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Otávio Machado de Albuquerque - Publicado em 22.03.2007

Lula não se conformou em declarar seus ministros como heróis. Os novos heróis de Lula são os usineiros. É preciso dar um desconto para o presidente. Lula teve uma infância sofrida e nunca brincou de super-heróis. Adulto, Lula brinca com a paciência dos brasileiros.
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Toda a torcida do Corinthians sabia que Lula seria alvo de críticas desleais, algumas motivadas por inveja, outras por puro preconceito. Antes mesmo de Lula tomar posse havia uma clara demonstração que ele seria alvo de preconceitos por ser pobre e nordestino. No primeiro mandato Lula falou "menas" besteiras do que muitos imaginavam. Acontece que o Lula 2.0 está se superando nas afrontas à inteligência dos brasileiros. Se antes eram semanais agora elas são diárias. Não é porque ele tem pouca instrução que tem direito a dizer o que quer. Ele não tem o direito de dizer que a violência é quase uma questão de sobrevivência num país que morrem 50 mil pessoas por ano de forma violenta.

Lula esquece várias vezes que é o presidente da República. Afirmações sobre assuntos sexuais e futebolísticos fora de hora já eram esperadas pelos críticos e humoristas ávidos por material novo. Quando Lula declara ministros com processos e usineiros como heróis ele supera tudo o que disse de errado. Ele rasga todos os seus discursos anteriores. “Esqueçam o que eu disse” Está faltando apenas esta frase. Quando candidato Lula criticava os usineiros, Collor, a direita e os EUA. Em 2007 Lula aparece de mãos dadas com todos eles. Não basta ser aliado, tem de ser herói.

O novo jeito de fazer o mesmo
A reforma ministerial é só um exemplo do país que desce a ladeira. A maioria dos ocupantes das novas pastas não entende seu próximo ofício. A não ser que eles tenham superpoderes que nós ainda não sabemos. Os próximos heróis foram criticados anteriormente pelo presidente e outros o criticaram severamente. A política é a arte da conveniência. Se for mais vantajoso para seu futuro político Lula se distanciará de todos os seus atuais aliados com a mesma super-rapidez que seu superimã do poder os atraiu.

A prática de leiloar cargos não é nova nem exclusividade de Lula nem do PT, mas para quem assumiu prometendo revolucionar o Brasil o governo Lula é um governo caranguejo, anda apenas para o lado. Os defensores do "governo do povo" adoram criticar seus antecessores, em especial o governo de FHC. Dá para entender. É a briga do roto com o esfarrapado.

Lula tomou posse com eleitores e muitos não-eleitores esperançosos por mudanças. Era um homem do povo. O mensalão venceu a esperança e o tempo aniquilou a ingenuidade. Este não é um governo comprometido com os interesses do povo pela primeira vez na história "deste país", ao contrário do que os jornalistas amigos do rei tentam nos convencer. Caixa Dois não deveria ser uma pratica normal. O executivo deve saber o que acontece em assuntos de seu interesse. O presidente não pode ser "café-com-leite". Critica-se o governo Lula justamente por ser o mais duplipensado de nossa história. Eles dizem que são diferentes, mas quando é conveniente dizem que é uma pratica normal. Dizem que são revolucionários, mas praticam o mesmo que seus antecessores.

Defender o governo Lula é o mais alto grau do duplipensar. "Não é apenas uma troca de um homem por outro homem. De uma mulher por outra mulher. De um partido por outro partido. O que estamos consagrando a cada ministro que eu nomeio é um novo jeito, nova forma de fazer política no nosso país. É um momento de aprendizado para todos, que é a construção de uma política de coalizão que envolve partidos, governadores e prefeitos". Esta frase de nosso venerável presidente é apenas um exemplo. Este novo jeito de fazer política é praticado a milhares de anos. A coalizão de partidos tem em sua maioria ex-detratores de sua imagem que se juntaram de maneira oportuna ao "operário de esquerda". O aparelhamento produz rótulos de "elitismo" a todos aqueles que não se deixam convencer pela voz oficial.

Durante discurso em Mineiros (GO) o presidente se superou: "Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool. E por quê? Porque têm políticas sérias. E têm políticas sérias porque quando a gente quer ganhar o mercado externo, nós temos que ser mais sérios, porque nós temos que garantir para eles o atendimento ao suprimento". O mesmo (?!?) Lula na campanha de 1998 declarou que apenas usineiros, banqueiros e empresários estavam satisfeitos por que recebiam milhões do BNDES. Afirmava que FHC gostava de usineiros. Os males do Brasil eram sempre do FMI, elites, bancos, brancos e... usineiros. Eles viraram heróis!

Os próximos heróis
Está dada a largada para saber quem serão os próximos heróis de Lula. Serão bóias-frias, caseiros, aposentados, funcionários públicos, torneiros mecânicos ou serão seus antigos desafetos?

O "operário de esquerda no poder" declarou que ministros são heróis por que ganham apenas oito mil reais (mais benefícios). É pouco comparado com cargos executivos do setor privado, mas é muito num país que o salário mínimo é de R$ 350,00 e o salário médio é de R$ 904,80 (homens) e R$ 643,50 (mulheres), segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Os ministros (homens ou mulheres) ganham mais de dez vezes do que a média das mulheres.

Um jogador que ficou rico e foi para o exterior teria dito que não sabe como os brasileiros vivem com menos de 20 mil reais por mês. Quem te viu, quem te vê... Algumas pessoas de origem humilde enriquecem e se esquecem da época que 10 reais faziam muita diferença na carteira.

Quem sabe Lula não declara Fernando Collor como um herói por ter sofrido injustamente nas mãos das elites "destepaif". Por mais que tenha perdido seus direitos de forma arbitrária (Collor renunciou antes de perder os direitos políticos) o revisionismo de Collor não o torna herói. Collor caiu por muito menos do que os aloprados fizeram, mas não houve o interesse midiático de despertar os "conscientes" cara-pintadas em 2005. Quem sabe os novos heróis de Lula serão os que torturam os números até que eles confessem dados melhores. Lula pode declarar os idealizadores do Bolsa Bandido como heróis nacionais. Nada mais nos surpreende.

Eu sei o que você fez no governo passado
Lula Pedra foi enfeitiçado e se transformou em Lula Vidraça. No encontro com seus aliados o atual presidente evitou olhar para o ex-presidente. Afinal, ele faz parte da base aliada do governo. Quem diria que o Caçador de Marajás, Sarney, Eurico Miranda e setores da Arena iriam apoiar o torneiro mecânico mais rico deste país (ou "operário de esquerda" para as publicações de apoio ao governo). Nunca na história deste país a política pareceu tanto como nuvens. É possível que Lula e Collor voltem a ser inimigos.

E tem gente que vai defender os heróis de Lula em detrimento dos que se esforçam para sobreviver. Vão ler e concordar cegamente com os textos da imprensa chapa-branca. Você que paga os impostos em dia e sua para pagar o aluguel ou para comprar a sua própria casa, você não passa de um burguês, inimigo do povo. Você é o vilão. Mas se você tem um bandido na família em breve receberá dinheiro dos contribuintes. Se você tiver processos quem sabe não vira ministro? Abra um negócio e seja caçado como um bandido. Crie uma gangue e receba dinheiro dos contribuintes. A cada dia que passa o crime compensa mais e mais "nestepaif". Lamentável, mas nada está tão ruim que não possa piorar.

A nova Liga da Justiça
Os novos heróis eu não sei quem são, mas os atuais AbafaCPIman e Mulher Mensalão estão cada vez mais presentes. Os leitores já estão cansados do ApagãoMan, Homem-Vampiro, CuecaMan e da Supersaúva. É possível que sejam lançadas as revistas "Megausineiro contra o Pequeno Burguês", "SuperPIB contra o baixo real", "As novas aventuras do PACMan" ou o lançamento do "O Marinheiro PIBpeye", o que come espinafre transgênico para inflar o Produto Interno Brutus e salva assim, sua amada, Olívia Petralha, das garras da elites "destepaif".

Os super-heróis do fantástico mundo de Lula agradecem o seu esforço.

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Os heróis de Lula - Jaime Leitão

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