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Pobre e ultrajada cultura
Jaime Leitão - Publicado em 15.01.2007
Entra governo, sai governo, e a cultura fica em último plano, esquecida, recebendo pouquíssimos recursos para revelar novos talentos e patrocinar aqueles que já são reconhecidos, mas que acabam desaparecendo por falta de apoio. E o artista que não expõe, não publica, simplesmente desaparece, é engolido pelos discursos políticos, que não passam de obras-primas do mau gosto e da mesmice.
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Não estou dizendo que o Estado deve ser o paizão, que subvenciona todas as produções culturais: exposições, concertos, filmes. Mas é necessário desburocratizar as leis de incentivo cultural, que dão direito às empresas de abater no imposto de renda a importância investida, para que esses investimentos cresçam.
A cultura no Brasil é vista como artigo supérfluo. E esse tipo de visão só serve para que governos continuem explorando a pobreza e a ignorância para se manter no poder, sem demonstrar real interesse em colocar os artistas no papel de destaque que eles merecem.
A capacidade criadora e inventiva do brasileiro é extraordinária. Só que o apoio que se dá a um artista é praticamente nenhum. O ministério da Cultura não tem quase recursos. As secretarias estaduais e municipais também não.
Nas campanhas, fala-se em combater a pobreza com bolsa-família, mas não se fala em combater a ignorância, a pobreza de idéias, com eventos, cursos, escolas que fomentem a arte, a cultura, a leitura, a inteligência.
Tenho vários livros publicados, todos às minhas expensas, e mais uma meia dúzia inédita, que não publico por absoluta falta de recursos. E quem me patrocina? Não há recursos para isso. Um amigo meu, artista internacional, José Roberto Secchi, está no Chile representando o Brasil num evento importante de performances, e só conseguiu ir porque recebeu ajuda de amigos e parentes, e na volta ainda terá que honrar uma dívida que não é pequena.
Artista no Brasil é desprezado, maltratado, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, que prezam a inteligência, a cultura, a arte. Quando é que os nossos governantes irão compreender a importância da arte, da cultura, da poesia, do pensamento, da efervescência das idéias?
Desde criança observo a grande dificuldade por que passam aqueles que ousam produzir arte neste país. Gastam o que têm e o que não têm por amor ao que fazem e por necessidade de expressar o seu talento.
Ainda quero retornar a escrever sobre isso. Fico revoltado com o desapreço do poder público em relação aos artistas, como se eles fossem seres desprezíveis, que não merecessem a menor consideração.
E isso não muda. Nos debates entre os candidatos, fala-se de tudo, menos de cultura. A cultura no Brasil é ultrajada, humilhada , e é ela que perpetua a criação humana para além dos limites do espaço e do tempo. Isso precisa mudar com a máxima urgência.
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