Conforme a música - Nos anos de 1960 ter um aparelho de televisão ainda era um luxo para poucos. Mais de um, então, era algo inimaginável! < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 23.02.2007

Todas as vezes que eu uso meu computador a morte me estende a mão!

Quando eu digo isso, as pessoas se assustam, ou pensam que eu estou inventando... Mas é a pura realidade! Às vezes é a mão esquerda, outras é a direita, mas invariavelmente elas pousam sobre a torre de meu computador.

  Quando a morte estende a mão...
 


 

Será que isso é um aviso do “além” para que eu use menos essa máquina diabólica, que prejudica os olhos de tanto ler, e a musculatura dos dedos com a tal da LER? Será que é um sinal de alerta para que eu curta um pouco mais a vida, abandone o sedentarismo, e ponha o esqueleto para andar e praticar algum esporte? Afinal, diz o ditado latino: “Mens sana in corpore sano”!

Pensando bem, seria bom mesmo, pois, a seguir com meu ritmo atual, é bem provável que um dia um amigo me convide para jogar tênis e eu acabe descalço e sem o amigo! Bem, creio que não é para tanto, apesar de minhas origens “peninsulares”... Ou será que eu devo encarar esse pretenso “aviso” como uma forma de provar o poder do livre-arbítrio e a importância do ser humano não se submeter a superstições ou medos, que tanto tolhem o discernimento? Afinal, como dizem por aí: “a única certeza da vida é a morte”, e, portanto, não devemos viver em função só dela. Assim sendo, em lugar de temê-la eu deveria, consciente dela, amar cada vez mais a vida e tudo o que ela me dá: mulher, filho, amigos e a oportunidade de aprender e transformar.

Todo esse “racionalismo romântico”, no entanto, não elimina o fato de que toda a vez que eu uso meu computador a morte estende a mão em minha direção, e a pousa sobre a torre da CPU...

Será que essa torre cibernética é uma alegoria sobre Montaigne, que do alto da sua, de pedra, escrevia o que pensava sobre a natureza humana? Longe de mim fazer uma comparação leviana com o sábio francês, mas, hoje, eu sou apenas um dos milhões de pessoas que armazenam suas dúvidas e idéias nos HDs ocultos nas torres de computadores. Mas será que algum desses usuários vive uma situação metafísico-existencial semelhante à minha?

Quando eu contei o mórbido fato à minha esposa, ela duvidou; disse que eu estava sendo dramático, num momento; quase riu de mim, no seguinte; até que, um dia, também presenciou a cena, e sentiu-se culpada... Aliás, no mesmo momento em que escrevo esse texto a morte está lá, esquelética, com a mão esquerda ossuda repetindo o mesmo gesto...

Impressionante, não? Quase tenebroso! Mas, meu ceticismo de homem das ciências sabe que tudo isso pode ser resolvido sem apoio transcendental: Basta “exumar” o esqueleto de papel, articulado, que meu filho fez na escola, e que minha mulher pregou pela cabeça (à moda de “A Volta dos Mortos Vivos”) no quadro de cortiça, ao lado do computador. Se eu colocar o “falecido” (metáfora do desmatamento) em outra posição, no mesmo quadro, ou, ainda, se eu afastar um pouquinho mais a torre da parede onde ele fica, sua mão não enganchará mais na capa protetora da CPU, quando eu a removo, nem pousará mais sobre ela, quando solta. Acho que a última opção é mais segura; afinal, vá lá que eu tire o alfinete da testa do esqueleto e ele volte à vida...

Pensando bem, acho que vou deixar tudo como está. Afinal, a cena já se tornou tão familiar e inspiradora (ou a preguiça é tanta...) que pretendo continuar a aproveitar essa “metáfora” para filosofar positivamente sobre a vida e a morte... De vez em quando é bom!

Olha só: a esquelética mão acabou de fazer um sinal de “ok” para mim! Ela não é de morte?

  CD Quando a morte estende a mão... CD Quando a morte estende a mão...
Recomende este artigo
Recomende o artigo "Quando a morte estende a mão..." de Adilson Luiz Gonçalves.