando todos os princípios da lógica, ver um filme, e as que fazem de tudo para atrapalhá-las!

Nada contra os tradicionais assovios e gritos, quando as luzes se apagam, nem contra os casais de namorados que aproveitam o “escurinho do cinema”, para trocar
  Cinema Paradiso
 


 

beijos apaixonados, incógnitos e discretos. O problema é com os que transformam ambientes de entretenimento público em palco de sua má-educação, falta de civilidade e babaquice.

As salas de hoje são bem mais confortáveis que as de dez anos atrás. O som beira a perfeição, quase como fizéssemos parte do ambiente do filme. Os sistemas digitais, brevemente, estarão disponíveis, ampliando a qualidade e dando total liberdade para a obtenção de efeitos visuais e sonoros livres de ruídos e chiados, e sem distorção ou perda de foco.

As poltronas são confortáveis, o ângulo de visão elimina o incômodo do vizinho da frente com complexo de limpador de pára-brisa. Já existem cinemas, sobretudo em parques de entretenimento, que possuem assentos que se movimentam sincronizados com a ação que se passa na tela.

Daqui a pouco poderemos pedir cachê e nome nos letreiros de tão interativo que o cinema está se tornando!

Só que todo esse primor técnico ainda não conseguiu eliminar o ruído da pipoca, comida de boca aberta; as sinfonias dos celulares; as bolsadas na cabeça; os solavancos das poltronas, provocados: pelas cruzadas de perna de longo percurso, pelo apoio de pés em busca do conforto individual pleno, ou pelos namorados mais empolgados, que beiram as vias de fato.

Invejoso? Não!

Ranzinza? Tampouco!

Experimentem fazer isso no teatro, numa peça do Antonio Fagundes...

Também existem os que vão em grandes grupos e passam o tempo todo “zoando” e, até, brigando uns com os outros, sem tomar conhecimento do direito dos demais estarem ali para cumprir o objetivo principal dos cinemas: ver filmes! Curioso é que sempre tem um ou dois que já viram o filme e ficam comentando, em voz alta, a próxima cena, o filme anterior do ator, as preferências pessoais, o que vão fazer depois da sessão, ou, literalmente, agindo como se estivessem numa roda de bate-papo. E pagam para isso!

E dá-lhe bailado de ponteiro "laser" na tela!

O filme não está interessante? Vá embora!

Quando você consegue, a muito custo, excluir mentalmente essas interferências ambientais, exercitando o autocontrole até o limite, surge aquele pai ou mãe que, com a conivência da direção do cinema, entra com um filho em fase pré-escolar para assistir um filme legendado ou impróprio. A opção é a tradução simultânea, com explicações, réplicas e tréplicas, ou choro desesperado. Só alegria...

Ir ao cinema é como ir a um estádio de futebol: se perder o lance não tem “replay” nem “pause”! E nem todos têm poder aquisitivo para adquirir um “home theater”.

Teoria de conspiração: Será que isto faz parte de uma estratégia dos produtores de filmes, para obrigar-nos a alugar ou comprar fitas e DVDs, por não ter, propositalmente, conseguido assistí-los direito no cinema? Bobagem! Os cinéfilos já fazem isso por puro deleite.

Apesar dos chatos de praxe, os grandes filmes continuarão a bater recordes e a telona continuará imbatível, sobrevivendo a todos os percalços. Mas quem quiser continuar a assistir filmes nesse templo sagrado da sétima arte terá que aprimorar cada vez mais a capacidade de isolar esses incômodos periféricos, ou até o absurdo dos cinemas terem que distribuir fones de ouvido esterilizados a cada sessão! Ou, quem sabe, uma boa dose de “Semancol”, distribuída junto com o bilhete, permitirá, um dia, apreciarmos o talento dos grandes artistas, a beleza dos grandes roteiros, a precisão dos diretores, cenógrafos, etc, e toda a tecnologia que a indústria do cinema gasta milhões para desenvolver, sem ter que aturar dublês de cidadãos, canastrões ou figurantes de quinta “fazendo arte” ao lado.

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