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Anselmo Heidrich - Publicado em 18.06.2007

No último dia de 2006, o sumo pontífice criticou os festejos de Réveillon. Esses “ritos mundanos, marcados principalmente pela diversão e vividos freqüentemente para evadir a realidade”. Nada mais adequado para quem acha que se pautar no conceito marxiano de alienação ajuda a compreender a realidade... Afinal, qualquer motivo para alegrar-se é equivocado, enquanto não se vislumbrar a verdade última.

  Papa Bento XVI
 


 

Gosto desse papa sem papas na língua. É isso mesmo Joseph! Tem que se dizer ao que veio. Sua sinceridade é deslumbrante. Mais recentemente, por ocasião de sua visita ao Brasil, disse: “A culpa é da sociedade moderna e seus quatro cavaleiros do apocalipse: o agnosticismo, o relativismo, o laicismo e o consumismo, destruidores dos valores morais e da tradição bíblica. E há um quinto: os meios de comunicação de massa.” É isto mesmo. Diferente de seu antecessor, o novo papa é direto e representa o que a Igreja, em outra conjuntura, tergiversou. Admiro, realmente, sua sinceridade, principalmente por que me permite discordar sem engano.

No entanto, mesmo sua santidade pode sucumbir aos encantos do consumo, como é o caso da maior montadora de veículos da Alemanha, a Mercedes-Benz. Se houvesse tanto desprezo assim pelo “consumo” seria mais apropriado usar um Trabant, automóvel “popular”1 produzido na extinta RDA. Ao invés de um luxuoso papa-móvel adaptado da Mercedez seria mais condizente que Ratzinger fizesse jus ao seu próprio julgamento e desfilasse em um veículo correspondente aos seus ensinamentos de humildade.

Assim como Al Gore, novo arauto da preocupação ambientalista mundial, mas que consome vinte vezes mais do que seus compatriotas, Joseph Ratzinger parece pregar algo que não faz questão de seguir. Talvez ele esteja criticando somente a obsessão por bens e não pelo seu Benz.

Nota:
1 - Na realidade, conseguir um carro destes, por pior que fosse sua máquina, não era tarefa fácil naquela sociedade sem oferta suficiente de bens de consumo. Era necessária entrar em uma lista de espera que, de tão lento, até hoje tem clientes para serem contemplados.
  Automóvel do Leste Europeu Papa Bento XVI
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